25 de junho de 2021
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A vitória anunciada de Delcídio não resistiu ao choque gerencial da campanha

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 No dia em que começou oficialmente a campanha sucessória de Mato Grosso do Sul, poucos questionavam o favoritismo do senador Delcídio Amaral (PT). Era recorrente afirmar que o candidato petista só perderia para si próprio. As pesquisas, os indícios da preferência da opinião pública e o tratamento com que sua candidatura era recebida nos diversos ambientes tinham uma roupagem de celebração vitoriosa. Delcídio, porém, perdeu a eleição para Reinaldo Azambuja (PSDB). Seu último contato com a expectativa de vencer foi no final do primeiro turno, quando, por margem muito estreita, superou os dois principais concorrentes. Daquele momento em diante o cenário que antes era de otimismo e euforia transformou-se num panorama de inquietação.

A necessidade de um segundo turno caiu como um tanque de água gelada no QG delcidista. E foi naqueles 21 dias de prorrogação da disputa eleitoral que se tornaram muito mais visíveis os fatores embutidos nas advertências de quem, três meses antes, dizia que Delcídio só seria derrotado por si próprio, por seus próprios erros ou por inconveniências de sua campanha. Era preciso pensar melhor nos detalhes e nas conjunturas específicas, desde que caiu por terra a tentativa de tirar Azambuja da disputa, garantindo a ele o espaço político para candidatar-se ao Senado e, em troca, obtendo o compromisso de engatar a força tucana no projeto de Delcídio.

Apesar da disposição de ambos, a troca de apoios não prosperou e a Azambuja não restou outra saída senão lançar-se a governador. Seu espaço de deputado federal já estava comprometido com o amigo e correligionário Márcio Monteiro. E não seria difícil montar uma estratégia nada inédita, a mesma que quase o alçou ao segundo turno da sucessão de 2012 em Campo Grande. Mais uma vez, Nelsinho Trad lhe seria útil. Bastaria diferenciar-se do ex-prefeito e então candidato ao Governo para vencê-lo na tripla concorrência e levar a decisão ao segundo turno. Delcídio, no entanto, preferiu trabalhar com o que tinha e não buscou o que precisava: um choque gerencial de tática, estratégia e postura política para uma disputa que seria pulverizada em três opções fortes.

“JÁ GANHOU” - Antes mesmo de a campanha começar, com Delcídio em folgada frente nas pesquisas, era explícita pose do “já ganhou” em alguns interlocutores (assessores e colaboradores) do senador em diferentes níveis. Lideranças do interior e personagens anônimas da militância reclamavam da dificuldade de acesso não só ao candidato, mas a seus principais porta-vozes. Prefeitos reclamavam da falta de atenção, de chamadas telefônicas não-atendidas e até da forma como algumas pessoas eram tratadas. Justificável e até compreensível pelo ambiente agitado e quase sempre com horários indisponíveis e agendas acumuladas. Mas campanha é campanha e precisa ser planejada para não permitir que esses desencontros aconteçam.

O professor e empresário Pedro Chaves dos Santos (PSC), suplente de Delcídio, foi escolhido para coordenador da campanha. Na perspectiva lógica de que venceria e seria substituído por ele no Senado, o petista quis prestigiar o amigo e parceiro. Mas não deu a ele a chave central do comando de campanha. Nem a ele e nem ao ex-presidente regional do PT, Marcus Garcia. Ambos praticamente não tiveram a mobilidade e a autorização delegada para definir os diferentes passos da campanha, da mobilização ao marketing, das articulações às definições de estratégia. Essa condição acabou sendo apropriada por outras personagens.

No primeiro turno, os rumos da caminhada petista eram definidos quase sempre por assessores de gabinete de Delcídio, alguns alvos de boa parte das queixas de aliados e militantes; pela responsável na produção dos programas do horário eleitoral e peças de divulgação, com influência direta na condução da campanha, Sandra Santana (da equipe de João Santana, marqueteiro de Dilma Roussef e Lula). Outras figuras de destaque no PT e nas forças aliadas receberam papéis específicos na coordenação, como Gildo Oliveira, presidente do Diretório Municipal de Campo Grande, sem o perfil adequado para funções políticas dessa envergadura. No segundo turno, já com água no pescoço, a coordenação de campanha ainda levou para papéis centrais de mobilização o deputado federal Antonio Carlos Biffi, que não se reelegeu e cujo temperamento, de trato difícil e quase sempre explosivo, abriu novos furos na embarcação.

Zeca do PT, certamente o grande destaque do partido nas eleições - foi o mais votado na disputa para a Câmara dos Deputados - não teve tempo de turbinar os poucos dias de mobilização do segundo turno. A militância, um dos maiores diferenciais do PT, não teve dificuldade em constatar que havia muita coisa fora do esquadro. Desorganização e falta de gerenciamento e comando, principalmente. Pior que a falta de material eram problemas gerados por gargalos como o cruzamento de orientações contraditórias, muita gente dando ordens ou assumindo tarefas para as quais não tinha a necessária habilitação, vaidades em conflito e uma produção de marketing e divulgação das mais criticadas na história política e eleitoral do PT em Mato Grosso do Sul.

PMDB E PSDB - Quando ainda era o grande favorito das pesquisas, Delcídio tinha à disposição duas opções desafiadoras para, conseguindo uma delas, reduzir a concorrência e fortalecer ainda mais o alicerce político e eleitoral. O governador André Puccinelli (PMDN) e o deputado Reinaldo Azambuja sinalizaram. O petista preferiu Azambuja, mas deixou a impressão que queria trabalhar também com a simpatia do peemedebista. Não era difícil deduzir que seria impraticável construir uma aliança estadual violentando um princípio rígido e sacralizado pela conjuntura nacional de absoluta inconciliação entre PT e PSDB. A solução era administrar o imaginário da opinião pública que já assimilava a ideia de um Puccinelli mais interessado na vitória de Delcídio, a ponto de abrir mão de candidatar-se ao Senado e desviar-se da campanha de seu candidato para cuidar do final de governo, sua maior prioridade.

Mal havia iniciada a campanha, as conversas miúdas de influentes colaboradores de Delcídio já especulavam nomes para secretariado, presidência da Assembleia Legislativa, sucessão municipal. Agendas com o candidato eram tratadas num filtro absolutamente desplugado das necessidades de quem dependeria de votos para se eleger. Uma das reclamações mais contundentes era a de que assessores faziam a própria agenda de interesses para encaixar nas agendas do senador. Verdadeiras ou não, sobraram as reclamações neste sentido.

A rigor, pelo seu esforço hercúleo na tentativa de compor um acordo com Azambuja, mesmo arriscando-se ao mau humor da direção nacional do PT, Delcídio tenha sido o que mais soube avaliar a capacidade de crescimento político e eleitoral do tucano. Lutou quase só para fechar os caminhos à terceira via. Este sonho se desfez muito em cima do prazo para as convenções. Então, seria mais do que determinante planejar posturas e ajustes ao novo cenário. Não conseguiu. A campanha foi mal conduzida.

Os riscos foram mal calculados. O PT passou 80% do tempo na defensiva, sendo desconstruído gradualmente. Não conseguiu ou não soube explorar as contradições do adversário, especialmente sua aliança com Nelsinho Trad, parceria que havia amaldiçoado na sucessão campo-grandense que se comprometera a nunca mais reeditar. Quando o PT acordou, os perfis dos concorrentes já estavam bem sedimentados no imaginário do eleitorado.

E deu no que deu. Virada tucana incontestável. A diferença pró-Reinaldo no segundo turno foi de 10,32% (55,34% contra 44,66%). No primeiro, o petista havia derrotado o tucano com quase quatro pontos de frente (42,92% a 39,09%). A vitória anunciada durou três meses. Foi enterrada em 21 dias.

Redação