24 de julho de 2024
Campo Grande 31ºC

EX-SENADOR CASSADO

Delcídio veste a fantasia de vítima ingênua para voltar ao palco

Ex-senador diz ter sido traído e anuncia candidatura em 2022, mesmo estando inelegível

A- A+

Em entrevista na última terça-feira (2.nov.21), ao "Conexão ND", programa da TV Record News de Santa Catarina, o ex-senador petista Delcídio Amaral descascou todas as mágoas e frustrações acumuladas ao longo de 22 anos de experiências na vida pública. Assestou a mira de seu bacamarte retórico numa única direção, o PT e os petistas, selecionados para justificar a estrepitosa queda do céu ao inferno, quando viu seu mandato de senador transformado em pó ao ser condenado por obstrução da Justiça em processo da Operação Lava Jato.

Delcídio desembarcou na política em Mato Grosso do Sul tentando infrutiferamente ser estrela antes da hora, mas foi rechaçado em partidos como o PSDB e o PFL, berço do DEM. Só não ficou sem amparo porque foi socorrido pelo PT, especialmente por meio de dois dos seus maiores líderes regionais, Zeca do PT e Vander Loubet.

Porém, na entrevista ele ignorou solenemente o impulso que recebeu com a intervenção providencial dos petistas, que lhe garantiu o mandato no Senado. Preferiu a fantasia: afirmou que o PSDB escondeu sua filiação, "abonada pelo Sérgio Mota", porque os tucanos locais "tinham medo" de um cidadão sul-mato-grossense "da Petrobras, da Eletrobras, da Vale do Rio Doce, da Shell", que andou pelo mundo.

Isso, em 1998, frustrou seu plano de disputar a eleição já naquele ano. Mas em seguida disse que atendeu ao convite de Zeca e entrou no PT para ser secretário de Infraestrutura e se candidatar ao Senado.

Surfou na popularidade do partido e de Zeca. Carregado pelos petistas, Delcídio virou senador e plantou com o mandato a semente da candidatura ao governo. Ganhou notoriedade e visibilidade sempre em função do mandato pelo PT: foi líder do governo de Dilma Rousseff e conduziu importantes tarefas confiadas pela presidência e pelos dois "padrinhos" da sua filiação, Zeca e Vander Loubet.    

OS REVEZES

Entretanto, a caminhada rumo ao governo sofreu duros revezes. Primeiro, foram as derrotas nas urnas, quando perdeu para André Puccinelli (PMDB), em 2006, e para Reinaldo Azambuja (PSDB), em 2014; e depois pelas denúncias que o atingiram, começando com a CPI dos Correios e depois na Lava Jato. Neste particular a narração do vitimismo e a ingenuidade se robustece. 

Delcídio, o homem que viajou o mundo e meteu medo nos experientes tucanos fazendo-os esconder sua ficha para não carimbar a filiação, afirma ter sido traído pelo PT e que o partido o estava empurrando ladeira abaixo, deixando-o isolado contra as acusações.

Ele não cita na entrevista que quando foi rejeitado pelos tucanos e assinou a ficha do PT, Zeca e Vander fizeram uma empreitada árdua e paciente para convencer a direção nacional do partido a aceitá-lo, quebrando as resistências internas contra o ingresso de alguém que não inspirava confiança nos núcleos mais ideológicos. O martelo da Lava Jato foi implacável e em 10 de maio de 2016 seu mandato foi cassado por quebra de decoro, acusado de obstrução da Justiça. Dos 81 senadores, 75 votaram, sendo 74 pela perda do mandato e uma abstenção.

À DERIVA

O ex-senador se diz traído e que foi vítima de perseguição implacável do partido e dos militantes que lhe garantiram um mandato de oito anos, interrompido pela ação da Lava Jato. Hoje, depois de perambular à deriva em busca da ressurreição política, anuncia que pretende retornar ao cenário das disputas eleitorais. É presidente estadual do PTB e, como água que muda para o vinho sem mágica alguma, agora faz parte da legião bolsonarista.

Entretanto, mesmo apregoando que será candidato em 2022, Delcídio está com seus direitos políticos suspensos. Por ter seu mandato cassado pelo Senado em 2016, terá que cumprir os oito anos de suspensão, sem pedir voto para si. Só poderá entrar em outra disputa em 2027. É o que afirma um dos especialistas nesse tema, o advogado Ronaldo Franco: "O ex-senador está inelegível, não pela acusação de ter tentado contaminar os processos abertos na Lava Jato. A questão foi a cassação de seu mandato, por unanimidade, ao ser enquadrado por quebra de decoro parlamentar. Ele é inelegível".