28 de novembro de 2020
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LENDAS DA MÚSICA

O solitário embarque de um dos maiores ícones do pop-romântico

O francês Christophe, que gravou "Aline", um dos maiores sucessos na história da música

Nas brincadeiras dançantes de casa, serenatas, bailes no clube, nas rodas de amigos, ruas, praças, escolas e ônibus – enfim, nos anos 1960, gente de todas as idades e nos mais diversos lugares do planeta, cantava, assoviavam ou punham para rodar no toca-discos repetidas vezes a música “Aline”. Melosa, no arrastar previsível da harmonia mais simples de um pop-romântico, a canção tinha uma receita diferenciada que a fez acontecer e firmar-se entre os maiores sucessos musicais da história: o seu intérprete original, o francês Christophe.

No início da noite da última quinta-feira, 16, aos 74 anos – faria 75 em outubro -, em um hospital de paris, aonde estava internado desde 26 de março, Christophe dava o seu adeus final. Deixava, no entanto, além da indescritível saudade na família e nos fãs, uma história de sucessos e de angústias, iniciada em 1965, quanto gravou o disco “Aline”. A música está entre os maiores e mais executados sucessos do pop-romântico da história. Mas Christophe – ou Daniel bevilacqua, nome de batismo - era uma espécie de dedo de Midas para fabricar hits, gravando, entre outros títulos de repercussão planetária, “Les Marionetttes”, “Les Mots Bleus”, “Les Paradis Perdus”.

Depois de um punhado de álbuns, alguns elogiados, outros enquadrados como brega, ele caiu mais uma vez no ostracismo na segunda metade dos anos 80. Passou quase dez anos fora dos estúdios. Em 1996, voltou com Bevilacqua, um disco em que enfatiza sintetizadores, com o repertório inteiro assinado por ele, afastando-se do modelo convencional da canção. Problemas pessoais, alguns assegura que se deveram às drogas, outros à depressão, o levaram a dar mais uma parada, em que ficou cinco anos sem gravar.

 PARCERIAS

Além de Jean-Michel Jarre, parceiro de dezenas de canções, Christophe criou, cantou, atuou e conviveu com astros e estrelas ao nível de com Joe Dassin, Michel Polnareff, Françoise Hardy, Frank Alamo, Johnny Hallyday, Sylvie Vartan, Serge Gainsbourg, Gail Ann Dorsey (baixista que tocou com David Bowie), Carmine Apice (do Vanilla Fudge, Cactus) e Lou Reed, a quem homenageou em um de seus álbuns. Seu último disco, “Les Vestiges du Chaos”, foi gravado em 2016.

Quem quiser buscar outra comparação para enquadrar a música de Christophe pode, sem medo, carimbar: iê-iê-iê. E ele era um dos intérpretes mais ouvidos por aquela geração brasileira que inventou a jovem guarda de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia & Cia. Também não é equivocado colar o rótulo de “brega” nas canções do francês de “Aline”. Ele não se importaria. Afinal, tinha suas inspirações impregnadas de romantismo que iam do “água com açúcar” ao mais refinado desvario de amor.

E foi assim, no dilema entre o prazer de compor e cantar e os dissabores por tristezas remoídas, que tomou cáusticos caminhos, sem no entanto perder a alegria da vida com a família e os amigos e de outros exageros, como o jogo, o álcool, as drogas. Quando sua morte foi comunicada pela família, especulou-se que Christophe teria sido mais uma vítima do coronavírus. A esposa, porém, afirmou ter sido um enfisema pulmonar.