21 de outubro de 2021
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DESIGUALDADE SOCIAL

Brasil em 10 anos: dobro de favelas e mais de 20 milhões passam fome

Combate à fome passa pela ampliação de crédito a pequenos e médios produtores de alimentos, segundo programa alimentar da ONU

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Levantamento realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), apontou que o número de favelas dobrou no Brasil, num período de uma década, e que 20 milhões de cidadãos passam fome no país, o que equivale à população do Chile. 

Conduzido pelas pesquisadoras que validaram no país a Escala Brasileira de Segurança Alimentar usada pelo IBGE, essa inquérito foi realizada em 1.662 domicílios urbanos e 518 rurais.  

Essas 20 milhões de pessoas apontam que passam até 24 horas ou mais sem ter o que comer em alguns dias. A insegurança alimentar, de como se alimentarão no dia a dia e das pessoas que já reduziram quantidade e qualidade do que comem, afeta mais 24,5 milhões. Outros 74 milhões vivem inseguros sobre se vão acabar passando por isso.

Ao todo, 55% dos brasileiros sofriam de algum tipo de insegurança alimentar (grave, moderada ou leve) em dezembro de 2020. Em setembro o índice de difusão do IPCA para alimentos, que mostra o percentual de itens com aumentos, estava em 64%. Em 2019, quando a inflação equivalia a menos da metade da atual, a difusão nos alimentos era pouco superior a 50% -fato que não limitava tanto a opção pela substituição de produtos.

Desde o início da pandemia os brasileiros vêm comendo mais alimentos ultraprocessados e baratos, é o que aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  Adultos na faixa dos 45 a 55 anos foram os que mais aumentaram esse tipo de consumo, passando de 9% para 16%.

Em queda desde 2004, a insegurança alimentar voltou à registrar aumento em todas as suas formas a partir de 2014, na esteira da forte recessão de 2015-2016, que encolheu o PIB em 7,2%, aponta apuração da Agência Folhapress. 

Os mais pobres são os alvos principais de várias frentes que achatam suas rendas, como a crise fiscal aguda, a pandemia e o governo Jair Bolsonaro que enfraquece o crescimento médio da economia. 

Daniel Balaban, do United Nations World Food Programme (programa mundial de alimentos da ONU), defende que o país precisa seguir o exemplo de outros países que têm progredido no combate à fome ampliando o crédito a pequenos e médios produtores de alimentos.

Em setembro, o presidente foi na contramão e vetou o projeto de lei que criava medidas de amparo à agricultura familiar até 31 de dezembro de 2022, com a transferência de até R$ 3.500 por família beneficiária do Fomento Emergencial de Inclusão Produtiva Rural. Segundo Bolsonaro, essa proposta não trazia "estimativa do impacto orçamentário e financeiro".

FAVELAS

Ainda, segundo estima o IBGE, o total de "aglomerados subnormais" (favelas, palafitas, etc.) saltou de 6.329 em 323 municípios para 13.151 em 734 cidades, no período entre 2010 e 2019.

Além de precárias, as moradias em favelas são caracterizadas pela falta de saneamento básico, e são mais de 5,1 milhões, segundo dados de 2019 do IBGE, que devem subsidiar a operação do próximo Censo, em 2022, sendo que os últimos dados são de 2010.

Segundo a Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional brasileiro em 2019 era de 5,8 milhões de moradias. Nesse total estavam incluídas cerca de 3 milhões de unidades onde residiam famílias comprometendo mais de 30% da renda com o aluguel -o chamado "ônus excessivo".