04 de maro de 2021
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Abuso sexual

Escândalos sexuais engordam folha corrida da corrupção em MS

Engana-se quem imagina que desvio de verbas, licitações fraudulentas, prevaricação, manipulação de orçamentos, superfaturamento, compra de votos, venda de decisões, nepotismo e lavagem de dinheiro são as únicas contas no rosário de crimes contra os cofres e o patrimônio públicos em Mato Grosso do Sul. Existe outra modalidade de transgressão, moral, diretamente ligada à influência do poder e dos cargos ocupados por meio da caneta política: a corrupção sexual.

Em outros tempos era bem mais raro encontrar nas páginas de política alguma notícia sobre homens e mulheres investidos de funções publicas suspeitos ou acusados de ter protagonizado escândalo sexual. Mas a partir de 2003 essa realidade passou a ganhar outra sequência. Naquele ano, morando e trabalhando em Campo Grande, Zequinha Barbosa protagonizou um rumoroso caso policial.

Campeão brasileiro e pan-americano de corridas de fundo foi denunciado, Zequinha, seu assessor Luiz Otávio Anunciação e os vereadores César Disney e Robson Martins foram denunciados por pedofilia e abuso sexual de menor. Eram acusados de pagar por favores sexuais de três menores de 15, 14 e 13 anos, agenciadas pela mãe de uma delas. Todos foram condenados e sempre se disseram inocentes. Os vereadores renunciaram ao mandato para evitar a cassação. Disney e Anunciação já morreram, o primeiro de câncer, que surgiu em profundo quadro depressivo.

Em abril de 2015, o v ereador Alceu Bueno, eleito pelo PSL, teve que renunciar ao mandato para não ser cassado por quebra de decoro pelos colegas. Ele havia sido flagrado por policiais quando pagava dois homens (Luciano Pageu e Fabiano Otero) para que não divulgassem vídeo em que aparecia mantendo relações sexuais com duas adolescentes de 15 anos. O ex-vereador e advogado Robson Martins também foi acusado de ser o intermediário da negociação.

Além de Bueno, outro político, Sérgio Assis, do PSB, e o empresário Zeca Lopes, do ramo de frigoríficos, também foram acusados de participar do esquema como clientes. O delegado Paulo Sérgio Lauretto, titular da Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), informou que os políticos levavam as meninas para motéis, sem saber que elas gravavam todo o encontro em câmeras acopladas nos chaveiros. Várias gravações foram apreendidas pela Polícia. O delegado disse que quem agenciava os encontros eram Otero e Pageu. Eles estão presos e Robson Martins foi solto mediante habeas corpus para responder ao processo em liberdade.

APARTE INFELIZ - Em maio este ano, quatro dias antes da data dedicada ás mães, o vereador Roberto Durães (PSC) pouco se deu ao respeito devido a qualquer pessoa, e naquele instante especialmente às mulheres. Num aparte ao vereador Chiquinho Teles, que abordava a falta de sinalização nas vias publicas, Durães trouxe um comentário totalmente fora daquele contexto e expôs um ato de boquirrotice que deveria resultar na cassação de seu mandato por quebra de decoro.

O que Durães disse, de carona num aparte para expressar suas diferenças com Alcides Bernal, não chega a ser um escândalo sexual, mas equivale ao protagonismo de alguém cuja conduta chegou mais rasa e abjeta que um palavrão: “Quero dar um recado ao prefeito. Eu conheço muito a senhora mãe dele, viu? Eu conheço demais aquela senhora mãe dele...como eu conheço, já que é uma corja. Fala pra mãe dele contrar quem sou eu, ainda mais no silêncio dos edredons”.

 A escrotice retóricas do vereador Roberto Durães em desrespeitosa menção à genitora do prefeito Alcides Bernal infelizmente não é manifestação isoladas de comportamentos indignos de seres humanos, sobretudo os que detêm cargo publico e influência midiática na sociedade.

ASSÉDIO E HOMOFOBIA – Na semana passada o blog do jornalista Dante Filho publicou denúncia grave contra o superintendente estadual da Fundação de Turismo (Fundtur-MS), Nelson Cintra Ribeiro.

A jornalista Nilmara Caramalac, que trabalhava na emissora estatal, acusa Cintra de assédio sexual,a denúncia, encaminhada ao Ministério Publico Estadual, recebeu apoio da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Rádio e Televisão (Fitert) e da Rede de Mulheres Radialistas do Brasil.

Conforme a denúncia, os fatos aconteceram no período de cobertura da passagem da tocha olímpica pelo interior do Estado. Nilmara informou que o superintendente pediu fotos dela totalmente nua em duas ocasiões, porque na primeira ela teria enviado um apenas de biquíni. Depois, afirma que num jantar da equipe em um restaurante de Dourados ele a teria convidado para ir a seu quarto e ela recusou, o que, segundo Nilmara, desencadeou perseguição pessoal que causou seu afastamento.

Ela pôs à disposição do MPE, Polícia e Judiciário, como elementos probatórios, as gravações de seu aparelho celular, sugerindo que se fizesse o mesmo com o telefone de Cintra. Para completar a semana, outro escândalo agitou a política com o vazamento de um diálogo entre vereadores campo-grandenses num grupo do whats app.

 Na conversa, o alvo de comentários depreciativos e homofóbicos é o ex-vereador Valdir Gomes. Um campeão absoluto de desfiles de fantasias carnavalescas e ex-coordenador do Centro de Convivência do Idoso Vovó Ziza, Valdir é pré-candidato do PP à Câmara.

O conteúdo da conversa está no conjunto de escutas autorizadas judicialmente da Operação Coffee Break, que investiga suspeita de pagamento de propina e favores para garantir a cassação do mandato do prefeito Alcides Bernal (PP) em 2014. Os vereadores Airton Saraiva (DEM), Carlão Borges (PSB), Herculano Borges (Solidariedade) e o já cassado Delei Pinheiro (PSD) ironizam a indicação de Valdir Gomes no ano de 2015 para a Semadur (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano), com declarações de evidente preconceito e manifestações jocosas de homofobia.

A opção sexual de Valdir Gomes foi duramente ridicularizada. “Tá cheio de queima-roscas aqui nesse grupo. Acho que vou sair”, diz Herculano. Carlão completa, com o grafismo da gargalhada (kkkkkk): “É verdade”. E Herculano emenda: “Sou hetero”. Na vergonhosa brincadeira, os vereadores adotam um trocadilho para referir-se à Semadur: Semacu.

Valdir Gomes foi ontem (quinta, 14) à Câmara e em plena sessão repreendeu o vereador Carlão, sob aplaudo de vários presentes. Ele tem três filhos e é avô de um menino de 13 anos, todos adotivos. “Sou um pai de família, talvez muito mais homem que eles, que sequer têm coragem de adotar. O constrangimento que eu e minha família estamos vivendo não vai ficar em branco”, afiançou.