05 de março de 2026
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CENTRÃO

Ciro Nogueira, o amigo de Vorcaro do Banco Master

Em maio de 2024, no aconchego de mensagens privadas para sua namorada, Martha Graeff, Vorcaro era efusivo: queria apresentar a ela 'um dos meus grandes amigos de vida'

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No ecossistema político brasileiro, a palavra "amigo" possui uma elasticidade que desafia as leis da física e da semântica. Para os defensores da "moral e dos bons costumes" que habitam as franjas da extrema-direita e o núcleo duro do Centrão, um "amigo de vida" pode ser transformado em um "conhecido casual" na velocidade de um clique da Polícia Federal.

O mais novo capítulo dessa metamorfose envolve o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil e um dos pilares do conservadorismo de conveniência.

"GRANDE AMIGO"

Em maio de 2024, no aconchego de mensagens privadas para sua namorada, Martha Graeff, Vorcaro era efusivo: queria apresentar a ela "um dos meus grandes amigos de vida", referindo-se a Ciro Nogueira. O entusiasmo era compreensível. Pouco tempo depois, o "amigo" protocolava uma emenda — carinhosamente apelidada pelo mercado de "Emenda Master" — que pretendia elevar a garantia do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Para um banco médio que atrai investidores com promessas de rendimentos nababescos, ter o Estado garantindo o risco é o melhor dos mundos. É o famoso "capitalismo de compadrio": o lucro é privado, mas o seguro é, de certa forma, mutualizado pelo sistema que o senador jurava querer "moralizar".

CONVENIÊNCIA DO NOME PRÓPRIO

A ironia fina da situação reside na resposta de Ciro Nogueira às revelações da PF sobre pagamentos destinados a um tal "Ciro" nas planilhas de Vorcaro. O senador, que costuma ter memória de elefante para articular votações no Congresso, subitamente recorreu ao IBGE.

Segundo sua assessoria, existem mais de 11 mil "Ciros" no Brasil. É uma saída elegante, embora subestime a inteligência alheia. De fato, o Brasil é um país de muitos Ciros, mas poucos deles têm o poder de protocolar uma "bomba atômica" legislativa — termo usado pelo próprio Vorcaro — apenas uma hora antes de avisar a namorada que o projeto estava na rua.

PATRIOTISMO DE PLANILHA

O episódio escancara o modus operandi de certa ala política que se diz defensora da liberdade econômica e da pátria:

  1. Discurso: Bravatas contra a intervenção estatal e em defesa da família.

  2. Prática: Videoconferências privadas com banqueiros para ajustar emendas que beneficiam instituições específicas sob o pretexto de "ajudar bancos médios".

  3. Recuo: Quando o batom aparece na cueca (ou o nome na mensagem), o "amigo de vida" vira um dos 11 mil cidadãos registrados no censo.

A CPMI do INSS agora analisa se essa "explosão" no mercado financeiro pretendida por Vorcaro era apenas um entusiasmo empreendedor ou se o "Ciro" da planilha e o "Ciro" da emenda dividem mais do que apenas o primeiro nome e a paixão por grandes negócios.

Enquanto os extremistas se ocupam em caçar fantasmas ideológicos nas redes sociais, o mundo real — aquele onde o dinheiro troca de mãos e as leis são moldadas em jantares privados — segue seu curso. A sorte de Ciro Nogueira é que, para seus seguidores mais fervorosos, a culpa será sempre de quem investiga, e nunca de quem "amiga".