14 de maio de 2021
Campo Grande 26º 17º

ESTUPRO DE VULNERÁVEL

Presidente do Conselho de Saúde é suspeito de estuprar afilhada e outras duas meninas em MS

Vítimas começam a procurar delegacia no interior após a afilhada do homem ter uma crise de pânico e trazer terror que vivia à tona

A- A+

O professor de geografia Florêncio Garcia Escobar, de 55 anos, suspeito de estuprar a afilhada, também foi denunciado a Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM) de Aquidauana, no interior de Mato Grosso do Sul, por outro crime, em que o suspeito teria estuprado uma jovem de 15 anos durante passeio com a família da vítima em 1998. O suspeito, porém, devido ao poder e ser líder em várias entidades no estado, está sendo poupado, até mesmo pelos veículos de imprensa, avaliam denunciantes aquidauanenses, que lutam para que ele seja punido. Florêncio era diretor no Conselho Estadual de Saúde de MS, ao qual ele enviou documento pedindo afastamento sem citar o motivo, apenas destacando se tratar de "interesses particulares inadiáveis".

O Conselho Estadual de Saúde/MS é um espaço de debate, formulação e avaliação das políticas de saúde. Colegiado permanente que formula, supervisiona, avalia, controla e propõem políticas públicas. Em MS, o conselho é, ironicamente, responsável pela aprovação de políticas de enfrentamento a violência contra à mulher.  

O Conselho Estadual de Saúde não se manifestou sobre o caso. A reportagem tentou contato com o Conselho por meio de número disponibilizado na página do Facebook da entidade, mas as ligações não foram atendidas. E nenhum posicionamento foi publicado até a publicação desta reportagem. 

DENÚNCIAS 

No 1º caso denunciado, da afilhada, o suspeito teria a estuprado dos 8 aos 12 anos. Hoje ela tem 18 anos. A jovem disse à polícia, que mesmo após ir para Campo Grande, continuou sendo perseguida pelo padrinho. O caso foi tornado público após a família tomar conhecimento do fato no dia 7 de dezembro de 2020, quando a jovem teve uma crise de pânico durante jantar em que o suspeito esteve presente. Além da menina de 18 anos, a irmã dela, hoje com 15 anos, também teria sido vítima do professor.   

No 2º caso, a menina foi vítima em 1998. Ela disse que o homem teria a estuprado em uma casa quando a família e professor que se dizia 'amigo' foram passar férias em Guarapari (ES). Na ocasião, a vítima teve que voltar à casa de praia para pegar um protetor solar e acabou estuprada no imóvel, onde o homem também estava. A mulher, hoje com 38 anos, disse que tomou coragem de denunciar o estupro após saber que pessoas teriam o denunciado. 

O Sindicato Municipal dos Trabalhadores em Educação emitiu uma nota após decisão em 4 de janeiro de 2021, comunicando o afastamento do professor suspeito, que atuava como secretário de finanças na entidade. 

Fontes afirmaram à reportagem que outras vítimas procuraram a delegacia depois das 3 denúncias feitas. Segundo apontam parte das mulheres que lideram a frente que cobra que o suspeito pague pelos crimes, alunas do suspeito da cidade de Aquidauana teriam ido até a polícia. "Mas as vítimas não querem assumir essa informação, amedrontadas com o que possa acontecer", afirma uma das mulheres da frente.  

A reportagem tentou contato com a DAM para confirmar se novas denúncias teriam sido recebidas, porém, as ligações não foram atendidas.  

MANIFESTAÇÕES

Colegas de sigla do PT em Aquidauana manifestaram repúdio ao crime do qual o professor é suspeito, e cobraram que tudo seja apurado. “É muito nojento o que temos visto por aqui nos últimos dias. Denúncias de tantas vidas machucadas e destruídas por esse crime pútrido que tem como acusado um ser que tinha tudo pra combater esses tipos de horrores. Quantas pessoas expostas, envergonhadas, inocentes e vítimas nessa situação toda? Nós repudiamos tudo isso e clamamos por justiça urgente, as pessoas não podem ainda ter que sofrer com as dores de se sentirem ignorados por conta de determinadas dificuldades que cercam a constituição e o código penal, essas vítimas necessitam da nossa solidariedade e do nosso combate à todas as injustiças praticadas contra elas. Pedimos a intervenção do Ministério Público e da sociedade civil organizada, pela defesa dos Direitos Humanos a cada das vítimas que sofreram e sofrem esse crime”, escreveu o petista Tiago Roda de Oliveira.

A Secretaria  de Mulheres do PT/MS disse: "O caso já está sendo acompanhado pela justiça e estamos atentas a todo o processo por meio da Secretaria de Mulheres do PT/MS. Tenham a certeza que estamos tomando todos os encaminhamentos necessários internos sobre o referido caso porque não compactuamos com tais atitudes e não seremos cúmplices jamais do silêncio que oprime e mata nossas mulheres. A Secretaria  de Mulheres do PT/MS se coloca à disposição de ser parceira em qualquer movimento que nossas companheiras de luta se dispuserem a fazer", diz a nota assinada pela secretária Cristiane Sant Anna.  

O suspeito tem também influência na Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems), na qual  Florêncio era Secretário de Políticas Municipais. A entidade emitiu nota sobre a acusação comunicando o afastamento do professor:  

Florêncio também era Secretario de Administração e Finanças da Central Única dos Trabalhadores do Mato Grosso do Sul (CUT-MS). A entidade também emitiu nota comunicando o afastamento do suspeito em 5 de janeiro de 2021:  

O diretor citado encontra - se envolvido em denúncia registrada em Boletim de Ocorrência da Delegacia da Mulher de Aquidauana. Em face as leis brasileiras, a investigação da denúncia ocorre em sigilo de justiça. 

A CUT enfatiza que este tipo de situação não corresponde aos valores históricos defendidos pela central, de uma sociedade livre de violência contra as mulheres e pelo direito à infância e adolescência plena e segura. 

Esta ação segue em consonância com os compromissos estabelecidos no estatuto da central e conforme convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A denúncia contra o suspeito foi realizada em dezembro, no início do mês, apesar disso, todas as entidades às quais pertenciam o acusado, se posicionaram apenas 1 mês após a denúncia, e só devido à força que ganhou o boletim divulgado nas mídias sociais. Essa é a avaliação das mulheres aquidauanenses que acompanham a situação.

Já as entidades alegam que devido ao período de final de ano o e-mail com os pedidos de afastamento do suspeito só foram abertos nos retornos das atividades. Os pedidos de afastamento foram encaminhados em 2 de janeiro, esclareceram.   

A reportagem não conseguiu localizar Florêncio Garcia Escobar e deixa espaço aberto para quaisquer posicionamentos.