16 de agosto de 2022
Campo Grande 33º 23º

Travessias Cotidianas

Fabular a cidade: é impossível viver sozinho

Fabular a cidade: é impossível viver sozinho

Deve ter alamedas verdes

A cidade dos meus amores

E, quem dera, os moradores

E o prefeito e os varredores

E os pintores e os vendedores

Fossem somente crianças

Chico Buarque

 

A vida na cidade diz respeito a todos e a qualquer um. Afinal, compartilhamos ruas, muros, calçadas, bancos, trajetos, sons… 

Mas, nós ocupamos, de fato, a cidade em que vivemos?

Apesar de em sua materialidade ela possuir uma dimensão concreta e empírica, a cidade está sempre a ser inventada e recriada por aqueles que a ocupam! A verdade é que ela é uma grande fabulação coletiva, em vias de se desfazer e refazer. 

Entretanto, parece que a cidade se tornou quase opaca para nós. Apenas deslizamos entre os espaços internos casa-trabalho. A cidade perde o brilho, o encanto, a diferença. A gente se acostuma com um realismo já conhecido e esquece que a cidade é incessantemente produzida e o quanto isso impacta diretamente na forma como vivemos, amamos, sofremos e cuidamos uns dos outros.

Nasci e cresci em Campo Grande, mas, há alguns anos, as linhas que delineiam os mapas dos meus percursos por aqui começaram a ser tensionadas, esticadas e contornadas. Foi quando iniciei uma pesquisa no campo da Psicologia que me permitiu percorrer praças, bares, cortejos, rodas de conversa e espaços públicos do centro velho, em meados de 2019. 

O centro velho é localizado mais ou menos entre o bairro Amambaí e o centro comercial da cidade, ali onde passa a antiga ferrovia, sabe? Os limites desse bairro foram delimitados pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e pelos quartéis militares inaugurados no início do século XX. Esse movimento acompanhou a interiorização da urbanização do Centro-Oeste brasileiro. As matas nativas e os territórios dos povos tradicionais se tornaram fazendas, que, com a modernização, transformaram-se em lotes, quadras, casas, ruas e prédios.

Apesar de esquecido e abandonado, assisti esse território ser ocupado por grupos de movimentos artísticos e culturais de Campo Grande! Nos trajetos por ali, passei a ouvir outras vozes e a cidade ganhou novas colorações, preenchendo aquela opacidade desbotada. Para ouvir a cidade é preciso ocupá-la, sair na rua, pisar na calçada e ouvir um cortejo passar… 

Como escutar a cidade? O que ela tem a nos dizer sobre aquilo que somos? Talvez, mais do que dizer sobre aquilo que individualmente somos, ela diz de uma dimensão coletiva e compartilhada da vida. 

Quando escutei as poesias do Slam Camélias, meu corpo foi atravessado por histórias de outras mulheres, diferentes de mim, mas que habitam as mesmas superfícies que eu. Mulheres que sofrem os efeitos do racismo em seus corpos e compartilham sobre a vida no trabalho, na periferia, no amor… 

Como explicou Conceição Evaristo, os slams produzem uma gramática do cotidiano, através da linguagem oral e poética sobre vivências, dores e mazelas. 

Algumas batalhas de poesia aconteciam no Vagão Larica’s da Lu, onde intervenções artísticas iluminavam uma parte da área abandonada do centro velho e se articulavam com vida de pessoas em situação de rua que ocupavam a região. 

Na mesma região citadina era possível assistir o Teatro Imaginário Maracangalha invadir a Praça Ary Coelho para contar histórias que não são contadas nos jornais, como a do líder guarani Marçal de Souza, nos sensibilizando com as memórias enterradas pela colonização. 

Com melodias, bandeiras em punho e batuques ritmados, o teatro de rua invade ouvidos e olhares, convidando os transeuntes a se demorarem. Quebram o ritmo acelerado da vida urbana. Transgridem o imperativo da cidade como espaço de passagem e ocupam zonas invisibilizadas de Campo Grande.

Sabemos que trabalho, consumo, privatização e individualidade são alguns significantes que agenciam a vida urbana. Manter o olhar reto garante a eficiência de nossa circulação na urbe. 

Não é atoa que até o barulho é gerido por leis, como a Lei do Silêncio e, que a legislação municipal sobre o uso e ocupação dos espaços públicos fragiliza a possibilidade de grupos artísticos independentes ocuparem a cidade. O espaço é público, mas é administrado como se fosse privado.

A dicotomia público/privado é, na verdade, uma ilusão. A vida é comum. As feiras livres, as performances artísticas e as brincadeiras na rua transgridem a privatização urbana e nos lembram: a vida é compartilhada e dependemos uns dos outros!

Sobre o chão das ruas existem histórias, gritos, violências e vidas. As ruas comerciais, com seus letreiros coloridos, outrora foram florestas, construções, palco de conflitos, amores e encontros. As histórias do chão que pisamos nos constituem. Elas traçam marcas entre o nosso corpo e a cidade. 

É isso, a cidade vai deixando marcas na gente! O inverso é verdadeiro, nós também deixamos marcas na cidade. Mesmo através dos gestos mais ordinários grafamos caminhos e rotas. Essas grafias são uma espécie de escritos urbanos. 

Pense no corpo de uma pessoa em situação de rua, o quanto esse corpo mobiliza nossos trajetos!

São corpos invisíveis em suas necessidades básicas, mas bastante visíveis no incômodo que produzem à ordem citadina. A verdade é que só enxergamos esses corpos nas grafias que deixam em nosso trajeto e na intensidade do medo que nos causam. Roupas maltrapilhas, sacos de lixo, pedaços de papelão e diferentes tralhas figuram vidas que dormem e acordam no chão. 

No encontro com essas existências, nosso corpo se impele ao desvio. Músculos tesos, olhar desconfiado. Rapidamente buscamos as chaves do carro no bolso ou trocamos de calçada. Corpografias do medo. 

Há mais medo de coisas más do que coisas más de fato, Mia Couto nos disse algo parecido, salvo engano. O medo é um grande mobilizador da nossa vida na cidade, ou melhor, do nosso não-viver a cidade. 

Mas porquê estou escrevendo sobre o medo? Bem, ele fragiliza a ocupação da cidade e o encontro com a diferença. Ele nos impede de escutá-la. Em nome do medo, nos fechamos no espaço doméstico. Em nome do medo, a classe média alta se “protege” em condomínios de luxo. Em nome do medo, consumimos no espaço artificial dos shoppings centers. 

Em nome do medo não frequentamos praças, ruas, espaços públicos. Não nos encontramos com a diferença em sua alteridade radical. Em nome da segurança, aceitamos a privatização da vida. Aceitamos a individualização dos problemas coletivos, entre eles, os problemas psíquicos. 

A Lei nº 8.080, que regulamenta o Sistema Único de Saúde, entende como determinantes e condicionantes de saúde/adoecimento os seguintes elementos: moradia, alimentação, trabalho, meio ambiente, educação, transporte, lazer e acesso aos bens essenciais. Isso significa que a saúde é um fenômeno social e coletivo. A cidade é a plataforma onde os elementos produtores de saúde acontecem e ganham vida!

Ao mesmo tempo, os crescentes índices de depressão e ansiedade são tomados como adoecimentos de um corpo-individual. Mas, será que diante da transformação nos modos de organização do trabalho e da precarização da vida, o binômio depressão/ansiedade não é um sintoma coletivo? 

Essa provocação tem como objetivo dizer: precisamos uns dos outros para viver e a cidade é a plataforma para compartilharmos a vida. 

Como pensar a saúde psíquica sem considerar o modo como a gestão do transporte público faz com que trabalhadores gastem até 03 horas por dia no trajeto casa-trabalho? Como desconsiderar o impacto da ausência de espaços coletivos de lazer no desenvolvimento de crianças e adolescentes? Ou que a desocupação dos espaços públicos está diretamente relacionada ao aumento da violência urbana? Ou que o monitoramento policial nos centros urbanos tem como alvo corpos específicos, atravessados pela intersecção de raça e classe? 

Existe uma arquitetura política das cidades, em que o espaço é purificado, controlado, policiado e higienizado. Sair da arquitetura dos interiores para escutar as vozes da cidade — do teatro de rua, dos poetas, vendedores, moradores em situação de rua — talvez seja um caminho para fabular outros modos de viver, menos excludentes, competitivos, acelerados e ansiogênicos. 

A pandemia do coronavírus nos obrigou a uma parada ética em respeito à vida. Agora, como retomar a ocupação dos espaços? Como alargar as fronteiras da nossa vida e transpor as bordas da casa, do trabalho, em direção às calçadas, ruas, vielas, praças e territórios? 

Para além do ceticismo e do realismo já conhecido, é possível imaginar realidades em devir. A capacidade imaginativa é um recurso para uma vida vivível. Manoel de Barros escreveu em “O livro das ignorãças” que a imaginação transvê, transfigura o mundo, faz outro mundo. 

Acho que a escuta clínica tem um tanto disso! Escutar para além da narrativa já conhecida, buscar os detalhes que nos trouxeram até aqui e fabular novas histórias, futuros, cidades. 

É hora de fabular outra cidade possível. Afinal, é impossível viver sozinho.

Me. Júlia Arruda Palmiere
Psicóloga (CRP - 14/08263)

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