23 de outubro de 2020
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Festival fez de Porto Murtinho capital cultural de MS

O Festival de Cultura e Turismo de Porto Murtinho fez desta uma cidade única no país nos dias 13 e 14, sexta-feira e sábado. Poucos municípios de pequeno porte - e eles são 90% no Brasil - conseguem reunir num só ambiente, a já acanhada Praça de Eventos, tanta diversidade de culturas, tradições, costumes, linguagens e estéticas produzidas e mantidas pela resistência da cultura popular.

Mais de 400 homens e mulheres do Brasil, do Paraguai, de outras nacionalidades e origens, de todas as faixas etárias, distribuídos em duas dezenas de diferentes formações artístico-culturais, fizeram de Porto Murtinho uma sucursal bem mais ampla e mais democrática que os grandes fóruns mundiais. Só que intimista de verdade, nem um pouco sisuda e nada protocolar. Uma Babel de todas as línguas numa só: a cultura que a alma humana produz para as mãos humanas tocarem e as mentes humanas usufruírem.

O Festival exibiu na Praça grupos de dança e folclore que deram ao público a chance de rever e conhecer manifestações arraigadas nas diversas culturas regionais: a raríssima Folia de Reis (de Bodoquena, uma das que restam no Estado, junto com as de Camapuã e Paranaíba); os bailarinos e bailarinas das companhias Ibero-Americano de Folclore, de Assunción, e grupos de dança de Carmello Peralta, Vallemy  Guia Lopes da Laguna; a Orquestra de Violões, o Coral Meninas Cantoras, a Banda Musical, e o Projeto Ritmo e Movimento, da Escola Estadual José Bonifácio, de Porto Murtinho; a Cia de Dança Urbana e o Danças Folclórias da Colônia Paraguaia, de Campo Grande; as duplas Hugo & Rafaela e Los Divinos e as cantoras Duda Marques e Vanessa Ayala.

PASSEIO CULTURAL - No pátio, entre touradas e sagas teatralizadas, o grande público passeou pela cultura universal por meio de danças, cantos, sons e alegorias que remetem a manifestações de vários continentes, como a polca e a galopa de paraguaias-galoperas em vestidos esvoaçantes equilibrando em sua dança eletrizante cântaros de barro sobre a cabeça; o malambo argentino, a catira e a ladainha da Folia de Reis, a chula portuguesa adaptada pelos povos dos Pampas, a lambada, o carimbó, as espanholas paso doble e flamenco, a cachuca (originária de Cuba e adotada na Espanha), entre outras. Tudo isso adornou o grande momento do festival que foi a narrativa teatro-musical da história do Touro Candil, com o desafio entre os touros Bandido e Encantado, num fascinante espetáculo de cores, celebração religiosa no culto à Virgem de Caacupê e afirmação de identidades e sentimentos arrigados no coração das pessoas.

Só quem viu de perto pode experimentar a sensação singular e inebriar-se diante da comovente dedicação das pessoas à arte que prodeuzem. Fazem arte como se estivessem respirando. Tecem as ligas de suas alegorias como se estivessem tecendo na própria vida sua melhor fantasia.

Os gritos no embalo da galopeira, no sapateado dos malamberos ou no lamento índio que evocam o ruído de vozes nativas não são o oposto do silêncio. O índio, extensão e profundidade da terra bruta e pura, ensina que a palavra tem espírito e, de tão importante, reforça o valor do silêncio. Por isso, na língua tupi-guarani há sete vogais, chamadas de tons - e a sétima é a vogal do silêncio, aquela que diz tudo o que vem do espírito, o que vem de Deus.

São palavras ditas, ouvidas e contempladas pelos olhos de quem acredita ser possível fazer da arte e da cultura laços firmes de convivência e de amor entre todas as pessoas. Como bem frisou a frase da bandeira desfraldada no final da performance do Grupo Ibero-Americano de Folclore de Assunción: "Que Deus dê Paz ao mundo".

Edson Moraes, especial para o MS Notícias