22 de maio de 2024
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MASSACRE AO POVO INDÍGENA

Márcio é executado em emboscada em Amambai

Genocídio indígena continua em MS; indígenas denunciam que polícia tenta culpar filho que teve o pai indígena morte em massacre do Batalhão de Choque, há 20 dias

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O indígena guarani kaiowá Márcio Pereira, de 35 anos, foi assassinado na tarde desta quinta-feira (14.jul.22) ao ser atraído para “trabalhar” em uma construção em Amambai (MS).

O município é palco de conflito por terras e onde o Batalhão de Polícia Militar agiu ilegalmente e matou o indígena Vitor Fernandes, de 42 anos e feriu outros dez, no início de junho. Mostramos essa situação aqui no MS Notícias.  

A Polícia Civil disse que o crime pode ter envolvimento com os conflitos de terras por indígenas em Amambai. Há "possível envolvimento com as recentes invasões de terras por indígenas em Amambai", levantou o delegado Caio Macedo ao g1.  

Apesar disso, a polícia não deu detalhes e nem confirmou a identidade do possível assassino.

Em documento (a íntegra), a Assembleia Geral do povo Kaiowá e Guarani (Aty Guasu) disse que no território Tekoha Gwapo'y Mi Tujury, cinco  Guaranis Kaiowás sofreram uma emboscada que resultou na morte de uma pessoa. Além disso, a polícia teria prendido o filho Willis Fernandes Kaiowá, filho de Vitor Fernandes Kaiowá (morto no massacre), acusando o jovem de ser o autor dos disparos.

A Aty Guasu disse que os Guaranis Kaiowás foram chamados para executar um serviço que consistia na construção de um muro, no Coamo Agroindustrial Cooperativa, na rodovia MS 386, KM 1, próximo à entrada da Aldeia. “Mas chegando lá, perceberam que não havia trabalho nenhum e que se tratava de uma emboscada, onde encontraram em torno de 20 pistoleiros, jagunços e policiais que deferiram mais uma ação desumana. Márcio Moreira, uma liderança Guarani Kaiowá do Tekoha Gwapo'y Mi Tujury, tombou nesta emboscada, no qual foi torturado e acometido de vários tiros a queima roupa”, contaram.  

Na nota, o coletivo ainda disse que o filho de Vitor foi levado para a delegacia, ferido com a ação, e está falsamente sendo acusado pela Polícia Militar de ter cometido os crimes que aconteceram. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Outros dois Guaranis Kaiowás seguem desaparecidos e suspeita-se que estejam sendo torturados por pistoleiros. O único sobrevivente da emboscada que conseguiu escapar correndo da situação, obteve algumas lesões corporais e tiros de raspão, que também relata que reconheceu uma pessoa que estava junto aos pistoleiros, chamado Rafael Cabrera Figueiredo [de 33 anos] (imagem abaixo), taxista conhecido da região e que tem várias passagens pela Polícia”, denunciaram. 

Rafael Cabrera Figueiredo [de 33 anos]. Foto: Reprodução Rafael Cabrera Figueiredo [de 33 anos]. Foto: Reprodução 

Ainda segundo a Aty Guasu, neste exato momento, lideranças Guarani Kaiowá estão se dirigindo para a região que novamente segue em alerta. “Em menos de um mês, no mesmo local, aconteceu o Massacre de Guapo'y, já com decisão judicial, a mesma região encontra-se hoje novamente sendo atacada pela milícia rural. Novamente temos o abuso policial que aterroriza a Nação Guarani Kaiowá no território Tekoha Gwapo'y Mi Tujury”, finalizam em nota.

Até o fechamento da reportagem a Polícia Civil não havia disponibilizado um boletim de ocorrência sobre o caso. 

ABANDONADOS E MASSACRADOS PELO ESTADO BRASILEIRO 

Família Indígena Guarani Kiowa na área de ocupação na fazenda "Borda da Mata", em Amambaí. Foto: Associação Humanitária Universitários em Defesa da Vida  UNIVIDAFamília Indígena Guarani Kiowa na área de ocupação na fazenda "Borda da Mata", em Amambaí. Foto: Associação Humanitária Universitários em Defesa da Vida – UNIVIDA

O governo Federal deveria proteger os indígenas nessa zona de conflito. A Polícia Federal (PF) é a institruição que tem essa permissão para o fazer. Entretanto, ao longo dos 3 e 6 meses de governo de Jair Bolsonaro (PL), a situação dos indígenas só piorou cada vez mais com estado de Mato Grosso do Sul sempre omisso. Nada vem sendo feito e mortes, atrás de feridos. Sempre quem perde: os povos indígena!

Segundo relato do Fundador e Coordenador da Associação Humanitária Universitários em Defesa da Vida (Univida), Padre Eduardo Alves de Lima, da Diocese de Jales, a situação em Amambaí é desoladora.  

— O que vi, com o pequeno grupo que me acompanhou, médico, enfermeira, pessoal da comunicação da  UNIVIDA, foi desolador. Região de retomada, com os típicos barracos de lona e chão batido, que resguardavam os feridos do último ataque sofrido. Chocante.

— Criança e idosa com ferimentos à bala – 12 e 85 anos, respectivamente. Já me ocorre: qual ameaça seriam capazes de representar diante de agressores armados?!

— Criança e idosa com ferimentos à bala, qual ameaça seriam capazes de representar diante de agressores armados?! — questiona ele, em artigo publicado no Portal do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Ao tentar se defender desarmado, indígena teve a mãe transpassado por bala. Foto: Associação Humanitária Universitários em Defesa da Vida  UNIVIDAAo tentar se defender desarmado, indígena teve a mãe transpassado por bala. Foto: Associação Humanitária Universitários em Defesa da Vida – UNIVIDA

— Também vimos mãos traspassadas por munição, quando espalmadas em atitude de proteção, foram alvejadas. Uma universitária, coletando dados para sua monografia, foi flagrada pela violência, recebeu um projétil e está acamada. Outro, com a perna ferida e infeccionada, precisando urgentemente de cuidados, sem recebê-los.

Indígena recebe atendimento médico de voluntário em área de ocupação do território Guarani Kiowa em Amambaí - MS.Foto: Associação Humanitária Universitários em Defesa da Vida  UNIVIDAIndígena recebe atendimento médico de voluntário em área de ocupação do território Guarani Kiowa em Amambaí - MS. Foto: Associação Humanitária Universitários em Defesa da Vida – UNIVIDA

— E a comiseração nos atinge, percebendo o medo, desesperança e solidão daqueles sozinhos em sua luta pela terra ancestral. A missão em Dourados, contou com 230 voluntários de diversas universidades, profissionais da saúde e outros voluntários — narrou. 

A UNIVIDA 

Desde 2012, a Associação Humanitária Universitários em Defesa da Vida (UNIVIDA) realiza missões anuais junto à Reserva de Dourados ofertando atendimentos médicos de diversas especialidades. Somando mais de 20.000 atendimentos, sua missão é promover ações de saúde e de melhoria da qualidade de vida para os povos indígenas, por meio do trabalho voluntário de jovens universitários, na intenção de sensibilizá-los socialmente, humanizá-los para sua prática profissional e levar atendimentos humanitárias a populações esquecidas.

A missão realizada nestes dias em Dourados, contou com 230 voluntários de diversas universidades do País, além de profissionais da saúde e outros voluntários.