19 de junho de 2021
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Arquitetura Política

Puccinelli ao Senado, para um PMDB sem opções

O estilo centralizador do ex-governador André Puccinelli parece ter deixado o PMDB sem opções para as futuras eleições majoritárias

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O PMDB decidiu, ou se rendeu, seguir orientações e de certa forma obedecer quase cegamente ao governador André Puccinelli. Manteve, assim, a prefeitura da Capital, que vinha das mãos de Juvenal Juvêncio e que por oito anos esteve sobre o comando centralizador de André, que a entregou a contragosto a Nelsinho Trad, que também a manteve por oito anos.

Com jogadas cirurgicamente precisas, André soube aguardar o desgaste do segundo mandato petista de José Orcírio Miranda dos Santos e, de um bote arrebatar o governo do Estado por oito anos. Mas o excesso de personalismo minou o nascimento de eventuais lideranças peemedebistas.

Assim foi que perdeu fragorosamente a prefeitura da Capital quando impôs um candidato sem empatia, sem apelo popular, distante do povo, seu ex-secretário Edson Giroto. Sem ouvir seu próprio partido e contando com sua ascendência sobre outros partidos menores, tratou de enfraquecer o já desgastado ex-prefeito Nelsinho Trad, alvo de denúncias, investigações e processos diversos referentes ao seu período de governo.

Hoje o PMDB caminha para perder de seus quadros a família Trad, único grande empecilho para o controle total do partido. Aparentemente, o ex-governador venceu e manteve a mais forte bancada da Assembleia Legislativa com Junior Mochi (que conquistou a presidência da Casa), Maurício Picarelli, Antonieta Amorim, Eduardo Rocha e Renato Câmara. Exclua-se o desafeto Marquinhos Trad. Carrega como fiéis aliados, também, Mara Caseiro e Marcio Fernandes, do PTdoB, ou peemedebezinho como costuma ser nomeado pelo próprio governador e com a anuência de boa parte de seus filiados. A eles pode se somar Barbosinha (PSB), Lidio Lopes (PEN) e, ainda que tenham se aliado ao PT nas últimas eleições, mais como estratégia de enfraquecimento da candidatura de Nelsinho Trad, do que por similaridade ideológica, Grazielle Machado e Paulo Corrêa, do PR. Tem a maioria, tranquila, pronta para abrir frestas no governo tucano de Reinaldo Azambuja.

Na Câmara Federal, Carlos Marun e Geraldo Resende do PMDB, além de sua ex-secretária de Governo, Tereza Cristina (PSB). Na Câmara, dá um banho com a maioria dos vereadores que lhe apoiam sempre e acima de tudo.

Mas, com tanta base, não existem líderes que se sobressaiam. André permitiu que o partido criasse uma dependência acima e além do desejável para uma agremiação política que não se finda com o ocaso de seus líderes.

Se está difícil conseguir um nome em condições de disputar a prefeitura de Campo Grande com boa margem de vantagem, até comum para o peso político do partido, tem nenhum nome para concorrer ao Senado em 2016. Estarão em disputa duas vagas, e uma delas tem dono, o senador Moka, que reúne amplas condições de ser reeleito. A segunda, espera alguém de peso para concorrer com Delcídio do Amaral. Este alguém pode ser o deputado federal Zeca do PT, que vê seu nome ficar mais fortalecido dentro do partido a cada ano que passa, a cada eleição que vence, e a cada derrota de Delcídio do Amaral.

Ao PSDB resta observar. É difícil imaginar que o partido consiga um nome para entrar na disputa, assim como é difícil imaginar que venha a se coligar com o PMDB que lhe mina as ações no governo do Estado, e o PT, figadal inimigo nacional.

Ainda que pretenda assumir o mais confortável papel de Conselheiro, Puccinelli terá que repensar sua rejeição em concorrer ao Senado nas eleições de 2018.

O clã dos Trad, até lá, pode estar assentado na prefeitura, com Marquinhos Trad, quem sabe pelo PTB, mais provável, ou no PL, ainda uma incógnita. Pode ter o nome de Nelsinho ou Fábio para o Senado. Pode.

André Puccinelli, em sua trajetória comandou um grupo de governo forte, mas estrategicamente longe dos holofotes. A todos auxiliou e elegeu, mas de uma forma ou outra, impediu que caminhassem com suas próprias pernas. Criou um contingente de fiéis escudeiros sem condições de traçar estratégias, mas valentes no combate.

O governador já não descarta com tanta ênfase retomar a caminhada política, gastar sapatos e energia em busca do voto, ainda que diga que acredita que a renovação política é necessária. Mas a falta de novas lideranças, que ele fez questão de abortar, em condições de manter o PMDB como uma das principais forças da política no Estado, faz com que sua decisão de concorrer ao Senado, preencha as intenções e sonhos de dirigentes e filiados do partido.

Ainda que o presidente da Câmara da Capital, Mario Cesar, o vereador Paulo Siufi, ou a deputada estadual Antonieta Amorim ganhem escopo político suficiente ou empatia necessária para conquistarem a Prefeitura de Campo Grande, ainda assim ao PMDB faltará alguém com o perfil necessário para ocupar o Senado ao lado de Moka. E, seria o sonho supremo de qualquer legenda ocupar as três cadeiras do Senado que cabem ao estado.

Delcídio, só o tempo poderá curar as feridas da derrota nas eleições para o governo do Estado. Terá que se refazer, retomar forças suficientes para reagrupar parte do PT em torno de seu projeto político. Nesse caso, e apenas nesse caso, e não tendo seu nome ligado, sequer cogitado, ou por descuido mencionado, na Operação Lava Jato, poderá fazer uma dobradinha com Zeca do PT, ou repetir a dobradinha não oficial com um candidato de outro partido.

Hoje, André Puccinelli é candidato ao Senado em 2018. Quem será o candidato ao Governo do Estado? Até lá, muita água vai rolar por sob a ponte, podendo trazer boiando a reforma política.