28 de fevereiro de 2024
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OPERAÇÃO TEMPUS VERITATIS

"Espero que vocês saibam o que estão fazendo", alertou Coronel de MS à Mauro Cid

Conhecido como 'Cavalo', coronel ouviu de Mauro Cid: "Eu também... senão eu estou preso (sic)"

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O tentente-coronel do Exército Sergio Ricardo Cavaliére de Medeiros, de Mato Grosso do Sul, alvo da Operação Tempus Veritatis, deflagrada nesta 5ª. feira (8.fev.24) pela Polícia Federal (PF), trocou mensagens com o então ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), Mauro Cid, em outubro de 2022, sugerindo que temia a fragilidade da acusação de fraude nas urnas perpetrada pelos extremistas de direita para pavimentar um golpe de estado no Brasil.

As ordens foram expedidas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que determinou que Bolsonaro entregue o passaporte e não fale com outros investigados. No fim da manhã, a PF apreendeu o documento, que estava no escritório do ex-presidente na sede do PL, em Brasília. Na ocasião, Valdemar Costa Neto acabou preso em flagrante por porte ilegal de arma de fogo.  

Como mostramos mais cedo aqui no MS Notícias, Bolsonaro dividiu os aliados para o golpe de estado em 6 núcleos. Sergio Ricardo Cavaliere de Medeiros integrava o 'Núcleo de desinformação e ataques ao sistema eleitoral'. Conheça os demais núcleos, aqui.  

Conforme o documento oficial da investigação (acesse abaixo a íntegra do processo), numa conversa no aplicativo WhatsApp, o coronel de MS está nomeado como ‘Cavalo’. Ele alerta: “Espero, sinceramente, que vocês saibam o que estão fazendo. No que Cid responde: “Eu também... senão eu estou preso (sic)”. Eis a conversa: 

Então o coronel de MS pergunta sobre o resultado das buscas por fraudes nas urnas: “Conseguiram plotar?”. Cid responde: “Nada... Nenhum indício de fraude” (sic). Eis a conversa:

Na sequência, o coronel manda um arquivo de áudio contando como ele e um indivíduo chamado ‘Gabriel’ acharam supostas fragilidades nas urnas numa busca caseira. O coronel exalta a si e a Gabriel como superiores aos agentes da ABIN. “E aí Boris, beleza? Cara, bom demais se você tiver uns contatos aí. Vou explicar meio que rapidinho o que a gente está fazendo desde o início. Logo que saiu os arquivos do TSE, que nunca liberaram, o Gabriel falou: ah, vou pegar esses arquivos aí pra ver o que a gente encontra de inconsistência. E beleza, baixou o arquivo.  Levou três dias, quatro dias eu acho, pra, pra pegar... Beleza, pegamos os arquivos e começamos a analisar eles é... começou a encontrar um monte de inconsistência de dados de horários... E beleza, aí a gente encontrou um monte de inconsistência e falou: cara, tá muito errado isso aqui, mas a gente teria que encontrar alguém lá de cima, né? Do governo principalmente para auditar isso daqui e no segundo turno, é... conseguir ver realmente o que que tá acontecendo. Andamos em rede social por esse monte de povo aí: governador, deputado, esse povo aí que foi eleito, mais os que tão... O Eduardo Bolsonaro ninguém respondeu... E falamos: putz, grita, né? E falamos: Vamos colocar na internet? Se colocar na internet direto viraliza..., mas aí acaba que chega meio distorcida a informação. Por coincidência uma tia do Gabriel tá na mesma igreja da Damares, da ministra. É... Aí a Damares ela escutou... beleza, é amiga dela e passou um contato de uma assessora do Bolsonaro. Aí, em vez deles ali, do Núcleo do Governo ir atrás, acho que ou por desconsiderar ou não acreditar alguma coisa... que que ela fez... Ela passou a informação pro pessoal e de alguma forma essa assessora. Não sei se ela falou ou não... Mas chamaram o pessoal da ABIN, da Agência Nacional. A pequena dando trabalho, vou terminar em outro áudio (sic)”, disse.

O coronel continua o conto: “Esses caras da ABIN vieram aqui ficaram dois ou três dias... Aí, não é desmerecendo, cara, mas a gente entr... chegou numa conclusão que os caras estudaram para entrar num concurso... passaram no concurso, mas tecnicamente são fracos demais..., então o que levou aqui, dois, três dias para fazer os scripts. Os programas de pegar todos os arquivos. O arquivo log que esse cara que apareceu da Argentina aí que ele conseguiu descriptografar, o Gabriel descriptografou... seis dias... fez um script em quatro, cinco dias... No sexto dia a gente estava com os logs todo decodificado e com todas as informações... Então, eles vieram e a gente percebeu que foi mais... pra especular e saber como a gente chegou naquele resultado. Porque eles falou: ah, como você abriu? Então eles ficaram mais espesc... eu acho que eles ficaram mais espantados em saber que tinha conseguido descriptografar o logo do que saber realmente que tinha informação (sic)”.

Na narrativa do coronel, aparentemente 'os caras da ABIN' não querem ajudar a desvendar nada e que o ‘cara lá de cima’ tinha jogado a toalha, por isso ele orientou ‘Gabriel’ a abandonar a empreitada. “Aí três dias antes da eleição a gente falou: cara, a gente tamo dando um monte de urna, é? Pra ser auditada e que tá com problema. Vocês precisam ver isso daí agora no segundo turno, que tá faltando três dias pra eleição... eles não viram nenhuma urna, não auditaram nenhuma novamente, parece, assim... que eles tão mais vendo o que tá acontecendo, ou é falta de informação, falta de conhecimento, não sei. Ou eles não querem passar a informação pra frente. Aí, ah, eles falam... teve um áudio deles que eles falam: ah, parece que o pessoal do... lá de cima, não tá querendo. Está jogando a toalha. Eu falei: ó Gabriel, abandona esse povo aí, que isso daí vai ser atraso de vida. É mais fácil eles atrapalharem do que querer ajudar (sic)”, completou. Eis a íntegra da investigação — a conversa entre o coronel e Mauro Cid está entre as páginas 71 e 74. 

Na decisão, além de autorizar as buscas e prisões, Alexandre de Moraes autorizou a solicitação da PF para afastamento de Sergio e mais 6 militares da ativa suspeitos de integrarem a organização golpista montada por Jair Bolsonaro. Os demais fardados acusados de golpismo, são:

  • Cleverson Ney Magalhães, coronel;
  • Estevam Theophilo Gaspar de Oliveira, general;
  • Guilherme Marques Almeida, tenente-coronel;
  • Hélio Ferreira Lima, tenente-coronel;
  • Mario Fernandes, general; e,
  • Ronald Ferreira de Araújo Júnior.

Ao requerer o afastamento dos militares, a PF apontou que os elementos probatórios reunidos ao longo da investigação evidenciaram que eles “se utilizaram diretamente dos cargos públicos que exerciam tanto em ações relacionadas a tentativa de execução do Golpe de Estado, quanto para eximir possível responsabilidade criminal pelos atos até então já realizados”.

OPERAÇÃO TEMPUS VERITATIS

Como mostramos aqui no MS Notícias, a PF cumpre nesta 5ª feira (8.fev.24), ao menos 33 buscas em dez estados contra generais, coroneis, assessores, aliados políticos e contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). 

Além de Valdemar Costa Neto, também foram presos hoje: 

  • Filipe Martins, ex-assessor especial de Bolsonaro;
  • Marcelo Câmara, coronel da reserva do Exército citado em investigações como a dos presentes oficiais vendidos pela gestão Bolsonaro e a das supostas fraudes nos cartões de vacina da família Bolsonaro;
  • Rafael Martins, major das Forças Especiais do Exército.

Além deles, Jair Bolsonaro e aliados militares teriam sido delatados por Mauro Cid

As diligências integram a nova fase das investigações que miram o gabinete do ódio durante o governo
do ex-presidente.

A operação foi chamada de "Tempus Veritatis", que siguinifica: "hora da verdade", em latim.