21 de janeiro de 2021
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Agricultura familiar deixa de vender R$ 105 mil para merenda e culpa falta da logística de transport

Os agricultores familiares de Sidrolândia deixaram de faturar ano passado R$ 105 mil com a venda de frutas, verduras e legumes para a merenda escolar fornecida aos alunos da rede municipal de ensino. Eles atribuem à perda deste faturamento as dificuldades na logística de transporte do campo até a Secretaria Municipal de Educação. Até 2012 a Prefeitura bancava este transporte usando dois caminhões baús doados pela Fundação Banco do Brasil e o Ministério do Desenvolvimento Rural para entrega dos produtos comprados dos assentados por meio do Programa de Aquisição de Alimentos da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) A atual administração transferiu o custo do óleo diesel para os produtores. “Cada viagem gera uma despesa de R$ 150,00”, explica o assentado Dilson Wanderly Lopes, para quem esta despesa, combinada com o fato das escolas terem feito poucas encomendas da agricultura familiar, desestimulou muita gente de manter suas hortas.Na região do Assentamento Eldorado o grupo liderado por Dilson, o Alemão, chegou a ter 42 assentados, hoje só seis estão produzindo regularmente para atender o mercado de Campo Grande. Ano passado a Prefeitura só conseguiu gastar 15% dos recursos do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE) com compras para merenda escolar de pequenos produtores, metade dos 30% determinados pela lei federal 11.947. Dos R$ 701.500,00 liberados, os assentados só receberam R$ 105.450,00, quando foram disponibilizados R$ 210.450,00. Um desempenho pior que o de 2012, quando o faturamento superou R$ 189 mil, o equivalente a 27% da verba. Alemão, por exemplo, fechou contrato no valor de R$ 20 mil para fornecer às escolas alface, couve-flor e repolho, mas o que conseguiu entregar lhe rendeu só R$ 1 mil. Ele contesta também a determinação da Secretaria de Educação de entregar as encomendas nas escolas rurais próximo do assentamento. “Isto não tem cabimento. Não vou sair do meu lote, pagando o combustível, para entregar dois pés de alface”, comenta. O presidente da Cooperativa Agropecuária Mista da Agricultura Familiar, Francisco Rodrigues, do Assentamento Santa Terezinha, enfrentou a mesma situação. Fechou contrato para vender um volume de bananas no valor de R$ 20 mil e só entregou R$ 3 mil. “Tive que vender a um preço baixo ou até mesmo doar para os vizinhos esta produção que sobrou”, comenta. Este baixo nível de aquisição frustrou os assentados que chegaram a doar 3 mil peças de alface em praça pública como forma de protesto por não terem conseguido entregar toda a produção prevista nos dois contratos de aquisição firmados pela Prefeitura com uma associação de produtores e a Cooperativa Mista da Agricultura Familiar (Coopamaf). O contrato com a Cooperativa, envolvendo 43 produtores, previa a compra de produtos no valor de R$ 178 mil, mas o faturamento bruto ficou em R$ 52 mil, ou seja, R$ 120 mil deixaram de circular ano passado nos assentamentos. Na sexta-feira produtores, representantes das secretarias de Educação, Finanças, Desenvolvimento Rural, se reuniram. O objetivo era discutir a questão e buscar alternativas que garantam que os R$ 250 mil do orçamento da merenda escolar reservados aos agricultores familiares de fato cheguem aos assentados. Os secretários presentes não conseguiram dar resposta a principal reivindicação, que a Prefeitura volte a custear o transporte. A secretária de Planejamento, Administração e Finanças, Carmem Gandolf, garantiu que o prefeito Ari Basso não vai rever a decisão (de subsidiar o diesel) porque o benefício não teria respaldo legal. O presidente da Cooperativa, Francisco Rodrigues, não se convenceu com os argumentos e pretende se reunir com o prefeito para tentar convencê-lo. “Vamos buscar uma parceria para que a cooperativa abasteça as escolas rurais diretamente dos assentamentos, sem necessidade dos produtos serem trazidos até a Secretaria de Educação, para depois voltarem à zona rural”. A nutricionista Viviane Rinaldi Nantes, responsável pela elaboração do cardápio da merenda, diz que se pretendeu evitar o “passeio” desnecessário dos produtos até a cidade. “Adotamos a entrega semanal, porque isto garante produtos mais saudáveis”, explica. Até 2012, segundo ela, os assentados levavam suas entregas diretamente na Secretaria. “Traziam de motocicletas, nos seus veículos. Ano passado, a gente praticamente não viu mais os produtores aqui”. Região News