25 de junho de 2021
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Editorial

Olarte ligou a roda-gigante da política para subir, mas não soube desligar

Ingênuo, inocente útil, egocêntrico, astuto. Gilmar Olarte foi tudo isso. E agora, o que será de sua gestão, se é que se pode dizer que a gestão é sua.

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O prefeito Gilmar Olarte, sem dúvida é ambicioso. Parece que sempre foi. Talvez com uma ponta de inveja a lhe delinear o perfil. Quer o que os outros têm, e vai buscar. Até mesmo em sua fé, se fez adversário e fundou dentro do neopentecostalismo uma igreja com denominação própria, onde reina senhor que gerencia almas. Ainda que não seja pertinente sua vida pessoal, conhecer um pouco da personalidade de Gilmar Olarte é útil para entender um pouco mais da crise pela qual a Capital atravessa.

Eleito vice-prefeito à sombra de Alcides Bernal (PP), numa eleição atípica que registrou a revolta da população com o continuísmo de 20 anos de governos peemedebistas, Olarte havia sido vereador por Campo Grande, assumindo em 2007 a suplência de Rinaldo Modesto (PSDB). Nas eleições de 2008 ficou suplente, novamente.

Após duas suplências na Câmara e uma na Assembleia (2004), foi escolhido por Bernal para compor chapa como vice por, aparentemente, não ter ambições políticas e em condições de atrair o voto dos evangélicos, contrapondo com seus adversários mais fortes, Edson Giroto (PMDB) que tinha por vice o atual deputado federal Dagoberto Nogueira (PDT), e o atual governador Reinaldo Azambuja (PSDB), com o vice Athayde Nery (PPS).

Bernal, também ele egocentrista e pouco afeito a composições, conforme demonstrou durante seus mandatos legislativos na Câmara de Vereadores e Assembleia Legislativa, radialista aventurou-se contando apenas com a empatia de seus fiéis ouvintes e um discurso que pregava a mudança e a libertação do julgo de apenas um partido, em chapa pura de um partido pequeno. Arrebatou mais de 270 mil votos na esteira do movimento por mudanças, que lotaria as ruas do país em junho de 2013.

Empossado em 1 de janeiro de 2013, o prefeito Bernal iniciou uma administração já enfraquecida por não contar com um secretariado já definido, ainda que passados mais de dois meses das eleições. Dos poucos nomes que conseguiu reunir, nenhum se destacava. Nomeou por personalismo e provocou mal estar entre os que lhe deram apoio no segundo turno. Deu margem aos ataques dos adversários que haviam sido derrotados. Enfim, mostrou-se um populista com ascendência sobre a massa, mas sem o jogo de cintura necessário para compor politicamente com a classe política. Num movimento duvidoso de zelo pela coisa pública, seus adversários lograram cassar seu mandato.

Se contra o ex-prefeito havia um movimento de oposição fortíssimo, ao seu lado, ou no gabinete do piso inferior, seu hipotético aliado já agia para minar suas ações. Seduzido pelo canto da sereia, supondo comandar um golpe, foi sendo usado quando lhe inflaram um ego que não mede limites.

Gestão inábil

Cegado pelo poder, Olarte não soube aprender com os erros de Bernal. Repetiu e ampliou. As contas públicas se transformaram num caos. Investiu nos improváveis amigos, os transformou em irmãos de Fé. Aquinhoou aos irmãos de Fé, também. Enquanto minava os cofres da Prefeitura inchando o quadro com convocados, enchia as burras de sua igreja com os fartos dízimos.

Cortejou vereadores, o Judiciário, os poderosos. Loteou as secretarias com pessoas ligadas a outros patrões. Perdeu o controle administrativo que nunca teve capacidade de exercer. Foi talhado para o palco, não para a criação da obra.

A roda girou

Quem soube ligar a roda-gigante para subir, mas não soube desligar para evitar descer. Agora é sua vez de estar na berlinda, tem sobre sua cabeça a espada de Dâmocles.

Processado por suposta prática de corrupção passiva e lavagem de dinheiro , evitando enfrentar os problemas administrativos que se avolumam, sem explicações para as denúncias, irritando vereadores de sua base que, pela natural proximidade com os eleitores, são vítimas de cobranças e desconfiança (dependentes de votos, não é uma posição confortável), com as contas a pagar que se avolumam, perdendo apoios e gerando a dúvida de quem realmente manda na Prefeitura, uma vez que se ausenta dos enfrentamentos, hoje até sua própria sombra conspira.

Para tudo há um limite, e o limite do político é a desconfiança do eleitor. Olarte está preso na parte mais baixa da roda-gigante que está parada e, sabemos que ninguém quer se aventurar a ligar o mecanismo para que ele volte a subir, muito pelo contrário, querem destravar a barra de proteção para que ele desça.