10 de agosto de 2020
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A bandeira que Delcídio irá carregar é...

 “Senador de todos”. Com esse apelo de marketing – que serviu à campanha e serve ao mandato - Delcídio do Amaral se reelegeu facilmente para continuar na mais alta corte legislativa do Brasil. Agora, pré-candidato à sucessão estadual, e na esteira de um indiscutível favoritismo, prepara sua campanha a partir de uma complexa e estafante tarefa de ajustamento do tabuleiro político. E a busca de aliados talvez seja a pedra de toque para preencher uma das poucas lacunas de seu projeto: a falta de uma mensagem pontual que caracterize os compromissos ou o pensamento que pretende representar.Num viés simplista, bastaria adequar o mote da campanha senatorial e cravar um definitivo “governador de todos”. Mas será insuficiente, quase ambíguo. Ainda que inspirado por pendores conceituais, o pragmatismo de Delcídio não lhe confere como candidato a referência necessária para construir os elos entre seu partido, o PT, as forças que o apoiarão e a sociedade. É evidente que o pragmatismo utilitarista pode ser pinçado de acordo com o foco e as aptidões de quem gravita em torno dessa disponibilidade franciscana para o diálogo e o entendimento. Os opositores ou críticos de Delcídio podem interpretar na expressão “de todos” um recurso de linguagem para mascarar o oportunismo, sobretudo levando em consideração o propósito do pré-candidato de valer-se até de acordos com o PSDB para facilitar a massificação de seu nome e ampliar sua inserção eleitoral.] Porém, no outro lado da moeda, o pragmatismo do político “de todos” poderá igualmente responder a um dos clamores que a sociedade ergueu para questionar o PT desde suas primeiras intervenções, o de que seria um partido sectário, dono da verdade, fundamentalista e avesso a composições político-ideológicas que pudessem desfigurá-lo. Depois que o PT virou governo em todos os níveis essa postura purista se esvaiu. A chamada governabilidade impôs à legenda sucessivos acordos que fizeram partido e militância acordarem para a realidade e constatarem que nos modelos de democracia, de regime e de representação brasileiros dificilmente prospera uma sigla que não se reconhecer partido igual aos outros e atuar como tal. Ainda assim, o pré-candidato Delcídio Amaral, para ser candidato de todos, precisa evidenciar o quê e a quem representa. Frisar quais sonhos pontuais e marcantes encarna, quais as prioridades e opções. Agradar a todos é um belo discurso. Na prática, o governante, mesmo revestido do papel de magistrado, terá de conviver com diversos e constantes conflitos humanos, ideológicos e de ordem prática. REFERÊNCIA - Modernidade? Sustentabilidade? Ética? Obreirismo? Inclusão? Qual dessas bandeiras Delcídio desejará desfraldar como referência de sua caminhada? Para responder, o senador terá total liberdade de ação. Ele próprio, de sua livre e total autoridade e consciência, definirá seu grito de guerra, na perspectiva de fazê-lo ecoar com as vozes de seus companheiros do PT e de palanque. Deverá, antes, sopesar cenários que exigirão de si a relação e a coerência entre o que prega e o que pratica. Delcídio tem trânsito, credibilidade e apoio junto aos diversos segmentos da pirâmide humano-socioeconômica de Mato Grosso do Sul. Mérito de seu trabalho e de seu perfil pessoal e político. Mas falta-lhe a identidade de candidato comprometido com quereres e desafios capazes de diferenciá-lo dos concorrentes e de projetá-lo para fora do generalismo pragmático em que se apoiou para candidatar-se ao senado e para exercer esse mandato. Ter uma bandeira para governar é muito mais. É o original da certidão de identidade de quem quer o bem de todos, mas não hesita em fazer a opção quando esta se torna necessária. Optar nem sempre é conciliar ou solucionar demandas pelo diálogo. No caso do desenvolvimento com sustentabilidade, por exemplo. Há mais de seis milhões de hectares de terras agricultáveis num Estado onde o avanço da produção sucroalcooleira pode impactar severamente a produção de alimentos. O grande capital que traz o megainvestimento gera empregos, riquezas, receitas, mas, não-raramente, promove o desmatamento, faz encolher as extensões de lavouras e ainda castiga o leito das estradas com a carga pesada dos super-caminhões. Para garantir uma política de controle e de disciplina da ocupação econômica e de produção será necessário enfrentar os interesses do grande capital, encarar e dizer não algumas vezes ao poderoso investidor que desembarca de uma fábrica de dólares e euros. Da mesma forma, e em outro exemplo, o governante de todos terá de enfrentar a ganância de empresários e empresas que andam na contramão da sustentabilidade humana e social, como as que entraram na Justiça para barrar (e conseguiram) a lei da cantina saudável, que proíbe nas escolas a venda de alimentos impróprios a crianças e adolescentes, potenciais consumidores de bebidas e refeições gordurosas na capital brasileira da obesidade. Edson Moraes