A combinação de jornadas longas, sobrecarga física e atraso no diagnóstico transforma desconfortos articulares em lesões crônicas que tiram o trabalhador do campo antes do tempo.
A imagem do trabalhador rural sul-mato-grossense subindo no trator antes do nascer do sol, atravessando pastos extensos a cavalo ou ajustando cercas sob o sol forte do Pantanal faz parte da identidade econômica do estado.
Por trás dessa rotina, no entanto, um problema silencioso vem ganhando espaço nos consultórios de ortopedia: o desgaste progressivo dos joelhos, articulação que sustenta praticamente todo o esforço físico exigido pelas atividades agropecuárias.
Mato Grosso do Sul fechou o último ciclo agrícola com produção de 75,3 milhões de toneladas em 7,4 milhões de hectares, segundo dados da Carta de Conjuntura Agropecuária da Semadesc.
O estado mantém um rebanho de 18 milhões de cabeças de bovinos e ocupa a sétima posição no ranking nacional do Valor Bruto da Produção Agropecuária, estimado em R$ 78,290 bilhões.
Por trás desses números há, segundo o Sistema Famasul, mais de 77 mil pessoas ocupadas formalmente na agropecuária, sem contar o universo informal que mantém pequenas propriedades em regiões como Aquidauana, Corumbá, Dourados, Ribas do Rio Pardo e Terenos.
O paradoxo é que, enquanto o setor cresce em produtividade, a saúde de quem segura essa cadeia produtiva continua tratada como questão secundária.
Em 2024, Mato Grosso do Sul registrou 45.191 afastamentos previdenciários superiores a 15 dias, segundo levantamento do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab) divulgado pelo Campo Grande News. Frigoríficos, construção civil e atividades rurais aparecem entre os principais focos de fraturas e lesões em ombros e joelhos.
Por que o joelho é a articulação mais castigada no campo
O joelho é, anatomicamente, uma das articulações mais expostas a sobrecarga mecânica do corpo humano. Cada quilo de peso adicional do trabalhador equivale a quatro quilos de carga adicional sobre essa estrutura durante a marcha.
No ambiente rural, esse cálculo precisa incluir botas pesadas, sacos de ração, baldes de leite, baterias, cordas, ferragens e o impacto contínuo de subir e descer de máquinas agrícolas várias vezes ao dia.
Uma revisão integrativa publicada na Revista Esfera Acadêmica Saúde aponta que, entre os agricultores, as queixas musculoesqueléticas mais frequentes envolvem ombro, pescoço, punho, parte superior das costas, lombar, joelho e tornozelo.
Estudo realizado em Catolé do Rocha, na Paraíba, identificou que as zonas de maior desconforto entre trabalhadores ligados ao abastecimento agrícola eram, em ordem, a parte inferior das costas, os joelhos, os ombros e o pescoço.
Os tipos de lesão variam conforme a função. Quem ordenha vacas todos os dias acumula desgaste ligado à postura agachada e ao trabalho com as pernas semiflexionadas por horas seguidas. Quem opera tratores e colheitadeiras sofre com vibração de corpo inteiro, que se traduz em dor na coluna lombar e em compensações nos joelhos.
Quem trabalha em pecuária extensiva, lidando diariamente com bovinos, está exposto a torções, quedas e impactos diretos. E quem atua em frigoríficos e abatedouros, presentes em municípios como Dourados, Naviraí e Campo Grande, enfrenta movimentos repetitivos em pé sobre piso úmido, com risco constante de escorregões e sobrecarga sobre meniscos e ligamentos.
Diagnóstico tardio é o ponto crítico
A demora para procurar avaliação especializada é o fator que transforma um quadro tratável em algo cirúrgico. Segundo o ortopedista de Goiânia, Dr. Ulbiramar Correia, especialista em joelho com mais de 19 anos de atuação e cerca de 500 procedimentos cirúrgicos por ano, parte significativa dos pacientes do interior chega ao consultório quando a articulação já apresenta perda de cartilagem ou lesão meniscal antiga, situações que poderiam ter sido contornadas se o problema tivesse sido investigado nos primeiros meses de dor.
Essa realidade é estrutural. Pesquisa publicada pela Acta Paulista de Enfermagem mostra que os trabalhadores rurais predominam, com média de 23%, entre as categorias profissionais que recebem auxílio-doença ao longo de três anos.
Os autores destacam que sintomas dolorosos em agricultores estão atrelados às tarefas manuais como plantio, colheita, inspeção, embalagem, poda, carregamento, transporte e aplicação de produtos químicos.
A combinação dessas atividades com a exposição a temperaturas elevadas e à reposição hídrica inadequada acelera o desgaste articular e cria as condições para que dores ocasionais virem lesões crônicas.
Os números nacionais ajudam a dimensionar o quadro. Estudo publicado na Revista Contemporânea, com base em dados do DATASUS, contabilizou 34.345 notificações de Lesões por Esforços Repetitivos e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho no Brasil entre 2018 e 2022.
A faixa etária de maior prevalência foi entre 35 e 49 anos, exatamente o período em que o trabalhador rural está em pleno exercício produtivo. Quase metade dos casos, 49,9%, exigiu afastamento das atividades laborais; 77,2% relataram movimentos repetitivos como fator desencadeante; e 82,2% relataram dor associada.
A dificuldade de acesso ao especialista
Em municípios mais afastados de Campo Grande, Dourados e Três Lagoas, o trabalhador rural costuma trilhar um caminho longo até chegar a um cirurgião de joelho.
A primeira consulta acontece, na maioria dos casos, na unidade básica de saúde ou no clínico geral. O encaminhamento ao ortopedista pode levar meses, e nem sempre o profissional disponível tem subespecialização em joelho.
Quando o caso é mais complexo, envolvendo lesão de Ligamento Cruzado Anterior associada a rompimento de menisco, por exemplo, o paciente precisa ser referenciado a um centro especializado.
Goiânia se consolidou como uma das opções de referência para pacientes do Centro-Oeste, especialmente para procedimentos de média e alta complexidade no joelho.
A capital goiana concentra hospitais com estrutura para artroplastia com navegação computadorizada, artroscopia e reconstrução ligamentar, além de centros de reabilitação reconhecidos como o CRER, onde residentes em ortopedia recebem treinamento específico em cirurgia do joelho.
Para o paciente sul-mato-grossense que precisa de avaliação especializada, vale comparar diferentes opções entre as clínicas especialistas em cirurgia de joelho disponíveis na região, observando formação dos profissionais, volume cirúrgico e estrutura hospitalar.
O que avaliar antes de marcar uma consulta
Há critérios objetivos que ajudam o paciente a identificar se o profissional escolhido tem real experiência na articulação. O primeiro é a formação.
Um especialista em joelho deve ter, além da residência em ortopedia e traumatologia, treinamento avançado específico para a articulação, geralmente comprovado por filiação à Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ) e à Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE).
O segundo critério é o volume cirúrgico anual. Cirurgiões que realizam um número expressivo de procedimentos por ano tendem a apresentar resultados mais previsíveis, especialmente em cirurgias minimamente invasivas que dependem de curva de aprendizado prolongada.
O terceiro critério é a transparência sobre a indicação cirúrgica. Um bom especialista resiste à tentação de operar todos os casos e indica conduta conservadora, com fisioterapia e perda de peso, sempre que a evidência clínica permite.
Para quem mora em MS e busca segunda opinião, vale acompanhar perfis profissionais que mantenham conteúdo educativo verificável.
O conteúdo publicado por um cirurgião de joelho que explica indicações, riscos e alternativas costuma ser bom indicador de postura técnica e de respeito à autonomia do paciente, contraponto importante diante da pressão comercial que cresceu em torno de procedimentos ortopédicos nos últimos anos.
Prevenção começa na propriedade
O caminho mais curto para reduzir a incidência de lesões de joelho no campo continua sendo a prevenção. Algumas medidas têm respaldo em estudos de ergonomia rural e podem ser adotadas sem custo elevado.
A primeira é o uso adequado de calçado. Botas com solado de absorção e cano firme reduzem o impacto sobre o joelho durante caminhadas longas em terreno irregular. A segunda é a alternância de tarefas: rodízio entre atividades de pé e atividades sentadas distribui a carga sobre diferentes articulações e diminui a sobrecarga acumulada em uma única região.
A terceira é a hidratação regular, especialmente em atividades sob sol forte, como ocorre em boa parte do território sul-mato-grossense durante a safra. A desidratação reduz a viscosidade do líquido sinovial, aumentando o atrito intra-articular.
Pausas curtas e frequentes, alongamentos de quadríceps e isquiotibiais antes do início da jornada e fortalecimento muscular fora do horário de trabalho compõem o conjunto básico de cuidados que cabem no orçamento de qualquer trabalhador.
Pequenas propriedades familiares, comuns em regiões como Itaquiraí, Iguatemi e Mundo Novo, podem incorporar essas práticas com baixíssimo investimento.
Quando o desconforto vira sinal de alerta
Existem sinais que não devem ser ignorados em nenhuma hipótese. Dor que persiste por mais de duas semanas mesmo com repouso, inchaço recorrente após o trabalho, sensação de instabilidade ou de que o joelho vai falhar ao apoiar o peso, estalos acompanhados de dor e bloqueios de movimento são todos motivos para procurar avaliação especializada o quanto antes.
A radiografia simples mostra a estrutura óssea e detecta sinais de artrose, redução do espaço articular e calcificações. A ressonância magnética é o exame mais detalhado para avaliar cartilagem, meniscos e ligamentos, sendo decisiva quando a hipótese envolve ruptura ligamentar ou lesão meniscal.
Em pacientes do meio rural, o ideal é levar para a consulta também uma descrição clara da rotina de trabalho, das atividades repetitivas e dos esforços físicos habituais, porque esse contexto orienta o raciocínio diagnóstico do ortopedista.
A conta que ninguém quer pagar
O trabalhador rural sul-mato-grossense que ignora os primeiros sinais de desgaste articular costuma fazer um cálculo equivocado. Adia a consulta para não parar a produção, mas acaba parando por muito mais tempo quando o quadro se agrava.
A jurisprudência trabalhista no Brasil já reconhece que doenças osteomusculares decorrentes de atividade rural prolongada podem ser enquadradas como doença ocupacional, com direito a benefícios e indenizações. O caminho judicial, no entanto, é longo, desgastante e não devolve a integridade da articulação perdida.
A saída mais inteligente continua sendo a mesma: investigação precoce, tratamento conservador conduzido por profissional habilitado e indicação cirúrgica feita apenas quando o quadro clínico realmente justifica.
Em um estado que mantém o agronegócio como principal motor econômico, cuidar dos joelhos de quem produz não é detalhe. É condição para que a próxima safra continue saindo do campo.











