28 de fevereiro de 2024
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RICARDO BRAZ OLIVEIRA

PM mata duas mulheres e assalta outras quatro para 'ganhar renda extra'

Suspeito selecionava mulheres que estavam sozinhas em estradas e oferecia ajuda com transporte

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O policial militar Ricardo Braz Oliveira, de 42 anos, matou Taís Lopes Santos, de 28 anos, e Maria Lindinalva Carvalho, de 35 anos, respectivamente nos dias 8 de setembro e 14 de setembro de 2023, após oferecer transporte para elas na BR-316, nos arredores de Miranda do Norte, no Maranhão.

Conforme a Polícia Civil maranhense, o criminoso também teria assaltado outras 4 mulheres na mesma região. Ele praticou os crimes no momento em que trabalhava oferecendo serviços de transporte pela rodovia e adjacentes.

O carro usado pelo PM foi apreendido e encaminhado ao Instituto de Criminalística (ICRIM), onde será submetido a perícia. O carro usado pelo PM foi apreendido e encaminhado ao Instituto de Criminalística (ICRIM), onde foi submetido a perícia. 

O PM é lotado no 29º Batalhão da PM no município de Zé Doca. No entanto, ele mora em Caxias, que fica a quase 315 km de distância. As duas cidades são ligadas pela BR-316 e era nesse trajeto, e em vias próximas, que ele abordava suas vítimas.

O policial militar Ricardo Braz Oliveira, acusado de roubos e latrocínios  Foto: DivulgaçãoO policial militar Ricardo Braz Oliveira, acusado de roubos e latrocínios no Maranhão — Foto: Divulgação

"Fizemos uma longa investigação, com vários delegados, e já temos muitas provas contra ele, de crimes em várias regiões. Esse cara só pode ser um psicopata. Só de mortes foram duas, além de vários assaltos. Porém, ainda investigamos porque pode ter muito mais [casos]", disse Jair Paiva, delegado-geral da Polícia Civil do Maranhão.

A investigação sugere que os crimes ocorriam de forma sistemática: o suspeito selecionava mulheres que estavam sozinhas em estradas, oferecia ajuda com transporte e, em seguida, roubava-as dentro do veículo. Algumas das vítimas que resistiram acabaram sendo assassinadas.

CRONOLOGIA DOS ROUBOS

Policial Militar usava facas para ameaçar e assaltar mulheres no interior do MA  Foto: DivulgaçãoPolicial Militar usava canivetes para ameaçar e assaltar mulheres no interior do MA; em dois casos matou as vítimas — Foto: Divulgação

No dia 6 de setembro, Maria Luzineta, de 43 anos, foi vítima de um assalto no município de Peritoró. Ela informou à Polícia Civil que estava na BR-316 e pegou uma carona com um homem chamado Ricardo para chegar até um povoado próximo. Durante o trajeto, o motorista ameaçou Maria com uma faca e, em seguida, sacou uma pistola quando ela tentou reagir. Com medo, Maria entregou um brinco de ouro e R$ 520 e foi deixada nas margens da rodovia. Este foi um dos primeiros casos confirmados na região.

Acusações de roubo com características semelhantes foram feitas por Francilene de Jesus, Edivania Fernandes e Anaide Sousa contra Ricardo em Caxias durante o mesmo período.

A Polícia Civil finalizou a investigação desses casos e a Justiça aceitou as acusações contra Ricardo. Agora, ele é réu pelo crime de roubo majorado — que é cometido com violência ou grave ameaça.

CRONOLOGIA DOS LATROCÍNIOS

Maria Lindinalva Carvalho, morta aos 35 anos.

Maria Lindinalva Carvalho, de 35 anos — assassinada pelo PM Ricardo em 14 de setembro, em Matões do Norte. Ela desapareceu depois de sair de casa para obter informações sobre a saúde de um primo em um hospital.

De acordo com a polícia, Lindinalva aguardava por um meio de transporte nas margens da BR-135, às 9h, quando um veículo branco a levou. Ela desapareceu logo em seguida.

Cinco dias depois, o corpo de Lindinalva foi encontrado em estado avançado de decomposição. A polícia, com base em informações de testemunhas, conseguiu identificar que a placa do carro que levou a vítima era de Caxias.

Após duas semanas de investigação, os policiais descobriram por meio de informações do veículo, o endereço de Ricardo e concluíram que havia outras mulheres que foram vítimas de assaltos com o mesmo método utilizado pelo PM.

“Nós tratamos esse caso agora como latrocínio, inclusive em razão de outras três vítimas na região de Caxias terem reconhecido esse policial militar como autor de assaltos ocorridos no mês passado, com o mesmo modus operandi”, destacou o delegado Renilton Ferreira, titular da Delegacia de Miranda do Norte.

Taís Lopes foi assassinada aos 28 anos. Taís Lopes foi assassinada aos 28 anos. 

Taís Lopes Santos, de 28 anos — assassinada pelo PM Ricardo entre os dias 8 e 9 de setembro. Esse foi o último caso descoberto pela polícia — mas o primeiro na ordem cronológica. 

De acordo com os investigadores, Tais era mãe de uma criança de seis anos. Ela saiu de casa para ir ao trabalho no dia 8 de agosto, em Codó. Ela estava sozinha e acabou se atrasando. Funcionários e familiares a procuraram, mas só encontraram o corpo de Taís em uma estrada vicinal, com ferimentos na cabeça e tórax. Desde então, a polícia começou a investigar o crime, mas esbarrou em vários problemas, como a falta de testemunhas.

Para descobrir o que ocorreu com ela, foi montada uma força-tarefa com delegados de várias cidades que em cerca de quatro meses ligou o desaparecimento dela ao PM.

Celular da vítima foi achado. "Fizemos uma longa investigação, com vários delegados, até que o celular de Taís foi localizado. Descobrimos o receptor do celular, que confirmou que comprou o aparelho das mãos de Ricardo", contou o delegado de Codó, Rômulo Vasconcelos.

Testemunhas indicaram o mesmo carro usado em outros crimes — o veículo de Ricaro — teria levado Taís. 

PRISÃO E CONFISSÃO

Maria Lindinalva Carvalho foi morta após pegar um carro quando esperava por transporte em uma rodovia  Foto: Arquivo pessoalPM Ricardo Braz Oliveira matou Maria Lindinalva Carvalho, de 35 anos, conhecida como ‘Keké’ — Foto: Arquivo pessoal

Ricardo foi preso no dia 5 de outubro dentro do Batalhão em Zé Doca. Segundo a Polícia Civil, ele confessou em depoimento o assassinato de Lindinalva e afirmou que se passava por motorista de transporte para abordar mulheres e "ganhar renda extra". Contudo, a polícia desmentiu a versão pelos testemunhos das vítimas em outras cidades e provas coletadas no veículo.

No caso de Lindinalva, o PM disse, também em depoimento, que a matou com uma facada nas costas, mas alegou legítima defesa – porque "ela é quem teria tentado assaltá-lo".

O PM contou que Lindinalva estaria acompanhada de um homem e que ambos afirmaram que estavam indo para Santa Rita. O policial afirmou que cobrou R$ 15 de cada um para deixá-los na cidade e que, após passarem por Miranda do Norte, Lindinalva e o homem teriam anunciado um assalto e exigido que o PM adentrasse em uma estrada vicinal.

O suspeito alegou, ainda, que teria reagido ao suposto assalto após ser ameaçado de morte. Ele disse que foi identificado como policial pelos supostos assaltantes, momento em que teria desferido uma facada nas costas de Lindinalva e que, após esse fato, o homem que acompanhava Lindinalva teria retirado a mulher do carro e a levado para o mato, ocasião que o PM alega ter fugido.

A Polícia Civil alega que a versão contada pelo PM não tem nenhuma margem de verdade. “Outro fato importante é que se trata de um policial militar com 13 anos prestados na segurança pública, ou seja, uma pessoa com vasta experiência em lidar com criminosos em situações delicadas e que, o argumento narrado por ele, de não ter procurado uma delegacia, não ter registrado uma ocorrência, não ter reportado esse suposto assalto, que ele alega em sua defesa, aos seus superiores, aos seus colegas de trabalho, aos seus familiares, não é algo que a polícia acredita como verdade”, explicou o delegado Renilton Ferreira.

O QUE DIZ A PM MARANHENSE 

Em relação às acusações feitas contra Ricardo, a Polícia Militar do Maranhão afirmou em comunicado que "não tolera nenhum tipo de comportamento inadequado por parte de seus funcionários" e que ordenou a abertura de um processo administrativo para investigar o assunto dentro da corporação, a fim de tomar as medidas legais necessárias.

Fonte: *Com UOL