12 de maio de 2026
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'PROJETO DV'

Marqueteiro de Flávio recebeu R$ 650 mil em projeto de Vorcaro do Master

O chefe de comunicação da pré-campanha presidencial da extrema direita entrega seu 1º escândalo

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O ex-policial civil Marcello de Oliveira Lopes, conhecido como Marcelão, dono da Cálix Propaganda (CNPJ - 05.893.556/0001-78) e sócio da Tmol - Tecnologia e Marketing (CNPJ 30.193.631/0001-35), escolhido para comandar a comunicação da pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL), teve um contratado ligado a Daniel Vorcaro, do Banco Master, em um plano de ataques coordenados contra o Banco Central.

A revelação foi publicada na 2ª feira (12.mai.26) na Folha de São Paulo. A íntegra

Vamos lembrar: Vorcaro é autor de um rombo bilionário contra o Brasil. Isso porque, por meio do Banco Master, vendeu “riqueza de papel” — isto é, ativos que não valeriam o que diziam valer. Ele teria cometido fraudes de aproximadamente R$ 12,2 bilhões envolvendo carteiras de crédito inexistentes ou sem lastro suficiente.

Marcelão aparece citado em um documento interno chamado “Projeto DV”, ao lado de Thiago Miranda, dono da agência Mithi e responsável pelo projeto, e do publicitário Anderson Nunes, da Unltd Network, empresa que foi subcontratada para o plano.

Miranda prestou depoimento nesta 3ª feira (12.mai) à PF na investigação que apura os ataques.

O jornal paulistano acessou um comprovante de Pix que mostra a transferência de R$ 650 mil feita por Thiago Miranda para Marcelão em 13 de dezembro — justamente durante a fase de elaboração do “Projeto DV”. Dois dias depois, a Unltd Network também recebeu R$ 400 mil.

Nos bastidores de Brasília, Marcelão é conhecido há anos como operador político especializado em campanhas agressivas e comunicação de enfrentamento. Sua aproximação com o núcleo bolsonarista não surpreende ninguém no meio político.

Com isso, o chefe de comunicação da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro entrega seu 1º escândalo. O pretenso pré-candidato à Presidência que já carrega o próprio histórico escuso envolvendo rachadinhas, dinheiro flutuante e a compra de uma mansão milionária em dinheiro vivo — tem na sua folha de pagamentos um dos articuladores de ataque contra o principal banco brasileiro. 

O plano do “Projeto DV” de uso de influenciadores para atacar executivos do BC, veio à tona em janeiro desse ano e foi interrompido após a PF começar a investigar os posts coordenados.

À Folha Miranda e Marcelão negaram ontegrar o elenco do “Projeto DV”, mas se contradizeram nas explicações do recebimentos dos PIX.  

Marcelão alegou "surpresa e indignação" de seu nome entre os membros do Projeto DV.

"O que me recordo é que o Thiago [Miranda] comentou comigo sobre a possibilidade de eu entrar em um projeto grande que ele estaria fechando. Na ocasião, informei que não teria como participar porque eu viajaria para os EUA no dia 24 de dezembro e retornaria apenas no início de fevereiro. Agradeci a indicação e, sinceramente, do que eu me lembro, foi só isso".

Sobre o repasse de R$ 650 mil para a sua conta em 13 de dezembro, Marcelão sustentou que se tratou de pagamentos em atraso por serviços realizados: "em outros trabalhos privados ao longo do tempo, sem qualquer relação com o projeto [DV]". 

Questionado sobre quais teriam sido esses trabalhos prestados anteriormente, ele afirmou que seria para a "produção de campanha publicitária no ambiente on e off e produção de vídeo", mas que não poderia dar detalhes.

"Isso revelaria o cliente que tem cláusulas de confidencialidade que não me permitem divulgar essa informação".

Também afirmou não poder fornecer o contrato, por ser confidencial.

Já Thiago Miranda confirmou que fez o pagamento a Marcelão e que adicionou o nome do marqueteiro de Flávio no time que comandaria o "Projeto DV".

Miranda confirmou ser autor do documento intitulado "Projeto DV".  

"Esse material foi eu que fiz. Tudo que está nele é o que exatamente tentei executar dentro do projeto", disse à reportagem em mensagem por escrito no Whatsapp, na 5ª feira (7.mai.26).

Miranda argumentou, porém, que Marcelão não contribuiu com o projeto, mas citou que ele resolveu sair três semanas após uma reunião, ao saber que o serviço era para o Banco Master.

Segundo ele, o marqueteiro de Flávio alegou conflito de interesses, pois "atende muitas contas importantes".

Ele ainda afirmou que fez o repasse a Marcelão para "garantir o nome dele" no projeto e porque ele o ajudaria a "dar peso para o trabalho", pois teria "um nome muito forte".

"Vou ser bem sincero, igual eu sempre fui. Eu paguei para o Marcelão para poder segurar que ele realmente me ajudasse no projeto, porque ele tem um nome muito forte, então ele daria peso para o meu projeto", disse à reportagem, por mensagem de áudio, na 2ª feira (11.mai.26).

Sobre o PIX de R$ 650 mil, Miranda alegou que recebeu estorno, mas não soube dizer quando esse foi feito por Marcelão.  

"Não sei. Não tenho acesso ao financeiro. Movimento milhões, o volume é muito grande", disse Miranda.

De maneira meio confusa, num áudio à Folha, Miranda alegou que ainda que Marcelão tenha "deixado o equipe", ele manteve o nome dele na lista de funcionários do "Projeto DV". 

"Para concorrer numa licitação, de apresentar um projeto e colocar outros nomes, agências parceiras, para poder ganhar o projeto, deixar mais robusto, então foi isso", afirmou. 

Após ser confrontado novamente, no final da tarde da 2ª feira (11.mai), sobre as divergências do motivo do pagamento e da devolução, ele respondeu que estaria desorientado pelo momento em que estava passando.

A Unltd admitiu ter atuado como fornecedora terceirizada da Mithi, de Thiago Miranda, para o projeto de gestão de crise, em dezembro de 2025 e janeiro deste ano. A empresa afirmou não ter nenhum vínculo ou relação comercial com o Banco Master ou com Daniel Vorcaro. A defesa do ex-banqueiro foi procurada na 2ª feira (11.mai.26) e informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não iria se manifestar.

Os extratos obtidos pela Folha mostram que as contratações somaram R$ 8 milhões, operadas pela Mithi.