A consulta de avaliação em uma clínica dermatológica de Campo Grande dura, hoje, em média 40 minutos. Há cinco anos, durava 15. A diferença está no perfil da paciente. Ela chega com referências salvas no celular, pergunta sobre nome do produto, lote, plano de aplicação, alternativas. Não quer mais um resultado que mude o rosto. Quer um resultado que pareça com ela, só que descansada.
A virada de discurso, percebida no consultório antes de virar dado de pesquisa, ajuda a explicar o crescimento consistente de um procedimento específico em Mato Grosso do Sul: o preenchimento com ácido hialurônico.
A substância já se firmou como o segundo procedimento não cirúrgico mais procurado no Brasil, atrás apenas da toxina botulínica. Foram mais de 176 mil aplicações em 2024, segundo o relatório anual da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS). O dado reflete um movimento global: no mundo, foram 6,3 milhões de aplicações no mesmo período, com alta de 5,2% em relação ao ano anterior.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) registrou aumento de 390% na realização de tratamentos estéticos no país nos últimos anos, com cerca de 80% dos entrevistados em pesquisa relatando já ter feito algum procedimento minimamente invasivo.
Em Mato Grosso do Sul, o reflexo aparece na expansão da rede de clínicas dermatológicas. Campo Grande tem hoje uma oferta de profissionais titulados que cresceu em paralelo à chegada de pacientes vindos de cidades menores do estado e até de regiões vizinhas, em um fenômeno que o setor já chama de turismo estético.
As vendas nacionais de higiene e beleza atingiram R$ 156,5 bilhões em 2023, alta de 12,7% segundo a Associação Brasileira de Embalagens, em curva que sustenta a expansão regional do mercado.
A virada do padrão de beleza no consultório
A mudança no que a paciente pede começou a ficar visível entre 2022 e 2024, e teve consequência prática imediata. Pacientes que aplicaram produtos permanentes nos anos anteriores começaram a procurar dermatologistas pedindo para desfazer aplicações antigas.
A queixa se repetia: o resultado parecia artificial, exagerado, envelhecedor. Esse movimento empurrou a demanda na direção de procedimentos reabsorvíveis e ajustáveis, exatamente o perfil do ácido hialurônico de uso médico.
A diferença técnica em relação a alternativas como o PMMA, o popular polimetilmetacrilato, é o que sustenta a preferência. O ácido hialurônico é uma substância naturalmente presente no organismo, biodegradável e absorvida progressivamente pelo próprio metabolismo ao longo de 12 a 18 meses.
Substâncias permanentes, ao contrário, não têm caminho de retorno e foram associadas a quadros graves de inflamação crônica, granulomas, deformidades e infecções. Sociedades médicas nacionais e internacionais desaconselham seu uso em regiões corporais há anos.
Para o paciente, a característica reabsorvível oferece dois ganhos. O primeiro é a possibilidade de calibrar o resultado em cada nova aplicação, ajustando volume, posição e intensidade conforme a evolução da própria estética.
O segundo é a margem de correção: existe uma enzima específica, a hialuronidase, capaz de dissolver o produto em situações de complicação ou de resultado fora do esperado. Essa rede de segurança, ausente nas alternativas permanentes, é parte do que explica a migração consistente do mercado.
Por que o procedimento foge do estereótipo do exagero
O ácido hialurônico aplicado por médico não tem como objetivo aumentar dramaticamente uma região. A técnica atual, conhecida no meio dermatológico por nomes como MD Codes, trabalha em pontos anatômicos específicos para devolver estrutura, sustentação e proporção. O efeito aparece imediatamente e evolui nas semanas seguintes, conforme a substância se acomoda nos tecidos.
A literatura científica consultada por especialistas no acompanhamento clínico reforça que o avanço da técnica nas últimas décadas envolveu não apenas o produto em si, mas o conhecimento anatômico aplicado, a evolução das cânulas e o protocolo de manejo de complicações.
O resultado natural, hoje considerado padrão de qualidade, depende dessa soma de fatores. E não da quantidade de seringas usadas. Aliás, é justamente o contrário: as técnicas mais avançadas trabalham com volumes menores e distribuição estratégica, em vez do volume excessivo concentrado em um único ponto.
A prática antiga, comum até a metade dos anos 2010, foi a principal responsável pela imagem distorcida do procedimento e pelos resultados artificiais que hoje as pacientes pedem para desfazer.
Segundo Dra. Mariana Cabral, dermatologista com experiência em preenchimento com ácido hialurônico em Goiânia, a consulta médica costuma considerar fatores que vão além do desejo da paciente naquele momento. Histórico clínico, medicações em uso, condições da pele, expectativa realista de resultado e adequação do produto à região tratada entram na decisão.
Em alguns casos, a indicação não é o ácido hialurônico, e sim outra técnica, ou nenhuma técnica de aplicação imediata. Esse filtro é parte do que distingue um atendimento médico de uma sessão comercial.
A expansão para o corpo e a frente da harmonização glútea
O uso da substância deixou de ser exclusivo do rosto. Em paralelo aos procedimentos faciais, cresceu de forma acelerada a aplicação em regiões corporais, especialmente para correção de assimetrias, contorno e volume discreto.
A harmonização glútea com ácido hialurônico entrou para o cotidiano das clínicas dermatológicas como uma das frentes mais procuradas pelo público feminino entre 25 e 50 anos, segundo levantamentos do setor, com indicações que vão de remodelagem leve à correção da depressão trocantérica conhecida como hip dip.
A técnica utiliza ácido hialurônico de alta densidade, em formulação específica para uso corporal, aplicado em pontos anatômicos planejados na consulta de avaliação. O efeito é imediato em volume e contorno e tende a se estabilizar nas semanas seguintes, com o produto se acomodando nos planos teciduais.
Estudos publicados em revistas científicas como o Plast Reconstr Surg Glob Open e o J Cosmet Dermatol acompanharam pacientes por períodos que vão de 12 meses a quatro anos e meio sem registrar eventos adversos graves quando o procedimento foi conduzido por profissional qualificado.
A combinação com outras tecnologias é parte do que vem sendo discutido em congressos da área. Bioestimuladores de colágeno, ultrassom microfocado, radiofrequência microagulhada e protocolos de fortalecimento muscular entram no mesmo plano de tratamento, conforme o diagnóstico de cada paciente.
A lógica funciona em camadas: o ácido hialurônico entrega volume e projeção; o bioestimulador trabalha a estrutura ao longo de semanas; e as tecnologias atuam sobre firmeza e qualidade da pele.
O que separa o procedimento seguro do procedimento de risco
A popularização atraiu também um problema. Cresceu, em paralelo à demanda legítima, um mercado paralelo de aplicações feitas por profissionais sem formação médica, em ambientes inadequados e às vezes com produtos sem registro na Anvisa.
A SBD tem reforçado em comunicados oficiais que procedimentos estéticos invasivos são ato médico. Aplicações feitas por profissionais não habilitados representam risco real para o paciente, em situações que vão de complicações estéticas a quadros infecciosos graves.
A leitura técnica é direta. O Conselho Federal de Medicina (CFM) levou o tema à Anvisa em pelo menos três ocasiões durante 2024, incluindo o I Fórum do Ato Médico, com pauta voltada para o controle da venda e aplicação de injetáveis por profissionais sem formação em medicina.
Para a paciente que avalia fazer o procedimento, a verificação de credenciais é o primeiro passo de proteção, e pode ser feita gratuitamente nos sites dos conselhos regionais de medicina.
A pesquisa do Inquérito Epidemiológico/Dermatológico da SBD de 2024, que mapeou o perfil dos atendimentos em dermatologia no país, reforça o papel do especialista em dois momentos: na realização do procedimento em si e no atendimento de pacientes que chegam ao consultório com complicações de aplicações anteriores realizadas em locais inadequados.
O segundo grupo, segundo profissionais ouvidos pela imprensa especializada, vem aumentando em paralelo ao primeiro, em movimento que preocupa as sociedades médicas.
Vale seguir dicas de clínicas de dermatologia que mantêm canais transparentes sobre formação dos profissionais, lote dos produtos utilizados, plano anatômico de aplicação e protocolo de manejo em caso de qualquer intercorrência.
O cenário sul-mato-grossense nos próximos anos
Para Mato Grosso do Sul, o movimento aponta para uma expansão que tende a continuar. O perfil etário do estado, com população envelhecendo no mesmo ritmo do restante do país, e o aumento da renda em segmentos urbanos da capital criam demanda contínua por procedimentos de manutenção, especialmente nas faixas entre 30 e 55 anos.
A oferta local de dermatologistas titulados acompanha esse movimento, com a chegada de profissionais que retornam de residências em centros como São Paulo e Rio de Janeiro e abrem clínicas próprias em Campo Grande, Dourados e Três Lagoas.
O efeito sobre a economia local também aparece. Clínicas estruturadas geram empregos qualificados, movimentam fornecedores de tecnologia e atraem pacientes de fora do estado, em fluxo que se soma ao turismo de saúde já consolidado em outras especialidades médicas no estado.
A descentralização do mercado estético, antes concentrado em capitais como São Paulo, é parte de um movimento mais amplo que beneficia cidades médias com infraestrutura médica em expansão.
A leitura do setor é cautelosa, no entanto. O aumento do interesse por procedimentos como o preenchimento com ácido hialurônico precisa caminhar com aumento da informação. Paciente bem informada não escolhe pelo preço mais baixo, e sim pela combinação entre formação do profissional, produto certificado e protocolo de avaliação claro.
É essa combinação, segundo as sociedades médicas, que faz a diferença entre um procedimento que valoriza a paciente e um problema que ela vai precisar resolver depois, em circunstâncias bem menos confortáveis. O rejuvenescimento natural, afinal, é resultado de decisão informada, e não de promessa publicitária.











