04 de dezembro de 2020
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Polícia

Um ano após prisão de João de Deus, promotores ainda recebem denúncias

Preso foi condenado por posse de arma e denunciado 11 vezes por crimes sexuais cometidos durante atendimentos espirituais. Detido em Aparecida de Goiânia, ele nega as acusações.

A prisão de João de Deus, acusado de abusar sexualmente de quase 150 mulheres durante atendimentos espirituais, completa um ano nesta segunda-feira (16). Neste período, ele já foi condenado por posse de armas e denunciado 13 vezes pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO). Os promotores de Justiça afirmam que este é o maior caso de abuso sexual registrado no país e dizem que não imaginavam a dimensão que as investigações tomariam. Detido em Aparecida de Goiânia, ele sempre negou os crimes.

“Tenho certeza que é um dos maiores casos do país, talvez do planeta, no que tange a abuso sexual”, disse o promotor Luciano Miranda, coordenador da força-tarefa do MP-GO que investiga os crimes.
As acusações contra João Teixeira de Faria, de 78 anos, começaram no dia 7 de dezembro de 2018. Mulheres relataram no programa Conversa com Bial terem sofrido abusos sexuais dentro da Casa Dom Inácio de Loyola, onde ele fazia os atendimentos, em Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal. Logo depois, o Ministério Público de Goiás montou uma força-tarefa para receber as denúncias.

“Na época, eu não tinha a menor ideia do que esperar. No primeiro dia recebemos quase uma centena de e-mails de vítimas querendo colaborar, mensagens do Brasil inteiro e até do estrangeiro. A quantidade de informações foi tremenda. Aí a gente passou a ter ideia do que viria pela frente. Eu sou promotor de Justiça desde 2011 e nunca me deparei com algo dessa grandiosidade”, completou Miranda.

A promotora de Justiça Ariane Patrícia Gonçalves, integrante da força-tarefa, conta que também se surpreendeu com a dimensão que o caso foi tomando ao longo dos dias. Ela avalia que o trabalho do MP-GO ao longo do último ano foi muito importante, pois já levou à Justiça o relato de 144 vítimas, além de ter conseguido a prisão de João de Deus.

“É um caso que foge da imaginação de qualquer pessoa com relação à magnitude dele. Com relação à quantidade de vítimas, eu não tenho notícia de nenhum caso com tantas vítimas. Até mesmo o caso Abdelmassih teve uma quantidade bem menor de mulheres envolvidas e vitimadas”, disse a promotora, se referindo ao caso do ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por estuprar 37 pacientes em sua clínica.

Em um comunicado à imprensa, o advogado de João de Deus, Anderson Van Gualberto, diz que o réu mantém sua versão sobre os fatos: "não praticou crime sexual contra nenhuma mulher". A nota diz ainda que o cliente não tem condições físicas para estar no presídio devido à falta de alimentação e estrutura adequada para "um idoso que sofre de uma série de enfermidades de todos os tipos".

Por fim, o advogado diz que "o Ministério Público vem fazendo um espetáculo público com o processo e utiliza a mídia para inflacionar sentimento de ódio e repulsa" contra João de Deus.
Processos na Justiça
Desde quando as denúncias vieram à tona, o MP-GO já recebeu cerca de 320 denúncias de mulheres que se dizem vítimas de João de Deus. Destas, 194 formalizaram o processo junto ao órgão. Já foram apresentadas 13 denúncias, sendo:

Nove apenas por crimes sexuais: destas, uma está na fase final e as demais aguardam a devolução de cartas precatórias;
Uma por crimes sexuais e falsidade ideológica: aguardando sentença;
Uma por crimes sexuais, corrupção de testemunha e coação: está aguardando a devolução de cartas precatórias;
Uma por posse ilegal de armas de fogo e munição em Abadiânia: João de Deus foi condenado a quatro anos no regime semiaberto e teve a prisão revogada. A esposa dele, Ana Keyla Teixeira também era ré no processo, mas foi absolvida;
Uma por apreensão de documentos, armas de fogo e munição, em Anápolis: não teve o andamento informado pelo Tribunal de Justiça.
Com a revogação da prisão de João de Deus no caso da posse de armas, há apenas um mandado de prisão contra ele, desta vez por crime sexual. O Ministério Público pede uma nova prisão a cada denúncia apresentada, mas todas as outras foram negadas.

O MP recorreu em relação às negativas das prisões por entender que é necessário decretar a prisão para cada grupo de vítimas, mas ainda aguarda a decisão da Justiça. Já a defesa aguarda o julgamento do pedido de habeas corpus que está tramitando no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Trauma
Uma das mulheres que denunciou João de Deus não tem o sentimento de que ele está sendo devidamente punido, mesmo com a prisão. Atualmente com 48 anos, ela prefere não se identificar e conta que ficou internada na Casa Dom Inácio de Loyola para um acompanhamento espiritual por dois meses, quando tinha 18 anos.

Lá, ela disse que foi abusada várias vezes e, desde então, tem diversos problemas de saúde. A mulher conta que nem mesmos os médicos conseguiram diagnosticar com precisão o que ela tem.

“Eu acho que não está sendo feito a justiça. Acho que ele vai se safar mais uma vez, tem muito dinheiro. Não acho que ele esteja pagando pelo que fez, pois foi muito monstruoso. Nessa vida ele não vai pagar, só se existir outras vidas”, disse.
A vítima questiona ainda as internações médicas do preso. “Ele fica mais no hospital do que preso, cada hora aparece uma coisa. Olha quantos meses ele ficou no hospital internado, na regalia. Não acho que ele esteja pagando pelo que fez. Ele está definhando e emagrecendo porque não tem mais a qualidade de alimentação que ele tinha antes, igual rei”, completou.

Em março, o preso foi internado em um hospital de Goiânia, onde ficou por mais de dois meses tratando um aneurisma no abdômen. Em setembro, ele voltou a ser internado, desta vez em Aparecida de Goiânia, após sentir dores no peito. Ele voltou ao presídio oito dias depois.

A vítima diz ainda que se sente abandonada após ter feito as denúncias. Ela diz que no início teve um suporte psicológico, mas que depois as visitas com psicólogos foram interrompidas. Além disso, nunca teve assistência médica para os problemas de saúde que desenvolveu após os abusos.

O Ministério Público informou que todas as vítimas são encaminhadas para atendimentos junto à rede estadual de saúde, mas que as mulheres podem procurar a força-tarefa caso não estejam conseguindo o acompanhamento devido.
Investigações continuam
A promotora Ariane Patrícia Gonçalves disse que as investigações ainda não terminaram. Mulheres ainda procuram o órgão para fazer denúncias sobre os crimes sexuais. Como o número de vítimas é muito grande, o Ministério Público definiu a estratégia de apresentar várias denúncias, com grupos pequenos de vítimas, para facilitar a tramitação na Justiça.

A integrante da força-tarefa disse que, caso fosse apresentada apenas uma denúncia contendo as mais de 100 vítimas, o processo seria muito mais lento e complicado.
Além disso, ainda existem apurações envolvendo outras pessoas ligadas ao réu. Uma delas é a suspeita de uma rede de proteção a João de Deus envolvendo inclusive delegados da Polícia Civil. Porém, como o caso ainda está em andamento, não é possível informar quais medidas já foram tomadas para não atrapalhar o processo.

“Existe investigação também com relação a outras pessoas que teriam participação nos crimes sexuais. Seriam pessoas tanto da Casa [Dom Inácio de Loyola] quanto de outros estados, porque existiam guias turísticos que conduziam mulheres para serem tratadas por João de Deus em Abadiânia”, disse a promotora.
A Polícia Civil informou que, com relação à denúncia de uma rede de proteção envolvendo delegados, há uma investigação em andamento na Corregedoria da Polícia Civil e aguarda informações e provas do MP-GO para ajudar nas apurações.

Ainda há uma investigação na Polícia Federal sobre as pedras preciosas apreendidas em uma das casas de João de Deus. A reportagem pediu um posicionamento à corporação na quinta-feira (13), mas não obteve retorno até a última atualização dessa reportagem.
Impacto em Abadiânia
A prisão de João de Deus causou um impacto também em Abadiânia, onde fica a Casa Dom Inácio de Loyola. O movimento no centro religioso, que já atendeu 5 mil pessoas por semana, diminuiu drasticamente. Em alguns dias, o número de visitantes não passa de uma dezena durante a tarde. Na cadeira onde o preso fazia os atendimentos foi colocada uma imagem de Santa Rita de Cássia.

Isso provocou o fechamento de vários comércios, como restaurantes e hotéis. Também trouxe impacto para a arrecadação dos cofres da prefeitura. Houve uma queda de 20% do dinheiro vindo dos impostos. Porém, o prefeito José Diniz (PSD) diz que o município vem se recuperando.

“Essa história do João de Deus é página virada, coisa do passado. A nossa vida continua e eu sempre disse que Abadiânia ia sair maior do que entrou e isso tem acontecido”, disse.
Para compensar a perda de movimento e arrecadação, a prefeitura tem investido no turismo na área do Lago Corumbá 4, melhorando a estrutura. Com isso, segundo o prefeito, a arrecadação perdida já foi recuperada.