Reduzir o debate à ideia de uma suposta “guerra híbrida” entre Zeca do PT e aliados contra o Dr. Eloy Terena é, no mínimo, uma simplificação que desvia o foco do que realmente importa: a efetividade das políticas públicas e a realidade vivida nos territórios indígenas de Mato Grosso do Sul.
Ninguém afirma que o Ministério dos Povos Indígenas “não fez absolutamente nada”. O que se questiona, de forma legítima e baseada na vivência concreta das comunidades, é a natureza, o alcance e os impactos reais dessas ações, sobretudo quando contrastadas com o discurso oficial.
No caso da chamada “regularização fundiária” da Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, é preciso dizer com todas as letras: o que houve foi um acordo milionário envolvendo o Dr. Luiz Eloy e setores ruralistas que, por décadas, usurparam, exploraram e degradaram o território indígena. Trata-se de um arranjo que não assegura segurança jurídica plena da posse, tampouco foi acompanhado de qualquer plano estruturado de recuperação ambiental e desenvolvimento social. O território foi devolvido aos indígenas contaminado por agrotóxicos, exaurido pelo monocultivo e pela pecuária. Hoje, não há possibilidade de plantar rama, abóbora ou batata-doce — o que cresce é braquiária. E cabe a pergunta, simples e dura: quem come braquiária?
Quanto aos projetos produtivos, como a piscicultura anunciada pelo MPI, também é preciso romper com a propaganda. Em territórios Terena, o projeto não é comunitário, tendo sido direcionado a uma única família, o que contraria princípios básicos de coletividade, equidade e fortalecimento comunitário. Isso não resolve a insegurança alimentar, não gera autonomia territorial e tampouco atende às necessidades do conjunto das aldeias.
É evidente que as responsabilidades pela garantia de direitos indígenas são compartilhadas entre vários órgãos — FUNAI, SESAI, DSEI, ministérios setoriais e governos estaduais. Mas, justamente por isso, a criação do Ministério dos Povos Indígenas gerou uma expectativa legítima: que houvesse coordenação, incidência política forte e capacidade de articular soluções estruturais para todas as demandas dos povos indígenas brasileiros. Na prática, essa expectativa não vem se concretizando.
Ao invés de priorizar a ampliação do orçamento da Saúde Indígena, fortalecer a SESAI e os DSEI e atuar politicamente para resolver gargalos históricos, o que se vê, muitas vezes, é o MPI disputando narrativa institucional, enquanto a realidade nas aldeias segue marcada por falta de atendimento, saneamento precário e insegurança alimentar.
Um exemplo disso é o Programa Nacional de Saneamento Indígena, que, até o momento, sequer pôde ser lançado por ausência de garantia orçamentária. Qual é, afinal, a contribuição financeira concreta do MPI para esse programa? Que esforços reais estão sendo feitos para articular recursos de outros ministérios — Cidades, Saúde, Meio Ambiente, Planejamento — para viabilizar uma política estruturante tão básica quanto água potável e esgotamento sanitário nas aldeias?
É fundamental registrar também que as críticas recentes feitas por Zeca do PT à gestão de Eloy não surgiram do nada, nem de vaidade pessoal ou oportunismo eleitoral, mas partiram de solicitações diretas de diversos caciques, especialmente após a exoneração de Elvis Terena da FUNAI/CR Campo Grande. São demandas legítimas, formuladas por quem vive diariamente no território e não percebe a presença efetiva do MPI nas aldeias, ao mesmo tempo em que assiste à realização de eventos com estruturas milionárias, painéis de LED e pouca conexão com as urgências reais das comunidades.
Criticar isso não é atacar o movimento indígena, nem “sabotar” governo algum. Ao contrário: é exigir coerência entre discurso e prática, entre orçamento e prioridade, entre símbolo e política pública concreta. Silenciar diante dessas contradições, sim, seria um desserviço aos povos indígenas.
O debate não é maniqueísta, não é “esquerda versus direita”, nem disputa personalista. É sobre território vivo, comida no prato, água limpa, saúde funcionando e dignidade. E, nesse campo, infelizmente, ainda há um abismo entre o que se anuncia e o que chega às aldeias.
Reconhecer isso é o primeiro passo para corrigir rumos. Fingir que está tudo bem, não.











