A máquina da desinformação bolsonarista levou, no domingo (10.mai.26), apoiadores extremistas de direita a beber detergente: um agente de limpeza sintético derivado do petróleo, projetado para remover sujeira e gordura de superfícies.
Nas redes sociais, a esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, puxou uma campanha em defesa da Ypê.
Desde a “febre da cloroquina”, entre 2020 e 2022 — período em que o antimalárico derivado da hidroxicloroquina foi usado por extremistas de direita para “combater” a Covid-19, medida popularizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro — um meme relacionado ao ataque à ciência não ganhava tanta repercussão.
Agora, porém, surgiram vídeos de bolsonaristas ingerindo detergente como se fosse símbolo patriótico. Tudo isso após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspender dezenas de produtos da Ypê — empresa brasileira fundada em Amparo, no interior de São Paulo, em 1950 — por suspeitas de falhas graves no processo de fabricação.
A Anvisa informou, em 7 de maio, a determinação de “recolhimento de produtos lava-louças (detergente), sabão líquido para roupas e desinfetante da marca Ypê, de todos os lotes com numeração final 1 (...). A decisão foi tomada a partir de avaliação técnica de risco sanitário, conduzida pela Anvisa em articulação com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), após inspeção conjunta realizada com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) e a Vigilância Sanitária de Amparo (Visa-Amparo) na última semana”, explicou a agência.
A medida foi publicada na Resolução-RE nº 1.834/2026, no Diário Oficial da União.
Após o comunicado, ao invés de se protegerem do produto que estaria contaminado com a bactéria pseudomonas aeruginosa, os extremistas de direita passaram a se expor ainda mais ao produto. A bactéria pode causar uma série de problemas de saúde, desde infecção urinária até infecção respiratória em pessoas que têm problemas pulmonares crônicos, como enfisema, ou em pessoas submetidas a tratamento com cateter na veia.
A reação dos extremistas de direita está relacionada ao fato de a família que controla a marca Ypê ter feito uma doação robusta à eleição de Bolsonaro em 2022: Jorge Eduardo Beira, vice-presidente de operações da empresa, doou R$ 500 mil; Waldir Beira Júnior, presidente da Ypê, e Ana Maria Beira, integrante do conselho de sócios, doaram cerca de R$ 250 mil cada.
Na ânsia de “receber o investimento no extremista de direita”, a empresa fez uma live interna pró-Bolsonaro em 2022 e foi condenada por obrigar seus funcionários a votar no ex-presidente presidiário.
Com todas essas informações distorcidas pela máquina de desinformação bolsonarista, os eleitores de extrema direita passaram a acreditar que a Anvisa está promovendo uma espécie de retaliação contra a Ypê.
A rede de ódio transformou o aviso da Saúde em uma competição para ver quem consegue passar mais vergonha na internet em nome do bolsonarismo.
A extrema direita brasileira criou um novo tipo de patriotismo: se um órgão técnico alerta sobre risco, então o militante faz exatamente o contrário para defender seus aliados políticos.
Foi assim na pandemia. Enquanto médicos e cientistas alertavam para os perigos da Covid, bolsonaristas promoviam remédios sem eficácia comprovada. Agora trocaram a cloroquina por detergente. Isso levou à morte de mais de 700 mil brasileiros. A grande maioria, pessoas pobres.
O roteiro é o mesmo. Mudou só o produto da vez.
No meio da confusão, até o vice-prefeito de São Paulo apareceu em vídeo defendendo os produtos normalmente, como se fiscalização sanitária fosse ataque ideológico.
Enquanto isso, a Anvisa faz justamente o que deveria fazer: fiscalizar, investigar e agir diante de possíveis riscos à população.
Mas o bolsonarismo moderno já não funciona mais na base da lógica. Funciona na base da idolatria. Se o líder ou seus aliados são questionados, vale qualquer coisa. Até transformar detergente em bandeira política.
Daqui a pouco vai ter gente jurando que espuma de pia combate comunismo. E isso nem parece mais exagero. Afinal, o mesmo grupo político já convenceu seguidores a rezar para pneu em frente a quartel, pedir ajuda de extraterrestres e invadir a Praça dos Três Poderes acreditando em teorias golpistas espalhadas nas redes.











