16 de maio de 2022
Campo Grande 21º 13º

SOLIDARIEDADE | JARDIM NOROESTE (CG-MS)

Após filho morrer com injeção aplicada na UPA, mãe luta contra depressão e pede ajuda

Camila relembra terrível episódio que culminou na morte do filho de 3 anos; ela luta para que haja investigação do caso

A- A+

Camila Alves Seles, de 30 anos, mãe de 4 filhos, está pedindo ajuda para sair do aluguel. Ela está “encostada pelo INSS” com diagnóstico de depressão e transtorno bipolar, doença que desenvolveu após perder o filho de apenas 3 anos e 10 meses, que ela diz ter sido vítima de “erro médico”. Mulher, negra, Camila relata uma vida terrível de quem foi submetida ao abandono materno e a tragédia em um posto de saúde público (entenda abaixo).

Ela vive com os 4 filhos: Kauanny, de 13 anos, Tairone, de 8 anos, Dhemlly, de 7 anos e Emanuel, de 2 anos, e o marido Mateus, de 29 anos, numa casa alugada na Rua Borborema, no Jardim Noroeste.

Ao receber a reportagem em uma sala simples, onde havia apenas um sofá e uma mesinha de madeira, Camila estava com outra pessoa em casa, sua mãe, Maria Alves Lourenço, de 59 anos, que havia sido reencontrada poucos dias antes de a equipe do MS Notícias ir entrevistar Camila. 

Essas são Camila e a mãe, Maria Alves Lourenço, de 59 anos. Foto: Tero QueirozEssas são Camila e a mãe, Maria Alves Lourenço, de 59 anos. Foto: Tero Queiroz

“Ela desapareceu quando eu tinha 5 anos, largou eu e meus irmãos. Agora esses dias o Cetremi [Centro de Triagem e Encaminhamento do Migrante e População de Rua] me ligou e me disse que encontrou uma mulher que seria minha mãe, uma surpresa enorme. Eu estou destruída, sem condições de nada, mas não podia deixar ela lá, então fui buscá-la”, introduziu Camila.

Essa é Maria Alves Lourenço, de 59 anos. Ela abandonou Camila e os 5 irmãos ainda criança. Foto: Tero QueirozEssa é Maria Alves Lourenço, de 59 anos. Ela abandonou Camila e os 5 irmãos ainda criança. Ela tem diagnóstico de doença psicológica e usa remédios controlados. Foto: Tero Queiroz

Resumidamente, a história de Maria com os filhos é a seguinte: Maria desapareceu quando eles eram crianças, deixando-os com o pai. Maria reapareceu em 2007, depois sumiu novamente. Essa é a segunda vez que ela reaparece. A idosa tem diagnóstico de doença psicológica e foi encontrada caminhando a esmo em Campo Grande e levada ao Cetremi na condição de andarilha. 

Alguns madeirites fora levantados no quintal que Camila está pagando. Foto: Arquivo pessoal Alguns madeirites foram levantados no quintal que Camila está pagando. Foto: Arquivo pessoal 

Voltando para a história de Camila. Antes de ela perder o filho, havia começado a investir no sonho de ter a casa própria. Ela descobriu e negociou com um vendedor um terreno, na época ela trabalhava como doméstica, assim como seu esposo. “Aí eu trabalhando normalmente, eu pegava meu salário, fiz uma rifa também e saí vendendo, assim eu consegui arrecadar R$ 4 mil que dei de entrada. Aí o homem foi parcelando o resto e ainda estou pagando. O valor total é R$ 18 mil”, explicou. Depois de perder o filho, porém, muita coisa mudou.

MORTE NO UBER

Camila vive sob o efeito de calmantes de 7 tipos para suportar perda precoce e repentina do filho. Foto: Tero QueirozCamila vive sob o efeito de calmantes de 7 tipos para suportar perda precoce e repentina do filho. Foto: Tero Queiroz

Davi Felipe Alves Seles Maciel, de 3 anos e 10 meses, apresentou dores na perna e reclamou para a mãe no domingo (1º.dez.2019). No dia seguinte, segunda-feira (2.dez.19), Camila, então, levou o filho à Unidade de Pronto Atendimento do Universitário. Lá, o médico pediatra Silvio Maiolino ordenou que fosse aplicado nela uma dose de despacilina na criança. Camila diz que o médico receitou uma dose superior ao peso do filho dela. “Meu filho tinha 19 kg e essa medicação é para criança de 25 kg”, explicou. 

"Esse é o amor da minha vida que se foi, por causa de erro da saúde pública meu príncipe ", disse Camila ao compartilhar essa imagem de David com o repórter. Foto: Arquivo pessoal 

Depois disso, Camila diz que o filho só piorou. “Ele não foi resfriado para lá. E eles colocaram aqui no prontuário que ele chegou com resfriado. A minha vizinha que é enfermeira disse que essa injeção só pode dar para criança acima de 25 quilos e meu filho só tinha 19 quilos. Eu falo que foi a injeção [que matou ele], porque ele estava normal, até que tomou a injeção e começou a piorar, ficou gelado. Eu fui de novo no posto, chegando lá eles me trataram mal, vieram perguntando por que eu fui de novo se o remédio para fazer efeito precisava esperar 24h. Mas meu filho estava pior, eu falei: moço, faz pelo menos um raio-X! Aí que eles fizeram o Raio-X disseram que não tinha nada na perna dele e que poderia ser Sinovite, só que eles não fizeram nada, não fizeram exame, nem nada”, lembrou a mãe.

Prontuário mostra que nos dias 3, 4 e 5 de dezembro a mãe levou o filho ao UPA Universitário para que ele fosse salvo, mas em todas as ocasiões foi mandada de volta para casa. Foto: Tero QueirozProntuário mostra que nos dias 3, 4 e 5 de dezembro a mãe levou o filho ao UPA Universitário para que ele fosse salvo, mas em todas as ocasiões foi mandada de volta para casa. Foto: Tero Queiroz

Ao voltar para casa, na sexta-feira (5.dez.19) da mesma semana, o pequeno David piorou o quadro, a mãe disse que, diante disso, decidiu correr para outra unidade de Saúde, na ocasião chamou o Uber para ir até a Unidade de Pronto Atendimento do Coronel Antonino. “Eu entrei no Uber, andamos um pouco, ele estava molinho nos meus braços e morreu no meu colo dentro do Uber, me olhando (pausa)... ele morreu de olhos abertos, me olhando, nos meus braços. Desde então, para suportar isso é só com esse monte de remédio, no dia 12 ele faria 6 anos, mas hoje fazem 2 anos que eu não posso abraçá-lo”, narrou a mãe.

O atestado de óbito do pequeno Davi. Essa imagem teve que ser capturada várias vezes, pois, Camila tremia muito enquanto segura esse documento. Foto: Tero QueirozO atestado de óbito do pequeno Davi. Essa imagem teve que ser capturada várias vezes, pois, Camila tremia muito enquanto segura esse documento. Foto: Tero Queiroz

Davi morreu em 6 de dezembro de 2019, às 13h30. Segundo o atestado, a causa foi choque séptico com foco pulmonar, entendido na ocasião como “morte natural”. “Estamos com uma ação na justiça. Porque eu não acredito que foi essa morte natural. Os médicos falam que fizeram tudo que pode, claro, vão falar isso. Meu filho morreu rapidamente e ninguém, nenhum deles soube dizer o que causou a morte dele. Todos os meus filhos, assim como o Davi, são saudáveis moço... (silêncio). Eu não tinha, para você ter uma ideia, eu não tinha dinheiro e nem pagava PAX para enterrar meu filho. Meu filho morto e os médicos me perguntando se eu usava droga, porque ele morreu de olho aberto, vidrado... isso está dentro de mim o tempo todo”, desabafou Camila. 

Camila fez pausas longas durante o momento que mostrava essas documentações. Foto: Tero QueirozCamila fez pausas longas durante o momento que mostrava essas documentações. Foto: Tero Queiroz

“Eu recebi o contato de um advogada, porque a Dona Sandra, (uma conhecida) me ajudou com isso e inclusive ela ajudou a conseguirmos fazer o enterro dele e está me ajudando com esse processo. Eu tenho todas as provas, mas pelo amor de Deus, preciso de muito mais ajuda”, completou.

"SONHO PELO OUTROS!"

Tairone, de 8 anos, abraça a mãe ao notar estado em que ela ficou ao relembrar morte de Davi. Foto: Tero Queiroz Tairone, de 8 anos, abraça a mãe ao notar estado em que ela ficou ao relembrar morte de Davi. Foto: Tero Queiroz 

Camila, apesar de doente, quer fazer uma casinha no terreno. “Quero fazer pelos meus outros filhos, sonhos pelos outros filhos, eles são o único sentido disso tudo aqui. A minha mãe também precisa de um lugar, se eu conseguir levantar duas peças está ótimo, 4 peças era meu sonho, mas se me ajudarem a construir 2 já será uma benção, porque ao menos paro de gastar os R$ 1 mil que recebo do INSS tudo com isso”, explicou.

E raro sorriso durante a entrevista, Camila ficou tímida ao falar de qual era o sonho de casa a ideal para ela e família. Foto: Tero QueirozEm raro sorriso durante a entrevista, Camila ficou tímida ao falar de qual era o sonho de casa a ideal para ela e família. Foto: Tero Queiroz

O terreno de Camila fica há algumas quadras no mesmo bairro. Para solucionar o problema de não conseguir manter as contas a mãe já cogita algo extremo. “Eu já pensei e até meu pai falou isso, se não tiver outra saída, vamos juntar e comprar uns madeirites e a gente entra embaixo de uma casa de madeirite mesmo. Porque o aluguel já está vencido esse mês, tinha um monte vencido, mas minha sogra parcelou no cartão de crédito. Por causa da pandemia ficamos 6 meses sem receber o pagamento do meu salário, porque eles não tinham perícia”, esclareceu.

Ela diz que se construir uma peça para todos eles, se muda para o local onde não terá que pagar aluguel. Foto: Tero QueirozEla diz que se construir uma peça para todos eles, se muda para o local onde não terá que pagar aluguel. Foto: Tero Queiroz

A mãe diz que agora precisa da ajuda das pessoas para que consiga fazer um lugar para ela, os filhos, o esposo e agora a avó das crianças, morar. “Meu esposo está com o braço quebrado, afastado do trabalho. Hoje ele foi lá buscar uma janela e uma porta que eu ganhei do meu pai. Para mim, se eu conseguir fazer uma peça e uma banheiro lá já está ótimo. Eu preciso de tijolos, cimento, telha, pedra, areia, madeira para cobertura, fios de energia, o que as pessoas puderem doar. Porque estou pagando R$ 500 por mês lá no terreno e R$ 600 aqui no aluguel, se eu for para lá, uso esse dinheiro aqui para as nossas necessidades e das crianças”. 

Camila lamenta a quantidade de remédios que consome para lutar contra a depressão e diz que alguns deles até já acabaram. Foto: Tero QueirozCamila lamenta a quantidade de remédios que consome para lutar contra a depressão e diz que alguns deles até já acabaram. Foto: Tero Queiroz

Para suportar a ausência trágica de Davi, Camila faz uso de 7 tipos de remédios controlados, desses, 2 tipos ela tem que comprar. Apesar disso, a mãe diz estar sem condições, temendo aprofundar o quadro depressivo, ela acrescenta. “Gente, eu sei que agora estou nessa situação, sempre trabalhei, mas agora estou mesmo pedindo, porque sei que não estou em condições de decidir, mas tenho que seguir pelos meus outros filhos. Quem puder me ajudar, com os materiais ou até com qualquer quantia, tenho certeza de que Deus há de devolver tudo multiplicado”, finalizou.

Camila pede doação de cama e colchão para a mãe, reencontrada recentemente. Maria está dormindo nesse colchão no chão, na casa de Camila. Foto: Tero Queiroz  Camila pede doação de cama e colchão para a mãe, reencontrada recentemente. Maria está dormindo nesse colchão no chão, na casa de Camila. Foto: Tero Queiroz  

Maria, a mãe de Camila, está dormindo em um colchão no chão na casa. A filha ainda disse que caso alguém tenha uma cama com algum colchão e que esteja em desuso, ela aceitaria de coração.  

Para doar para Camila, basta procurar ela no endereço na Rua Borborema - para saber o número da casa ligue para ela pelo telefone:  67 99112-6192. Camila também disse que caso a pessoa possa doar quantias em dinheiro para ajudá-la a comprar os materiais, basta fazer o PIX no CPF: 047.343.061-41. Ela encaminhará uma mensagem para o doador, com o cupom fiscal do que foi comprado com o dinheiro doado.    

 

*Corrigimos às 22h21 de 17 de janeiro de 2022.