05 de dezembro de 2020
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Medo da Covid-19 levou povo de MS a comprar 107% a mais de cloroquina

Levantamento mostra como medo da Covid-19 impactou venda de medicamentos em MS

Amanhã, 3ªfeira (5.maio) os conselhos de Farmácia iniciarão uma campanha sobre a importância do uso racional de medicamentos para proteção à saúde.  Em um levantamento realizado no Brasil, nota-se o aumento expressivo da compra de remédios pelos brasileiros. Em Mato Grosso do Sul, subiu em 107,47% a compra de hidroxicloroquina Sulfato, medicamento que alguns atribuem o poder de curar a Covi-19, no entanto, ainda sem comprovação. O Presidente Jair Bolsonaro é um dos principais incentivadores ao uso do medicamento. 

Os conselhos alertam a população:  “não entre em pânico e antes de usar qualquer medicamento, consulte o farmacêutico”. O motivo do alerta é o resultado de um estudo realizado a pedido dos conselhos, pela consultoria IQVIA, que constatou um aumento significativo nas vendas de alguns medicamentos relacionados à Covid-19 nos três primeiros meses desse ano, quando aumentaram os casos da doença, em relação ao mesmo período do ano passado. Veja os dados abaixo:

A vitamina C ou ácido ascórbico, que teve propalado o seu “efeito preventivo” contra o novo coronavírus em fake news, foi a campeã em comercialização. Também foi verificado um crescimento no consumo da vitamina D ou colecalciferol e da hidroxicloroquina sulfato, a qual foi atribuída a capacidade de curar a Covid-19.

Foram pesquisados, ainda, os medicamentos isentos de prescrição que podem ser indicados para amenizar os sintomas leves da Covid-19.  No caso do Ibuprofeno, as vendas nacionais caíram, provavelmente porque o medicamento, por um breve período, foi relacionado ao agravamento de casos da doença. Em Mato Grosso do Sul teve aumento, mas foi de 8,01%. Veja os dados completos por estado - https://bit.ly/3d41L9n.

Os porcentuais são uma clara demonstração da influência do medo sobre um hábito consagrado entre a população brasileira, o uso indiscriminado de medicamentos. Uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) por meio do Instituto Datafolha, constatou que a automedicação é um hábito comum a 77% dos brasileiros que fizeram uso de medicamentos nos últimos seis meses anteriores ao estudo, feito em 2019. Quase metade (47%) se automedica pelo menos uma vez por mês, e um quarto (25%) o faz todo dia ou pelo menos uma vez por semana. Na região centro-oeste/norte este índice sobe para 80%, nordeste fica em 79%, sudeste (77%), sul (71%).

Os conselhos de Farmácia alertam que todos os medicamentos oferecem riscos. Mesmo os isentos de prescrição podem causar danos, especialmente se forem usados sem indicação ou orientação profissional. Dependendo da dose o paracetamol pode causar hepatite tóxica. A dipirona oferece risco de choque anafilático e o ibuprofeno é relacionado a tonturas e visão turva. Já o uso prolongado da vitamina C pode causar diarreias, cólicas, dor abdominal e dor de cabeça. E com a ingestão excessiva de vitamina D, o cálcio pode depositar-se nos rins e até causar lesões permanentes.

O presidente do CRF/MS, Flávio Shinzato, sempre reforça a importância de consultar o farmacêutico mesmo quando for comprar um medicamento isento de prescrição. “Todo medicamento pode ter o efeito contrário e fazer mal à saúde ao invés de fazer bem e resolver um problema que a pessoa tem. Tudo depende da forma que esse medicamento é tomado, a quantidade, ou interação com outros remédios. Por isso, mesmo que seja um medicamento que a pessoa já faz uso ou que seja isento de prescrição, é essencial que a pessoa consulte o farmacêutico na farmácia”, destaca o presidente.

Os riscos são mais graves em relação a hidroxicloroquina, medicamento indicado para tratar doenças como o lúpus eritematoso. Da mesma forma que a cloroquina (indicada para a malária, porém disponibilizada apenas na rede pública), a hidroxicloroquina pode causar problemas na visão, convulsões, insônia, diarreias, vômitos, alergias graves, arritmias (coração batendo com ritmo anormal) e até parada cardíaca. O uso de hidroxicloroquina ou cloroquina em pacientes internados com teste positivo para o novo coronavírus ainda não tem evidências representativas. Portanto, se justifica apenas com supervisão e prescrição médica, atualmente, com retenção de receita.

“A nossa recomendação é que os farmacêuticos continuem observando as recomendações da Anvisa e as boas práticas farmacêuticas para realizar as dispensações desses medicamentos, e que orientem os usuários, pois a desinformação é um inimigo tão poderoso quanto o novo coronavírus”, observa o presidente do Conselho Federal de Farmácia, Walter da Silva Jorge João. Ele lembra que os farmacêuticos sempre apoiaram a saúde em pandemias e estão na linha de frente do combate nessa também. Por isso, a campanha destaca a participação histórica da categoria nesses momentos, no enfrentamento às doenças transmissíveis e na defesa da saúde pública.

História - Durante a campanha serão lembrados ícones da profissão, como o farmacêutico baiano Rodolfo Marcos Teófilo, graduado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1875 e radicado no estado do Ceará. Sem apoio do poder público, Rodolfo Marcos Teófilo enfrentou duas epidemias de varíola, que vitimaram milhares de pessoas em Fortaleza e cidades do interior cearense, no final do século XIX e início do século XX. Em 1862, aprendeu as técnicas de produção da vacina e em 1901 passou a imunizar a população, contando com ajuda da sua esposa e de um auxiliar. Cuidou sozinho da vacinação em massa pelos bairros pobres de Fortaleza até 1903.