26 de novembro de 2020
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ESTRANHO

Bolsonaro envia texto apócrifo para dizer nada a presidente do STF

Atitude misteriosa e ambígua sobre movimento golpistas expõe fragilidade política e emocional do presidente

Se estava querendo de fato recuperar-se do desgaste pessoal com as instituições, o presidente Jair Bolsonaro escolheu um caminho contraditório. E enviou ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Tofoli, um texto sem indicativo de autoria e redigido na terceira pessoa, cujo conteúdo é de aprovação às manifestações populares, mas recrimina que elas reivindiquem violações constitucionais e a reedição da ditadura militar.

A ambiguidade do texto, remetida pelo aplicativo whatssapp, expõe o comportamento duvidoso do chefe da Nação, que com frequência e pessoalmente vem dando seu apoio e incentivando ostensivamente as mobilizações convocadas para pedir rupturas políticas e institucionais, entre as quais intervenção das Forças Armadas, reedição de medidas de exceção, como o AI-5, e o fechamento do STF e do Congresso.

No texto, não há uma única referência de cunho pessoal com um pedido de desculpas ou uma justificativa do presidente sobre seu enfático discurso de apoio aos manifestantes que no domingo, em frente a uma unidade do Exército em Brasília, erguiam cartazes e faixas pedindo intervenção militar e ecoavam agressões ao STF, ao Congresso e aos presidentes das duas instituições. Tofoli, o deputado federal Rodrigo Maia (DEM/RJ) e o senador David Alcolumbre (DEM/TO) eram alvos centrais das agressivas e palavras-de-ordem na manifestação.

A mensagem, citando o artigo 142 da Constituição, sugere aos adeptos da intervenção militar que decidam qual general deverá assumir a presidência e pede que seja mostrado aonde está na Carta Magna esta ação excepcional. Em seguida, o conteúdo apócrifo considera a manifestação golpista “justa e garantida” pela Constituição, incentiva que ocupem as ruas, recomendando, entretanto, que “não ataquem Presidência, Supremo ou Congresso, mas aquilo que você julga que deve ser mudado”.

RECUO 

Como se sabe, a ala militar instalada no Planalto pressiona o presidente para que faça um esforço no sentido de recuar e arrefecer a tensão com o Congresso e o Supremo. Ministros da Corte e parlamentares estão reagindo duramente aos violentos e ofensivos ataques que vêm recebendo nas ruas e redes sociais pelos seguidores de Jair Bolsonaro. Depois do desastrado discurso aos manifestantes de Brasília que pediam a volta da ditadura, e recriminado pelos militares palacianos, Bolsonaro baixou o tom e vende a versão de que é constitucionalista e defende a democracia e a liberdade.

Contudo, suas atitudes recorrentes e a carta sem indicação de autoria e enviada a Tofoli sem ao menos uma explicação, desmentem Jair Bolsonaro. É só conferir o teor do texto, obtido pela jornalista Vera Magalhães e publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo”. Se fosse escrito pelo presidente, estaria assinado por ele. Como não o fez, está mantida a dúvida sobre qual Jair Bolsonaro está governando o país, se é o que apoia manifestações golpistas ou o que jura ser fiel à Constituição e à ordem democrática. 

Eis a mensagem:  

“Aos que pedem Intervenção Militar (Art. 142) ANTES, devem decidir qual General ocupará a cadeira do Capitão Jair Bolsonaro. Aqueles que pedem AI-5 ANTES, devem mostrar onde está na Constituição tal dispositivo.

Toda manifestação é justa e garantida em nossa CF, portanto vão para as ruas, mas tenham uma pauta real, objetiva, com foco na missão. Não ataquem Presidência, Supremo ou Congresso, mas aquilo que você julga que deve ser mudado.Exijam ações, cobrem votações, critiquem sentenças, vocês atingirão seus objetivos.

O próprio Presidente tem dito que deve lealdade ao povo, assim como as Forças Armadas. Unam esforços, o povo quer um Brasil diferente do que temos ainda, mas para isso deve escolher suas pautas, e também suas armas democráticas.

Dia 19, dia do Exército, o Presidente bem disse: "Agora é o povo no poder. Mais do que o direito, vocês têm a obrigação de lutar pelo país de vocês.

Contem com o seu Presidente para fazer tudo aquilo que for necessário para que nós possamos manter a nossa democracia e garantir aquilo que há de mais sagrado para nós, que é a nossa liberdade. VÁ E VENÇA"