30 de setembro de 2020
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Queiram ou não: sucessão passa por André Puccinelli

Que o senador Delcídio Amaral (PT) é o grande favorito de hoje na disputa sucessória em Mato Grosso do Sul, poucos duvidam. Boa parte desse favoritismo deve ser creditado aos méritos do petista. Mas outra significativa parcela do impulso dado ao seu projeto é o fato de a concorrência não ter achado um nome capaz de, ao menos, rabiscar no mapa das hipóteses uma projeção de segundo turno. Aquela que poderia ser o grande adversário de Delcídio é André Puccinelli, mas os peemedebistas lamentam não dispor mais dessa alternativa, pois o governador está impedido por lei de disputar uma segunda reeleição consecutiva.

Quem conhece a política nos seus desenhos regionais, e neles consegue decifrar as letras mais minúsculas, verá que no perfil pessoal e político Delcídio e Puccinelli se equiparam na capacidade de seduzir o eleitorado. Um de folha de serviços mais conhecida e assimilada pela sociedade por causa do acúmulo testado e aprovado: na vida profissional se notabilizou fazendo medicina no interior e como secretário estadual de Saúde, trafegando em seguida por mandatos na Assembléia Legislativa, Câmara dos Deputados, Prefeitura da maior cidade do Estado (duas vezes) e governador reeleito de Mato Grosso do Sul. Outro, que aos olhos do grande público passou desapercebido como executivo de mega-projetos hidrelétricos no Brasil e no exterior e ministro interino, só alcançando o estrelato político depois de conquistar dois mandatos de senador e neles desempenhado papéis de fortíssimo apelo midiático.

Para os que acreditam na possibilidade de surgir algo excepcional capaz de conter o avanço de Delcídio, a esperança é mínima, residual, mas real. Mesmo impedido de concorrer à reeleição, Puccinelli ainda não queimou quase nada dos cartuchos que dispõe para outubro. O processo começa a tomar a direção que ele havia planejado, sem precisar, para isso, de tomar iniciativas precipitadas quanto ao seu projeto pessoal. No que toca à ansiedade às demandas do partido, a pré-candidatura de Nelson Trad Filho é um ensaio a sério, mas sem data de validade. Pode vingar ou não, pode ser robustecido ou desfalecer antes de a convenção homologatória ser convocada pelo PMDB.

NA BALANÇA - A palavra final para o projeto político-eleitoral do PMDB-MS não está dependendo dos ventos exclusivos que forem soprados pelo desempenho de Nelsinho Trad nas pesquisas ou pelo tamanho do favoritismo de Delcídio. O que vai pesar mesmo na balança será a proporção do impacto das questões nacionais nos assuntos de natureza local. A tempestade que já se abate sobre a candidatura da presidenta Dilma à reeleição enfia num mesmo barco interesses paroquiais por enquanto distantes do olho do furacão. Em Mato Grosso do Sul, Delcídio tem a liberdade de agir e buscar o seu melhor campo de alianças eleitorais. Para tanto, obteve a compreensão de Dilma Roussef, do ex-presidente Lula e do ex-governador Zeca para atrair o PSDB e assestar o alvo na direção do PMDB.

Unidos, Delcídio e o tucano Reinaldo Azambuja formariam, em tese, a combinação devastadora no sentido de arrasar o PT. Mas as conversas que rolam instigadas por essa avaliação não passam de uma libertinagem circunstancial. É episódica. É uma licença de efeito pré-eleitoral, só vai vigorar alguns meses, talvez até fevereiro, quando o País estiver sob novo período governativo. E se for Dilma a presidenta reeleita, diante de um Congresso no qual as forças se equilibram, cada voto de senador valerá de fato quanto pesa. Será, então, a circunstância congressual, que dura quatro longos anos e está diretamente ligada ao nível de governabilidade. O PSDB de Azambuja, ao que se sabe, aposta no crescimento das oposições para infernizar Dilma, dilmistas, PT e petistas, governo e governistas.

XEQUE-MATE - Para completar a salada, e na sua iguaria mais apurada, à mesa está posta e disposta a relação entre Puccinelli e a presidenta Dilma, com interesses cada dia mais comuns, uma querendo votos dos eleitores para se reeleger e dos senadores para governar; e outro, decidido a fechar seu governo e o MS Forte com a prosaica e panteônica “chave de ouro”, quem sabe um mandato na Câmara Alta e seus fiéis sob generoso guarda-chuva.

Quem sabe o que Dilma e Puccinelli conversaram...e conversam...bem, esta o italiano não conta. Guarda para a hora em que começar o xadrez. O governador não está jogando fora do tabuleiro, como alguns imaginam de maneira equivocada. Ele está muito bem postado e não fez questão de jogar com as brancas, as pedras que iniciam a partida. Sabe que, sem pressa, pode dar o xeque-mate.

Edson Moraes, especial para MS Notícias