A secretária-executiva da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias (CMS), Amy Fraenkel, integrante do alto escalão da Organização das Nações Unidas (ONU) ligada ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, defendeu a integração entre países e a preservação de habitats conectados como estratégia essencial para a sobrevivência dessas espécies. A declaração foi feita neste domingo (22.mar.26), na COP15, durante agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Campo Grande (MS).
Ao abrir seu discurso, Frankel destacou o simbolismo da presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente do Paraguai, Santiago Peña na cerimônia. Para ela, os chefes do estados comparecerem a COP15 é sinal do desejo de cooperação internacional.
"Sua participação é um sinal de que a cooperação entre os países é algo de importância política", afirmou Frankel olhando na direção de Lula e Peña.
A dirigente ressaltou que o tema da conferência conectar a natureza para sustentar a vida reflete a dependência direta entre biodiversidade, comunidades humanas e equilíbrio climático. Segundo ela, o Brasil simboliza esse desafio por concentrar a maior biodiversidade do planeta, mas também por enfrentar riscos ligados à fragmentação de ecossistemas.
Frankel alertou que habitats fragmentados aumentam a vulnerabilidade à invasão de espécies, às mudanças no uso da terra e aos efeitos da crise climática. Nesse contexto, reforçou:
"As espécies migratórias e a conectividade ecológica são absolutamente essenciais. Essas espécies dependem de uma rede de habitats que frequentemente se estendem por continentes e cruzam fronteiras políticas. Sua sobrevivência é importante, e protegê-las e conectá-las é fundamental", disse.
Como exemplo, citou a onça-pintada e espécies de peixes migratórios, como o dourado amazônico, que necessitam de territórios contínuos para manter populações viáveis.
"Sem conectividade, essas populações se tornam isoladas e fragmentadas", explicou.
A secretária também destacou o papel estratégico das áreas úmidas, consideradas alguns dos ecossistemas mais produtivos do planeta e fundamentais como rotas de alimentação, reprodução e descanso para espécies migratórias.
"Embora cubram apenas uma pequena fração da superfície da Terra, estão entre os ecossistemas mais produtivos do planeta", afirmou.
Com base em relatório apresentado na COP14, Frankel apontou:
"A destruição e a fragmentação de habitats naturais são uma das maiores ameaças às espécies migratórias".
Embora haja avanços, ela afirmou que ainda há lacunas significativas: apenas cerca de 7,5% das áreas protegidas no mundo consideram efetivamente a conectividade ecológica em seus planejamentos.
A dirigente também chamou atenção para os impactos da expansão de infraestrutura.
"Sem esforços conjuntos, estima-se que 25 milhões de quilômetros de novas estradas serão construídos, e a infraestrutura linear representa uma das maiores ameaças", alertou.
Durante o discurso, Frankel anunciou uma nova iniciativa internacional, com participação de organismos como UICN, WWF e secretariados de convenções ambientais, com foco em ampliar ações voltadas à conectividade ecológica.
"E convidamos vocês a participar para que possamos multiplicar nossos esforços neste tema".
Frankel elencou três prioridades da Cop15: identificar habitats críticos, protegê-los como redes interligadas e integrar a conectividade às estratégias climáticas globais.
"As espécies não reconhecem fronteiras políticas. Nossos esforços de conservação também devem transcender essas fronteiras", argumentou Frankel.
AÇÕES PRÁTICAS NA COP15
Durante agenda na COP15 em Campo Grande, o presidente Lula reforçou o papel da cooperação internacional e destacou que "migrar é natural" e que proteger essas espécies é proteger a própria vida no planeta. Na sessão especial, Lula assinou decretos que ampliam áreas protegidas no Pantanal e no Cerrado, totalizando mais de 148 mil hectares.
As medidas incluem a ampliação do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense e da Estação Ecológica do Taiamã, além da criação de uma nova reserva em Minas Gerais. Segundo o presidente, a iniciativa fortalece a biodiversidade, a conectividade ecológica e os modos de vida de comunidades tradicionais.
Em seu discurso Lula também apontou desafios como mudanças climáticas, poluição e expansão desordenada da infraestrutura, e defendeu maior financiamento internacional e cooperação multilateral.
Já Santiago Peña afirmou que proteger espécies migratórias é também uma estratégia de desenvolvimento e estabilidade social.
A COP15 da CMS será realizada entre 23 e 29 de março, em Campo Grande, reunindo representantes de mais de 130 países. O encontro deve discutir prioridades globais para conservação da biodiversidade e definir ações conjuntas para proteger as rotas migratórias e evitar a perda de espécies.











