27 de julho de 2021
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Murilo deixa Dourados sem peso decisivo na sucessão estadual

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Desde que o Estado passou a existir, no fim dos anos 1970, Dourados sempre cumpriu papel determinante na composição do poder, notadamente nas disputas eleitorais e na escolha dos governantes. Em 1982, o então prefeito douradense José Elias Moreira deixou de ser o primeiro governador sulmatogrossense, ao perder para o peemedebista Wilson Martins por pouco mais de 20 mil votos. Era a força latente do município, confirmada nos pleitos posteriores, quando Dourados forneceu, entre outros nomes de ponta, o vice-prefeito George Takimoto que foi o vice-governador de Marcelo Miranda; o prefeito Braz Melo, que foi vice-governador no segundo mandato de Wilson Martins; o agrônomo Egon Krackekce, vice do governador Zeca do PT. Outro ex-prefeito douradense, Humberto Teixeira, foi candidato a vice-governador em 1998 e chegou ao segundo turno com o cabeça de chapa Ricardo Bacha. Nessa eleição, os vices douradenses Egon e Humberto ajudaram suas coligações a impedir que Pedro Pedrossian, um mito da política, chegasse ao segundo turno.

MARCHA E CONTRA-MARCHA - Um resumo da história ajuda a avaliar, sem paixão, o terreno onde Murilo pisa e que foi ele mesmo quem pavimentou. Murilo Zauith iniciou sua trajetória política elegendo-se deputado estadual em 1994 e já estava alinhado entre as principais promessas da vida pública na época. Crescia impulsionado pelos mais diferentes fatores: empresário bem sucedido na área educacional, facilidade de trânsito por diversas correntes sociais e políticas, além de chamar a atenção de duas das mais fortes lideranças do Estado, Zeca do PT, então governador, e André Puccinelli. prefeito de Campo Grande.

Em 98 se reelegeu deputado estadual e no ano 2000, na crista da onda, tentou ser prefeito, mas foi derrotado pelo petista Laerte Tetila. Como ainda era deputado estadual, sobreviveu e continuou remando até reeleger-se em 2002. Estava refeito e avançou. Em 2006 se elegeu deputado federal, quando deixou evidente a disposição de firmar-se como a grande alternativa da Grande Dourados de fazer um governador e deixar de ser coadjuvante de luxo nas chapas majoritárias. Sabia ser preciso esperar, porque a vez era de um “padrinho” político que o havia socorrido quando precisou: André Puccinelli.

Na Câmara, em Brasília, Murilo entendeu que só levaria adiante seu projeto se retomasse o convívio permanente com suas bases. A chance veio com o convite providencial de Puccinelli para ser seu companheiro de chapa na sucessão estadual. Era como juntar a fome com a vontade de comer. O favoritismo amplo de Puccinelli se confirmou e Murilo Zauith manteve Dourados no lugar de sempre, mas num momento estratégico de abrir caminho para voos mais altos. Julgou que a oportunidade seria em 2008 e arriscou-se mais uma vez na disputa da Prefeitura. Novamente perdeu, dessa vez para o pedetista Ari Artuzi que, por uma ironia do destino, lhe daria mais tarde uma chance casual de sobrevida na política.

Em 2010, candidatou-se ao Senado e mesmo sem ganhar uma das duas cadeiras ficou em terceiro lugar com votação consagradora (21% dos votos). Foi o suficiente para ganhar mais um fôlego. No cenário de caos produzido pela administração desastrosa de Artuzi, e no alto de um andor carregado por praticamente todas as forças políticas mais expressivas, Murilo ganhou em fevereiro de 2011 a eleição extraordinária decretada após a intervenção da Justiça. Teria só 10 meses de governo. Mas, empolgado com a porteira aberta em sua caminhada, prometeu restaurar a credibilidade da administração, transformar o caos em resgate gerencial e deu até um número espetacular para carimbar a revolução a ser liderada: investir naquela dezena de meses nada menos que R$ 140 milhões em obras. Nada disso aconteceu. Contudo, o prefeito recebeu mais um crédito de confiança da população, que o elegeu em 2012 para, agora sim, quatro anos de mandato. No entanto, mudanças e realizações estruturais de sua gestão e que já deveriam fazer parte do panorama douradense ainda não foram vistas plenamente.

A CANDIDATURA – Para candidatar-se ao governo este ano e não enfiar Dourados numa aventura que pode ser prejudicial à sua administração, Murilo Zauith terá de fazer contas matemáticas e políticas. Como prefeito, ele ganhou nas urnas dois mandatos, um de 10 meses e outro de 48. Portanto, são 58 meses de mandato, dos quais ele exerceu só 40%. Não cumpriu nem a metade e já pensa em nova aventura. Faz lembrar, por analogia, o exemplo do tucano José Serra que se elegeu para governar São Paulo prometendo completar o mandato. Ignorou a promessa e tentou ser presidente, recebendo duas vezes a implacável e reprovadora resposta do povo paulista.

É, no mínimo, muito estranha a anunciada pré-candidatura de Murilo. Não se lastreia em pesquisa de opinião pública que comprove sua competitividade ou ao menos a exigência do eleitor por uma opção aos nomes já apresentados, Delcídio Amaral (PT) e Nelsinho Trad (PMDB). Ademais, o prefeito do segundo maior colégio eleitoral de Mato Grosso do Sul deveria ter o calço de uma pesquisa loal com boas (ou ótimas) avaliações de seu desempenho gerencial. Já lá se foram quase 24 meses de Prefeitura e o “fator Murilo” ainda não aconteceu. As reclamaçõe se acumulam, do político ao administrativo. Não só pela ausência de obras, mas pela inexistência de um processo de transformação estrutural. Se existe, falta visibilidade.

Ao que consta, sua candidatura vem de uma imposição da cúpula do PSB. O pré-candidato a presidente, Eduardo Campos, precisa de palanques em todos os estados. Mato Grosso do Sul não é exceção e Murilo Zauith é quem comanda o partido, que possui uma legião de 65 vereadores e três ou quatro prefeitos. Entretanto, não cresceu como deveria ou na proporção esperada por Campos, para quem não é desconhecida a performance da gestão do prefeito de Dourados. Para temperar, o PSB regional perdeu forças importantes, entre elas o único deputado estadual que elegeu em 2010 (Lauro Davi, agora no Pros) e lideranças de vários municípios. Não fosse o socorro de alguns fortes aliados, que ajudaram a rechear a legenda, o PSB-MS ficaria sem soldados e munição suficiente para os palanques de Campos e Murilo.

E DOURADOS? - Candidato ao governo e sem planície minimamente favorável, Murilo cria um buraco de isolamento para a Grande Dourados, em vez de fortalecê-la. Entra na rota de colisão com seu maior socorrista, André Puccinelli, e desafia um parceiro douradense e favorito nas pesquisas da sucessão, Delcídio Amaral. As coligações de André e Delcídio lideram o maior contingente representativo das forças estaduais e federais, incluídos os 11 congressistas (oito deputados federais e três senadores), responsáveis pela canalização de verbas e projetos com que o Planalto vem alimentando os municípios.

Talvez Murilo Zauith esteja seguindo a leitura política de seu secretário de Governo. O fatimassulense José Jorge Filho, o Zito, escreve e lê assim: Murilo não precisa de André Puccinelli, nem de Delcídio Amaral e nem de bancadas para ser candidato ao Governo. Já os douradenses podem fazer outra leitura, mas olhando a situação da cidade, conferindo as promessas a cumprir e, fatalmente, perguntando aos seus gestores: será que Dourados não precisa mesmo? Com certeza, a resposta não está em Pernambuco, o estado do presidenciável Eduardo Campos. Nem no PSB.

Edson Moares, especial para MS Notícias