27 de outubro de 2020
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Azambuja começa a ficar mais bonito ou menos feio para o PT

Nos velhos e bons tempos do PSD, vigorava o princípio - e quase um conceito - de que a política, por ser dinâmica, permitia todos os ajustes, notadamente os mais improváveis. Isto servia para justificar o que às vezes, na lógica natural, seria injustificável. Soava então como gesto de grandeza um adversário figadal abraçar seus rivais e o tal dinamismo político se reforçava com outro apelo, fortíssimo: o de que a política é a arte da convivência.

Pois bem, respeitados mitos e verdades, as circunstâncias provincianas da política se estabelecem no tabuleiro de xadrez da sucessão governamental em Mato Grosso do Sul. A tal dinâmica se manifesta, aos poucos, no desenho da jogada de mestre com a qual o PT pretende dar o xeque-mate no seu maior adversário, o PMDB. Os peões vermelhos podem contar com a ajuda de um cavalo amarelo, cavalo dotado de asas e bico longo, de vôo curto e apetite voraz. Derrubar do castelo o rei e a rainha peemedebistas evidencia-se como sonho comum de dois declarados  contendores.

Sem metáforas: a maior expectativa entre os protagonistas da disputa sucessória estadual gira em torno da insólita articulação que o senador Delcídio Amaral e o deputado federal Reinaldo Azambuja ensaiam para derrotar de vez o peemedebismo encarnado na figura mítica do governador  André Puccinelli, solenemente declarado inimigo comum por petistas e tucanos. O que parecia apenas uma projeção exclusiva do senador e seu grupo começa a ser incorporada por militantes do PT e lideranças do PSDB que ainda resistiam à idéia dessa fusão, em princípio, maluca e despropositada. Dois fatores determinantes guiam a dinâmica petista na política como arte da convivência...e da sobrevivência:  recuperar o poder estadual e impor a Puccinelli, mais que ao PMDB, uma derrota histórica e definitiva.

Os dois fatores seriam, a rigor, condições entrelaçadas ou um consequência do outro. Porém, há pequenas e consideráveis diferenças. Para os chamados petistas históricos, entre os quais figuram a liderança emblemática do ex-governador Zeca do PT e a presença ideológica e militante dos ativistas dos movimentos sociais, derrotar Puccinelli repercute como apelo de maior impacto que simplesmente “derrotar o PMDB”. GRITO DE GUERRA - Derrotar Puccinelli é como se fosse o grito de guerra para o ataque petista. É a senha da desforra. E para recarregar o ânimo da tropa, não importa se uma das armas for o bico longo e o vôo curto do tucano, ainda que este tenha sua trajetória marcada por posições frontalmente opostas ao que pregam e ao que praticam os governos e partidos de Lula e Dilma. O que importa é derrotar Puccinelli e com ele a hegemonia peemedebista, motivador que influiu decisivamente nas eleições municipais campo-grandenses, quando gregos, troianos e caronistas de plantão se juntaram para bloquear o candidato do governador, Edson Giroto, interrompendo um domínio de 24 anos.

Justificada a solução do ponto-de-vista local em que o interesse maior é derrotar Puccinelli, sobra a indagação: como fica a conjuntura da sucessão presidencial, tendo em vista a resolução do Diretório Nacional do PT determinando que as alianças nos estados, para serem homologadas, devem levar em conta, como prioridade primeira, a reeleição da presidenta Dilma Rousseff? A resposta me chegou, pessoalmente, segredada por uma das mais ilustres e respeitadas personagens do petismo sul-mato-grossense. Acreditam petistas de quase todas as correntes que o diminuto colégio eleitoral de Mato Grosso do Sul não vai alterar o peso da balança da disputa presidencial. Se for mantido até 2014 o favoritismo cada vez mais consolidado de Dilma nas pesquisas de intenção de voto, certamente haverá uma brecha na resolução do diretório nacional petista para que o critério das alianças estaduais sofra uma transgressão no Estado onde o favorito para ganhar o governo é um petista.

Restará, ainda, como último senão a ser sopesado, o grau de contribuição que Azambuja dará aos petistas locais na campanha para reeleger Dilma. Não se pode esperar que o tucano, mesmo em coligação branca, defenda a reeleição da petista ou ignore a candidatura presidencial do PSDB, cujo nome por enquanto é o de Aécio Neves. Contudo, deve crescer uma nova expectativa, se a tal coligação branca vingar: Azambuja vai seguir o tom nacional dos tucanos de ataque sem piedade a Dilma e ao PT ou vai fazer de conta que a eleição em Mato Grosso do Sul nada TEM a ver com a eleição nacional?

Custo-benefício é isso. Uma questão de análise política, em que o instinto de auto-preservação, a conveniência, a grandeza democrática e a clareza dos objetivos desafiam as lógicas conceituais e a exatidão da matemática eleitoral. Tão dinâmica quanto a política ou arte da convivência é a possibilidade de construir dentro dela, como se fossem novos, antigos caminhos de sobrevivência.

Edson Moraes, especial para MS Notícias