19 de maio de 2024
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EXTREMISTA DE DIREITA

"Engano e efeito de remédios", alega Bolsonaro à PF sobre vídeo fake de procurador de MS

Mandatário diz que por isso postou

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Jair Bolsonaro (PL) alegou à investigadores da Polícia Federal, nesta 4ª.feira (26.out.23), que estava sob efeito de remédios e por engano compartilhou o vídeo com fake news do procurador de Mato Grosso do Sul (MS), Felipe Marcelo Gimenez, com recortes de uma entrevista à Rádio Hora, realizada em 10 de novembro de 2022. Na entrevista, Gimenez atacava as eleições com diversas mentiras e dizia que as Forças Armadas deveriam “intervir no sistema político para reestabelecer a ordem”. O ato é proibido pela Constituição Federal.

Gimenez é um bolsonarista radical, que vive mergulhado em teorias da conspiração e narrativas falsas. Na entrevista, ele mentiu bastante para questionar a derrota de Jair Bolsonaro (PL), que ocorreu em outubro daquele ano.  

O vídeo com as mentiras contada pelo procurador seria apenas mais um a circular no curral bolsonarista sul-mato-grossense, mas a produção foi compartilhada na rede social oficial do ex-presidente, o que agora o levou a virar alvo de inquérito que apura os responsáveis pelos atos golpistas de 8 de janeiro.

O ex-mandatário chegou à sede da PF às 08h45 desta 4ª.feira para prestar depoimento, acompanhado do seu assessor, Fábio Wejngarten.

"Esse vídeo foi postado na página do presidente do Facebook quando ele tentava transmiti-lo para o seu arquivo de WhatsApp para assisti-lo posteriormente", argumentou o advogado Paulo Cunha Bueno, na saída da sede da Polícia Federal.

"Por acaso, justamente nesse período, o presidente estava internado em um hospital em Orlando. Justamente no período entre o dia 8 e o dia 10 [de janeiro] ele teve uma crise de obstrução intestinal, isso está documentado, foi submetido a um tratamento com morfina, ficou hospitalizado e só recebeu alta na tarde do dai 10", continuou.

Ao longo de seu mandato (2019-2022), Bolsonaro acumulou declarações de cunho golpista e, ao perder as eleições, além de não reconhecer o resultado, incentivou apoiadores a permanecer em acampamentos que pediam às Forças Armadas uma intervenção federal que impedisse a posse do presidente Lula (PT).

A defesa acrescentou que Bolsonaro apenas respondeu aos questionamentos relativos ao objetivo de sua intimação, que era a postagem do vídeo produzido pelo procurador. 

"Essa postagem foi feita de forma equivocada, tanto que pouco tempo depois, duas ou três horas depois, ele foi advertido e imediatamente retirou essa postagem. Observem inclusive que essa postagem foi feita na sua rede social de menor importância, apenas no Facebook, que é uma rede que ele pouco utiliza hoje em dia e não foi colocado nas demais redes", argumentou o advogado.

O ex-presidente depôs por cerca de duas horas aos investigadores da Polícia Federal que comandam o amplo inquérito que mira os autores intelectuais da investida golpista que desaguou na invasão e depredação de Palácio do Planalto, Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF), no episódio que ficou conhecido pela data em que ocorreu '8 de Janeiro'.  

LIVRAR OS FILHOS

Bolsonaro teme ficar sozinho no centro das investigações da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que vai se debruçar sobre os atos golpistas de 8 de janeiro, por isso, atua para emplacar o nome dos filhos como titulares do colegiado.

Aliados comentam que o ex-mandatário quer que o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estejam entre os titulares da CPMI do Golpe para defendê-lo no Congresso. 

Ao assumir a culpa da postagem, Bolsonaro tenta livrar seus filhos, Eduardo e Flávio Bolsonaro, sabidamente responsáveis pela rede social do pai. Caso se comprove que um desses dois foi autor da postagem, eles estariam definitivamente fora do corpo de defesa de Bolsonaro  CPMI, prevista para ser instalada nesta 4ª na Casa de Leis federal.  

"Foi ele [Bolsonaro] que postou, todos os metadados da plataforma estarão à disposição dos delegados da Polícia Federal", reafirmou a defesa.

O aliado ainda acrescentou que a defesa ainda fez uma demonstração aos policiais federais de como é fácil realizar uma postagem no Facebook.

"A referida postagem, objeto do depoimento de hoje, acontece poucas horas, poucos momentos após a saída dele do hospital, altamente debilitado, altamente medicado. E a postagem, a mecânica de postagem na plataforma do Facebook, se dá com meros dois cliques no botão compartilhar", acrescentou a dupla de advogados. 

SEM APOIO NO PL

A estratégia do clã Bolsonaro de emplacar os filhos na CPMI não conta com o apoio do presidente nacional do PL. Valdemar Costa Neto sinalizou, de maneira reservada a aliados, que vê como erro a estratégia de escalação dos filhos do ex-mandatário.

Para Valdemar, além de Bolsonaro, todo o clã iria para o centro da crise. Entre membros do PL, a leitura é que não há como o ex-presidente sair “ileso” da comissão.

A CPMI do Golpe será instalada nesta quarta-feira (26). Durante sessão conjunta do Congresso, marcada para às 12h, o presidente Rodrigo Pacheco (PSD-MG) fará a leitura do requerimento de instalação do colegiado.

DESISTIRAM DO GOLPE E CMPI? 

Questionados por jornalistas a respeito das respostas dadas sobre a minuta de um golpe de estado, encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, a defesa se esquivou, dizendo que Bolosonaro apenas tratou do objeto daquela intimação, no caso, a postagem do vídeo.

A equipe bolsonarista ainda acrescentou que as eleições de outubro de 2022 são "página virada" para o presidente e que ele deixou claro isso durante o depoimento. Além disso, novamente, teria condenado os atos de 8 de Janeiro.

"O presidente reiterou no depoimento de hoje, recriminou todo e qualquer ato antidemocrático, todo e qualquer ato que visa gerar instabilidade na ordem democrático", afirmou o advogado Daniel Tesser.

"O presidente fez questão de consignar no depoimento de hoje: as eleições de 2022 são páginas viradas para ele. Isso está duas vezes no depoimento de hoje", completou.

A CPMI era do interesse dos bolsonaristas para desgastar o governo Lula, que inicialmente estava contra a instalação da Comissão, posi tinha interesse em votação urgentes ao povo brasileiro. Mas os governistas decidiram agora defende a comissão, após serem vazadas e veiculadas pela CNN Brasil imagens que mostram a atuação de agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no Palácio do Planalto em meio à invasão golpista de 8 de janeiro

Assim que o atual governo passou a defender a CPMI, uma ala da oposição passou a se arrepender da propositura de criação do colegiado.

Segundo o jornalista Valdo Cruz noticiou no seu blog no g1 nesta quarta, alguns parlamentares não descartam a possibilidade de desistir da comissão. Em especial se a presidência e a relatoria da CPMI ficarem com nomes alinhados ao Palácio do Planalto.

DENTRO DAS 4 LINHAS

A PF abriu quatro frentes de investigação após os ataques dos bolsonaristas acampados no QG do Exército.

Uma delas mira os possíveis autores intelectuais, e é essa frente que pode alcançar Bolsonaro. Outra tem como objetivo mapear os financiadores e responsáveis pela logística do acampamento e transporte de bolsonaristas para Brasília.

O terceiro foco da investigação da PF são os vândalos. Os investigadores querem identificar e individualizar a conduta de cada um dos envolvidos na depredação dos prédios históricos da capital federal.

A quarta linha de apuração avança sobre autoridades omissas durante o 8 de janeiro e que facilitaram a atuação dos golpistas.

Essas investigações deram origem a dez fases ostensivas da Lesa Pátria até o momento, deflagradas pela PF para avançar nas apurações.

FONTE: Com Folha de S. Paulo

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