13 de junho de 2024
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Há oito anos, Maneco dizia caminhar para as origens

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A edição 89 da revista Metrópole, de dezembro de 2006,  trouxe em sua capa uma das mais belas e intensas entrevistas já realizadas com Manoel de Barros. Foi o jornalista Bosco Martins o autor da façanha. Amigo pessoal do poeta, ele presenteou os leitores da revista – já desativada – com belas fotos, manuscritos e declarações iluminadas deste gênio que curtia o anonimato, o chão, as vidas voantes e rastejantes, águas e plantas.

“Manoel de barros e a Infância da Língua” o título da matéria de capa, talvez explicando o que não precisava explicar, aquele sorriso marotíssimo e generoso de quem se afirmava na incompletude de quem desconstruía a palavra para sublimá-la.  Tinha 90 anos e recebera opela segunda vez o Prêmio Nestlé de Literatura.  A revista publicou um texto para agradecer e parabenizar o poeta. E Maneco, de próprio punho, disse “de nada” à sua maneira. Assim: “PS: Escrever em Absurdez faz causa para poesia. Eu falo e escrevo Absurdez. Me sinto emancipado” – trecho de um de seus poemas, “Um Songo!, publicado na íntegra nesta edição da revista.

Na entrevista pinga-fogo (ou bate-bola), Manoel fala sobre a influência de Guimarães Rosa e conta com foi seu encontro com o escritor de “Grande Sertão: Veredas” e “Sagarana”. Assim, na simplicidade poética de sempre: “Conheci o Rosa na primeira viagem que ele fazia para o Pantanal. Fui ao encontro de um mito. Porque para mim ele era um mito. Porém, no instante que o conheci, ele se tornou um ser amável e de boa conversa. Conversamos sobre nada e passarinhos. Foi uma conversa instrutiva”.

Ao ser questionado sobre seu conceito de vanguarda primitiva, por ter morado com índios e revelar fascínio pelas ancestralidades, o poeta não se economizou no pendor. E sapecou: “Tenho em mim um sentimento de aldeia e dos primórdios. Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens. Não sei se isso é um gosto literário ou uma coisa genérica. Procurei sempre chegar ao criançamento das palavras. O conceito de vanguarda primitiva há de ser virtude na minha fascinação pelo primitivo. Essa fascinação me levou a conhecer melhor os índios. Gosto muito também de ler as narrativas dos antropólogos”.

Manoel de Barros morreu aos 97 anos no dia 13 de novembro passado, em Campo Grande. Havia escrito 18 livros de poesia, obras infantis e textos autobiográficos. Vivia quase em total anonimato, pois era arredio a holofotes e paparicos midiáticos. Simples, hospitaleiro, era bom proseador e gostava de receber visitas.  Mato-grossense de nascimento, dizia que seu viver não tinha divisões e que sua territorialidade era a palavra.

 Edson Moraes