“Quantos aqui já tiveram uma professora trans?”. A pergunta feita pela multiartista e ativista trans Emy Santos, conhecida como Afro Queer, se repetiu em diferentes cidades de Mato Grosso do Sul durante o ciclo de formações promovido pelo Comitê de Cultura de Mato Grosso do Sul (CCMS), em parceria com o Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS). Em muitos encontros, ninguém levantava a mão.
Emy Santos durante formação no IFMS de Ponta Porã. Foto: Tero Queiroz A cena resume parte do que o projeto encontrou ao percorrer dez campi do IFMS entre fevereiro e abril de 2026 com oficinas, rodas de conversa e apresentações artísticas sobre gênero, raça e diversidade. As atividades foram articuladas junto ao Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) e envolveram estudantes, servidores e comunidades para além dos muros da instituição.
Para Emy, os encontros abriram espaço para debates ainda pouco presentes no cotidiano escolar.
“Foi uma experiência de transformação, de entender a potência de falar sobre temas tão fundamentais para combater o racismo, a transfobia e a misoginia, entendendo esse espaço também como um espaço de troca, fortalecimento e aprendizado”, afirmou.
Segundo a artista, muitos estudantes tiveram o primeiro contato com conceitos ligados à identidade de gênero durante as oficinas.
“Às vezes as pessoas não sabiam nem o significado de palavras como ‘cisgênero’ e ‘transgênero’. Então a gente começava por aí”, lembrou.

A coordenadora metodológica do Comitê de Cultura de Mato Grosso do Sul (CCMS), Bruna Egídio, explicou que a estrutura das formações foi construída em diálogo com os campi do IFMS e baseada nos temas transversais do Programa Nacional dos Comitês de Cultura (PNCC), do Ministério da Cultura (MinC).
“Foi através da coordenação metodológica que idealizamos essas ações com base nos temas transversais estruturados, relativos ao combate ao machismo, à diversidade e às populações indígenas”, detalhou.
Antes da definição das atividades, o Comitê ouviu os NEABI para compreender quais discussões eram mais urgentes em cada cidade.
“Cada município vai ter suas necessidades de temas, de acordo com a vivência dos alunos e daquele campus específico”, observou.
A partir dessa escuta, o projeto concentrou as ações em três frentes principais: raça, gênero e populações indígenas.
“A questão racial, a questão de gênero e sexualidade e a questão das populações indígenas, conforme nos foi apontado por cada unidade do Instituto Federal como um tema importante a ser debatido dentro daquele ambiente educacional”, acrescentou.
Além das palestras e rodas de conversa, o ciclo de formações também levou apresentações culturais aos campi.
“Levamos palestrantes especialistas em cada temática acompanhados de atrações culturais que tivessem intersecção com esses temas. Levamos artistas LGBT, artistas negros e artistas indígenas para que esse diálogo não ficasse só no espaço educacional, mas também incluísse a comunidade artística e cultural desses segmentos”, ressaltou Bruna.
Zuri, durante apresentação de performance na Reitoria do IFMS de Campo Grande. Foto: Tero Queiroz | CCMSEntre as artistas participantes esteve a performer Zuri (Geórgia Fetake), última atração da programação.
“Levar esse tipo de debate para um lugar como o IFMS é fundamental, porque muitas vezes esses espaços reproduzem problemas estruturais”, ponderou.
Segundo Bruna, a linguagem artística ajudou a aproximar os estudantes das discussões propostas.
“A ideia era que os alunos tivessem contato com esses universos de uma forma artística e lúdica, que melhorasse essa concepção da diversidade como algo positivo e constitutivo da identidade de todos nós enquanto brasileiros”, avaliou.
Mais de mil estudantes participaram das atividades ao longo dos encontros. O retorno das comunidades escolares, segundo a coordenação, mostrou que muitos alunos nunca haviam debatido esses temas dentro da escola.
“Tivemos retornos muito positivos dos alunos e servidores, muitos relatando nunca terem visto esse tipo de temática sendo tratado dentro do ambiente escolar”, comentou.
O interesse gerado pelas atividades também chegou às salas de aula.
“Alunos chegaram até seus professores manifestando o desejo de iniciar pesquisas relacionadas a essas temáticas por terem achado os debates interessantes”, relatou.
Jade Ribeiro, integrante da Koa Kuera. Foto: Nair Gavilan | CCMSAntes de chegar aos campi do IFMS, parte das ações ocorreu em territórios indígenas Guarani Kaiowá, em Dourados (MS).
A artista indígena Jade Ribeiro, integrante da Koa Kuera — coletivo de mulheres indígenas Guarani Kaiowá do audiovisual — relacionou as atividades culturais apoiadas pelo Comitê à resistência dos povos originários.
“Fazer ação em Dourados de cultura para o meu povo Guarani Kaiowá é sempre um ato de resistência, porque a gente usa a arte como uma ferramenta de luta também”, afirmou.
Segundo Jade, as atividades desenvolvidas no território priorizam o fortalecimento das crianças e da memória coletiva da comunidade.
“Tudo que a gente faz no nosso território é para fortalecer as nossas crianças, a nossa comunidade. Então tudo que vem em volta para nossa comunidade é fortalecer mesmo a nossa cultura, é dar voz, é impulsionar a comunidade a não perder a valorização do território e da cultura”, destacou.
Ela também chamou atenção para o preconceito enfrentado diariamente pela população indígena em Dourados.
“O Mato Grosso do Sul, Dourados, é uma cidade muito racista. Então todas as ações de cultura que a gente faz sempre na nossa comunidade são muito bem vistas”, argumentou.
Jade Ribeiro e Miguella Peralta durante ação no Campus do IFMS de Dourados. Foto: Nair Gavilan | CCMSParte das atividades passou a ocupar novos espaços criados pela própria comunidade, entre eles a Escola de Arte de Iguacaí.
“As crianças agora estão… A gente fazia só na casa de reza, agora está na Escola de Arte de Iguacaí. E a escola está ali para fortalecer mesmo a comunidade e foi construída pela comunidade. Foi um pedido da comunidade”, contou.
Para Jade, a presença do Comitê de Cultura nas ações também fortalece o sentimento de pertencimento e apoio institucional dentro do território.
“É muito importante para nós e para a comunidade que o Comitê de Cultura esteja junto nessas ações, porque além de fortalecer o nosso território, a gente vê que não está sozinho, que pode contar com algum órgão público”, frisou.
Miguela Peralta. Foto: Tero Queiroz | CCMSA agente territorial de cultura em Ponta Porã, Miguela Peralta, afirmou que as mobilizações continuaram mesmo após o encerramento oficial do projeto.
“É muito importante pontuar que a gente vem dando continuidade para essas mobilizações, para essas formações, para esses encontros”, destacou.
Segundo ela, as ações culturais foram abraçadas pela comunidade indígena.
“Foi abraçado pelas mulheres artesãs, pelos homens, pelas lideranças, pelos mais velhos, pelas crianças”, enumerou.
Os encontros seguem acontecendo na Escola de Arte e Cultura Tradicional de Iguacaí, espaço que concentra oficinas e atividades culturais aos sábados.
“A gente vê isso claramente quando vai aos sábados fazer os encontros na Escola de Iguacaí, que é uma escola de arte e cultura tradicional e também com viés contemporâneo”, descreveu.
Miguela também destacou a aproximação construída entre o IFMS e os territórios indígenas, especialmente nas retomadas em Dourados.
“Outra coisa muito bonita do Instituto Federal é que, para além de um calendário somente do mês de abril, de conscientização indígena, o Instituto Federal tem feito uma parceria muito bonita com os territórios, em especial as retomadas, fortalecendo mesmo nas ações, desde as ações de agasalho agora para o inverno, como também levando os alunos até o território”, relatou.
Segundo ela, essa presença dos estudantes nas aldeias e retomadas ajuda a romper preconceitos históricos.
“Acho que a melhor pedagogia antirracista é que essas crianças conheçam, estejam no território e, de fato, entendam e fortaleçam as questões indígenas de Dourados”, afirmou.
Miguela também avaliou positivamente as atividades realizadas nos campi do IFMS. Para ela, a receptividade dos estudantes surpreendeu.
“Foi uma ação que, ao nosso ver, foi um sucesso mesmo. A gente sempre fica com receio de como isso vai ser recebido, por conta mesmo de um preconceito muito enraizado aqui no nosso estado. Mas fomos recebidos pelos alunos, pelos professores e pelo pessoal da organização do evento de braços abertos”, contou.
Ela destacou ainda o interesse dos estudantes pelas oficinas de literatura indígena, grafismo, fotografia e DJ promovidas ao longo do projeto.
“Foi muito fortalecedor ver a empolgação desses alunos, o interesse genuíno deles em entender, compreender e querer saber mais. Eles entenderam e incorporaram que realmente os povos indígenas estão presentes. Não é uma coisa do passado, é uma coisa que está aqui, que está com a gente, que faz parte da gente”, declarou.
Na avaliação da agente cultural, as ações do CCMS e IFMS também ajudaram a ampliar o entendimento da comunidade sobre políticas públicas de cultura.
“É muito bonito ver que a própria comunidade abraçou essas políticas públicas como um direito. E para além do direito, fazer florescer algo que é nosso, que é a cultura”, refletiu.
Ela defendeu ainda a continuidade das iniciativas dentro dos territórios indígenas.
“Acredito que houve um abraço de todos que participaram e uma continuidade para que as políticas públicas realmente permaneçam e continuem sendo cultivadas dentro do território, no caso, território de retomada Yvu Vera I e II”, concluiu.
A última etapa do projeto ocorreu na Reitoria do IFMS, em Campo Grande (MS), com foco na formação de servidores da instituição.
O diretor de Tecnologia da Informação do IFMS, Vanderson Faustino, avaliou que os debates ampliaram o olhar dos profissionais sobre diversidade dentro do serviço público.
“É uma experiência transformadora. Enquanto servidores e instituição, precisamos ser atravessados por essas temáticas”, declarou.
Para ele, as discussões também contribuem para relações institucionais mais sensíveis às diferenças.
“Quando desenvolvemos esse olhar para a diversidade, conseguimos atuar no serviço público com mais sensibilidade para o outro e para as diferenças”, reforçou.
A professora Rafaela Chivalski, coordenadora do Núcleo de Arte e Cultura do IFMS, destacou a adesão dos campi às atividades promovidas ao longo do projeto.
“Foram quase dois meses muito intensos, com muita logística e envolvimento de diversas pessoas. Tivemos uma adesão muito positiva dos campi”, afirmou.
Segundo Rafaela, a formação oferecida pelo Instituto Federal vai além do conteúdo técnico.
“O Instituto Federal não forma apenas tecnicamente, mas também cidadãos. Por isso, é fundamental abordar questões de diversidade, raça e gênero para promover o respeito e a convivência com as diferenças”, concluiu.








