10 de maio de 2026
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Lesões no ombro e na mão crescem como alerta ocupacional em Mato Grosso do Sul

A combinação entre tarefas repetitivas, força excessiva e demora na busca por um especialista transforma quadros tratáveis em incapacidade permanente, mostram dados da Previdência Social e estudos sobre o setor produtivo sul-mato-grossense

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Uma operadora de produção em um frigorífico de Dourados começou a sentir um incômodo no ombro direito em 2022. Atribuiu à rotina pesada da linha de desossa, tomou anti-inflamatório por conta própria e seguiu o expediente.

Quando finalmente procurou um ortopedista, dois anos depois, a omoplata já se projetava visivelmente para fora das costas quando ela tentava levantar o braço. O diagnóstico foi escápula alada, condição que poderia ter sido tratada apenas com fisioterapia se identificada nos primeiros meses.

Casos como esse repetem-se em consultórios de ortopedia em todo o país, mas atingem com peso particular a população trabalhadora de Mato Grosso do Sul. O estado figura entre os dez maiores em volume de acidentes e adoecimentos relacionados ao trabalho proporcionalmente à população, segundo levantamento do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho. O setor frigorífico, um dos pilares da economia sul-mato-grossense, concentra parte significativa dessas ocorrências.

A lógica é simples e cruel: tarefas repetitivas, posições forçadas, ritmo acelerado e ausência de pausas adequadas geram lesões que se instalam aos poucos. Quando o trabalhador percebe que a dor saiu do controle, o quadro já evoluiu.

Um problema invisível que cresce no estado

Pesquisa publicada pela Revista de Administração Contemporânea analisando o setor frigorífico sul-mato-grossense identificou que, em 2017, foram registrados 1.387 afastamentos de longo período no setor, trabalhadores que ficaram fora de suas funções por 360 dias ou mais. O número equivale a 5,3% dos empregados da atividade no estado.

Outro estudo publicado pela Revista Foco apontou que Mato Grosso do Sul ocupa a quinta posição entre as unidades da federação com maior percentual da população afetada por acidentes de trabalho, considerando o tamanho da população do estado.

A dimensão nacional do fenômeno reforça a gravidade. Entre 2018 e 2022, segundo dados do DATASUS analisados pela Revista Contemporânea, o Brasil registrou 34.345 notificações de Lesões por Esforços Repetitivos e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (LER/DORT).

Quase metade desses trabalhadores precisou se afastar das atividades laborais e mais de 80% relataram dor associada. A faixa etária mais atingida foi a dos 35 aos 49 anos, justamente o auge da vida produtiva.

Ainda mais alarmante: dados do Ministério da Previdência Social mostraram que as fraturas na mão e no punho foram a sétima principal causa de afastamento no trabalho no Brasil em 2024, com 101.177 casos registrados, um aumento de 24,7% em comparação a 2023.

Quando a dor no ombro esconde uma escápula alada

Como relata Dr. Thiago Caixeta, ortopedista com atuação em ombro em Goiânia, na ortopedia do ombro, uma das condições mais subdiagnosticadas é a escápula alada, alteração em que a omoplata se projeta de forma anormal para fora das costas.

Segundo artigo publicado pela Revista Brasileira de Ortopedia, a causa mais frequente é o comprometimento dos nervos torácico longo e espinhal acessório, que controlam os músculos responsáveis por manter a escápula encostada ao tórax durante os movimentos do braço.

O problema é que os sintomas iniciais imitam outras queixas comuns. O paciente sente uma dor difusa no ombro, dificuldade para levantar o braço, fadiga ao final do expediente. Sem avaliação especializada, o quadro costuma ser tratado como tendinite ou bursite. Os meses passam, a função do nervo se deteriora e a janela de tratamento conservador se fecha.

Profissionais que atuam em linhas de produção, carregadores, atletas amadores que praticam musculação sem orientação e operadores de equipamentos pesados estão entre os grupos mais expostos.

Uma queda com o braço estendido, um esforço excessivo para erguer carga acima da cabeça ou movimentos repetitivos por anos podem comprometer o nervo torácico longo, principal responsável pela movimentação correta da escápula.

A orientação dos especialistas é clara: ao primeiro sinal de assimetria entre as duas omoplatas, sensação de fraqueza desproporcional ao esforço ou alteração visível no formato das costas, vale procurar um ortopedista especialista em escápula para avaliação detalhada.

O diagnóstico precoce envolve exame clínico, eletromiografia para verificar a função dos nervos e, em alguns casos, ressonância magnética.

O caminho do tratamento muda conforme o tempo de evolução

Quanto mais cedo a escápula alada é identificada, maior a chance de recuperação sem cirurgia. Nas fases iniciais, o protocolo combina fisioterapia para fortalecer os músculos estabilizadores da escápula (trapézio, romboides, serrátil anterior), uso pontual de tipoia para descanso da articulação e acompanhamento ortopédico a cada poucas semanas para medir a evolução.

Quando o tratamento conservador não responde após cerca de doze meses, ou quando a lesão neurológica é grave desde o início, abre-se a possibilidade cirúrgica. Existem duas linhas principais de procedimento.

A primeira é a descompressão do nervo afetado, indicada quando a estrutura nervosa está comprimida por uma fáscia espessada ou por outra estrutura anatômica. A segunda é a transferência muscular, técnica em que um músculo saudável da região substitui a função do músculo paralisado, restaurando a estabilidade da escápula durante os movimentos do braço.

Em Goiânia, polo médico que atende pacientes de Mato Grosso do Sul e de outros estados do Centro-Oeste, há serviços estruturados de tratamento para escápula alada que oferecem desde o protocolo conservador inicial até as cirurgias mais complexas de transferência tendinosa.

A escolha do especialista importa porque a condição é considerada rara em frequência absoluta, mas comum em consultórios de ombro especializados, o que faz toda diferença na precisão do diagnóstico.

Outro dado preocupante: levantamento do Hospital das Clínicas de São Paulo aponta que cerca de um terço dos casos inicialmente diagnosticados como escápula alada eram, na verdade, outras patologias do complexo do ombro.

O contrário também acontece. Quadros de discinesia escapular leve são confundidos com tendinite e tratados de forma incompleta por anos.

A mão é o primeiro alvo das lesões repetitivas

Se o ombro sofre com a sobrecarga e a falta de descanso, a mão paga o preço imediato. Praticamente toda atividade no setor frigorífico, na agricultura, na indústria de embalagens e até em escritórios envolve uso intenso das mãos.

A consequência aparece nas estatísticas. Em 2021, segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, dedos foram a parte do corpo mais atingida em acidentes de trabalho no Brasil, com 110.001 ocorrências, equivalentes a 24% do total. As mãos, excluindo punhos e dedos, somaram outros 31.246 casos.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão alerta que a complexidade anatômica da região explica por que mesmo lesões aparentemente simples podem gerar grande incapacidade funcional.

"A mão é composta por estruturas vasculares, nervosas, tendinosas e ósseas em um espaço pequeno. Qualquer lesão nesse conjunto, por menor que seja, costuma limitar o trabalhador", afirma Dr. Henrique Bufaiçal, ortopedista de mão na capital goiana.

Os quadros mais frequentes vistos em consultório especializado incluem a síndrome do túnel do carpo, em que o nervo mediano sofre compressão dentro do canal do punho, gerando dormência, formigamento e perda progressiva de força nas mãos.

O dedo em gatilho, condição em que o tendão flexor inflama e trava o movimento de dobrar o dedo, é outro problema com forte associação a movimentos repetitivos. A tenossinovite de De Quervain, que afeta os tendões do polegar, atinge especialmente mães com bebês pequenos, profissionais que digitam muito e operadores que fazem rotação repetida do punho.

O risco específico do trabalho rural e industrial

Pesquisa publicada na Revista de Fisioterapia em Movimento avaliou trabalhadores de uma indústria de pescados e identificou que posturas articulares inadequadas, em especial o desvio ulnar do punho e a hiperextensão prolongada, são fatores de risco diretos para o desenvolvimento de lesões musculoesqueléticas nas mãos e nos punhos. O mesmo padrão se aplica a quem trabalha com facas em frigoríficos, manuseia ferramentas agrícolas ou opera maquinário pesado.

A combinação de fatores no agronegócio sul-mato-grossense é particularmente desafiadora. Estudos mostram que um trabalhador do setor frigorífico em 2017 produziu o equivalente a 1,75 trabalhador de 2007, indicador claro de intensificação do ritmo. Esse adensamento da carga sobre o mesmo corpo, com pausas insuficientes para recuperação tecidual, cria o cenário ideal para o desenvolvimento de LER/DORT.

A fratura distal do rádio, conhecida popularmente como fratura de Colles, é outro caso emblemático. Trata-se da fratura mais comum do corpo humano, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, e ocorre tipicamente quando a pessoa cai e estende a mão para amortecer o impacto.

Idosos com osteoporose e atletas amadores estão entre os grupos mais afetados, mas o tipo de fratura também é frequente em acidentes de trabalho rural e industrial.

Quando a dor persiste, a dormência se instala ou um dedo passa a travar com regularidade, a recomendação é não esperar. Procurar um ortopedista especialista em mãos e pulso ainda na fase inicial dos sintomas amplia consideravelmente as chances de tratamento conservador, evitando cirurgias mais invasivas e afastamentos prolongados do trabalho.

O custo do diagnóstico tardio

A demora em buscar avaliação especializada cobra um preço alto, e ele é triplo. Para o trabalhador, significa dor crônica, perda de função e, em muitos casos, incapacidade permanente.

Estudo publicado pela SciELO sobre o perfil epidemiológico das LER/DORT no Brasil mostrou que 6,7% dos casos evoluíram para incapacidade permanente, enquanto 55% resultaram em incapacidade temporária. Apenas 9,3% obtiveram cura completa.

Para a empresa, o impacto é a perda de produtividade, a necessidade de remanejamento de funções e o custo direto e indireto do afastamento. Para o sistema público, o efeito aparece nos cofres do INSS, que arca com os benefícios previdenciários de quem precisa se afastar do trabalho por doença ocupacional ou acidente.

A boa notícia é que praticamente todas as lesões musculoesqueléticas de membros superiores respondem bem ao tratamento quando identificadas cedo.

Fisioterapia bem indicada, ajustes ergonômicos no posto de trabalho, modificação de hábitos e, em alguns casos, infiltrações ou pequenos procedimentos cirúrgicos resolvem a maioria dos quadros. O fator decisivo é o tempo entre o início dos sintomas e a primeira consulta com um especialista.

O que observar antes que vire um problema crônico

Alguns sinais merecem atenção imediata e não devem ser empurrados com analgésico de farmácia. Dor no ombro que persiste por mais de duas semanas mesmo em repouso, especialmente se acompanhada de fraqueza para erguer o braço. Alteração visível no formato das costas, com uma omoplata mais saliente do que a outra.

Dormência ou formigamento que aparece à noite ou ao acordar e que melhora ao sacudir as mãos. Dedos que travam ao dobrar e precisam ser desbloqueados manualmente. Perda de força para abrir potes, segurar objetos pesados ou realizar movimentos de pinça.

Esses sintomas têm tratamento e raramente exigem cirurgia quando identificados nas primeiras semanas. Ignorá-los costuma ser o começo de uma trajetória de meses ou anos de dor, fisioterapia interminável e, no fim, procedimentos que poderiam ter sido evitados.

A população trabalhadora de Mato Grosso do Sul, em especial os profissionais ligados ao agronegócio, à indústria frigorífica e ao trabalho rural, está em uma faixa de risco mais elevada que a média nacional. Saber disso e agir cedo é o que separa um afastamento de duas semanas de uma incapacidade definitiva.