01 de julho de 2022
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ESTUPRADA NA DELEGACIA

Mulher estuprada por policial na 'Sala Lilás' em Sidrolândia; "Não saio mais de casa"

Servidor ativo ganha cerca de R$ 7,1 mil de salário, mesmo estando preso por estupro

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O investigador da Polícia Civil do Mato Grosso do Sul, Elbeson de Oliveira, de 41 anos, réu na Justiça por estuprar uma mulher de 28 anos dentro da delegacia em Sidrolândia (MS) é servidor ativo e ganha cerca de R$ 7,1 mil de salário. Ele está preso desde 12 de abril, ainda assim, segue recebendo sua remunderação mensal.

A mulher de 28 anos que foi estuprada na Sala Lilás da [espaço da unidade policial dedicado ao atendimento de mulheres vítimas de violência de gênero], contou ao g1, num relato exclusico, como está enfrentando toda a situação. Apesar de ser vítima, de acordo com a mulher, ela também está com a liberdade restringida. "Não saio mais de casa, só durmo à base de remédios. Não consigo comer direito, minha vida está um caos", expliciou. 

Nós divulgamos esse caso aqui no MS Notícias. Conforme a denúncia, o crime veio à tona após o policial tentar "comprar" o silêncio de outros presos.

Segundo a denúncia dos outros detentos, na segunda-feira (11.abr.22) o policial retirou a vítima da cela em que estava e a levou para a Sala Lilás, onde a estuprou diversas vezes. 

A mulher não é sul-mato-grossense. Ela chegou ao estado por Ponta Porã (MS), juntamente com um rapaz, vindos de São Paulo. No dia da viagem, a van em que eles estavam foi abordada em Sidrolândia e o rapaz acabou preso por estar trasnportando uma quantia de droga na mochila. Com o flagrante, o casal foi levado até a delegacia e, no mesmo dia à noite, a mulher conta ter sido estuprada pela 1ª vez pelo investigador.

"Ele já abusou de mim desde a primeira vez que cheguei. Cheguei de manhã, e à noite era o plantão dele. No primeiro dia, eu já fui estuprada. Na primeira noite, fui levada até a Sala Lilás [espaço da unidade policial dedicado ao atendimento de mulheres vítimas de violência de gênero]. Toda vez que tinha plantão dele, ele fazia questão de ir na cela", narrou.  

A vítima comentou que, no primeiro dia, para que saísse da cela, o investigador alegou que uma prima estava em ligação. "Quando saí da cela, ele começou a me ameaçar. Disse para eu não falar para ninguém, que eu não era daqui e que se eu fizesse alguma coisa ninguém ia sentir a minha falta", lembrou.  

Após ser estuprada, a vítima foi levada para a cela e lembrou que passou a noite em claro e aos prantos. Como o investigador apenas cobria plantões em Sidrolândia, a ida à delegacia era feita de dois em dois dias.

"Eu me senti a pessoa mais desprotegida do mundo. A pessoa já está em um canto onde tem que ser protegido e isso acontece com você?"

A vítima relatou que assim que Elbeson chegava a delegacia, o sentimento de medo e desespero já tomava conta dela. O investigador ia até a cela onde ela estava, a chamava na grade e começava a alisá-la e a ameaçava constantemente. "Todo plantão que ele tinha, ele ia na cela, ficava me abusando e me tocando. Depois que chegou uma menina na cela, ele não pode fazer isso ali. Foi então que ele me tirou da cela novamente, dizendo que um advogado estava me chamando", disse.  

Outros presos contaram a situação à uma delegada. Os detentos disseram ter escutado a vítima chorando na noite anterior, ocasião em que ela revelou ter sido abusada sexualmente pelo investigador.

Elbesom foi denunciado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) pelos crimes de estupro, importunação sexual e violência psicológica contra a vítima. A denúncia foi recebida pela Justiça do MPMS, que o tornou réu no caso.

PRISÃO REVOGADA E TRAUMA

Após o crime sexual, a mulher teve a prisão por tráfico de drogas revogada e voltou para cidade onde mora com a mãe e filhos. Na época, a decisão foi tomada pela Justiça de Sidrolândia para “resguardar a integridade física e psicológica” da vítima.

Durante todo o período que permaneceu em Mato Grosso do Sul, a vítima relatou ter perdido cerca de 6kg.

"Não saio mais de casa, só durmo à base de remédios. Não estou comendo direito, minha vida está um caos. Quando eu fecho os olhos, não consigo esquecer o que passei. Ele acabou com minha vida. Eu tenho vergonha e medo de sair de casa e pensar sobre o que as pessoas vão pensar sobre mim."

Os abusos, sexual e psicológico, provocaram inúmeras sequelas na vítima, como ela relata. O medo se tornou inconsciente.

"Me causa muito medo. Eu tenho medo do que ele possa fazer comigo. Ele falava a todo instante que se eu abrisse minha boca, ele ia me matar. Ele disse que ia até no inferno, onde eu estivesse. O que passei não foi brincadeira. Só eu e Deus sabe o que passei."

APOIO '0'

A vítima afirma não ter passado por nenhum atendimento psicológico em MS. O g1 procurou a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul para saber se o serviço foi oferecido à vítima, mas até a última atualização desta reportagem, nenhuma resposta foi enviada.

Sem ajuda profissional, a mulher se ampara no ombro de familiares e dos filhos. "Minha família está me apoiando. Estou tentando me reerguer, é muito complicado. Não tem como a cabeça da pessoa ficar boa. Parece que minha cabeça não funciona mais."

"Estou tentando me reestruturar agora. Eu não comia, não bebia, só ficava com medo, o tempo todo. Ficava com medo dele fazer algum de mal comigo. No dia que os meninos denunciaram, eu passei a noite em claro, só chorando e pedindo a Deus por misericórdia. Eu não sabia o que ia acontecer."

"Se não fosse minha mãe e meus irmãos, não sei o que seria de mim. Só eles para me ajudarem nesta hora. Não consigo dormir só, se eu ficar muito tempo sozinha, fico pensando que vai ter alguém querendo fazer alguma coisa comigo. Só de eu estar perto da minha mãe e filhos já é tudo. Não consigo ficar mais só."

A denúncia foi colhida pela juíza da Vara Criminal, em Sidrolândia, Silvia Eliane Tedardi da Silva, no fim de abril deste ano. Nesta terça-feira o juiz da 7ª Vara Criminal, em Campo Grande, Marcelo Ivo de Oliveira, determinou que defesa do réu se posicione.

Elbeson de Oliveira foi nomeado com publicação no diário oficial em 15 de agosto de 2014. Ele foi o 58º colocado na prova que selecionou 270 investigadores.