25 de setembro de 2020
Campo Grande 36º 22º

ARTIGO

"Ultimamente tem um monte de pobre no avião, sinto o cheiro de longe"

A duras penas entendi o significado do elevador de 'serviço' e outras crueldades do cotidiano brasileiro

CENA 1

Ha? dez anos moro no Brasil. Uma das coisas que mais me impressionaram quando aqui cheguei foi o elevador de servic?o. Nunca havia visto um. Sa?o os objetos cotidianos os que carregam mais crueldade, porque a crueldade deles e? aquela que se repete todo dia, a todo instante, sem descanso, um ciclo infinito e ao mesmo tempo ta?o costumeiro que ningue?m lhe presta atenc?a?o.

Na e?poca, quando vi o primeiro, na?o entendia sua utilidade, pensei que era um elevador exclusivo para quando o pre?dio ou algum apartamento individual passasse por reforma. Pensei ser estupidez e um desperdi?cio sem sentido ter um elevador so? para isso, ate? que certo dia entendi o seu real significado. Va?rios amigos haviam me falado que por esse elevador subia e descia “o servic?o”, mas acho que eu na?o tinha realmente captado a magnitude do significado que expressava essa palavra.

Ainda na?o conhecia bem o Brasil e tampouco suas desumanidades cotidianas. Como muitas vezes ao longo da biografia a gente vai aprendendo por socos no esto?mago. Eu, no Brasil, aprendi muito por socos no esto?mago. Lembro perfeitamente do golpe sofrido pelo elevador de servic?o dez anos atra?s. Lembro-me do momento, do rosto dela, uma senhora de uns 60 anos, que trabalhava como dome?stica, e que nunca tinha ido a? Disney.

Eu entrei no pre?dio com ela, abri o elevador social (o de servic?o estava no se?timo ou oitavo andar) e ofereci a ela entrar junto. Um gesto automa?tico que devo ter repetido milho?es de vezes na minha vida. Ela recusou. “Na?o, na?o quero incomodar.” Nesse instante, eu me perguntei interiormente da forma mais inge?nua possi?vel: “Como uma pessoa incomodaria outra por subir junto no elevador?” Respondi que na?o ia me sentir incomodada e ai ela soltou o soco no esto?mago: “E? que tem muito morador que na?o gosta que empregada va? junto no elevador, por isso sempre pego o de servic?o”. Insisti e, finalmente, ela concordou em subir comigo, mas meu ce?rebro estava em curto-circuito, como quando voce? entende sem entender.

Cheguei em casa, sentei no sofa? e estive um longo tempo pensando no que acabava de escutar. Queria dizer que havia gente que na?o gostava de dividir um espac?o fi?sico por alguns segundos com “o servic?o”. Queria dizer que havia gente que pensava que o servic?o, ou seja, o pobre, deveria respirar outro oxige?nio, transitar por outros espac?os, viver outros mundos. Ate? enta?o, nunca havia refletido com cuidado sobre o que a expressa?o “o?dio a pobre” significava. Aquela senhora me fez entender com toda a dureza da simplicidade de uma cena do cotidiano. Era meu batismo de fogo no Brasil.

CENA 2

Meses depois, aconteceu a cena 2. Ainda estava entendendo o Brasil. Peguei um avia?o de Sa?o Paulo ao Rio de Janeiro. Outro desses momentos pequenos, triviais, nada grandiloquentes nem pomposos para mim, mas que se transformaria num dos maiores socos no esto?mago que ja? levei no Brasil. Chego a? porta de embarque, embarco, sento na minha cadeira. Ao meu lado estava um casal VuittonGucci. Bolsa de Vuitton, ela; camisa Gucci, ele. Nem sei como reparei nesses detalhes, talvez a cena posterior me fez reparar neles com total nitidez.

Ja? estava sentada quando uma fami?lia, o pai, a ma?e e na?o lembro se dois ou tre?s filhos, passaram pelo corredor procurando seus assentos. Eles na?o sabiam ler o carta?o de embarque, perguntaram a? aeromoc?a e explicaram que era a primeira vez que subiam num avia?o. Os meninos estavam ta?o felizes que dava vontade de chorar compartilhando sua felicidade. Aquela na?o era uma fami?lia Vuitton, na?o era uma fami?lia branca. Era uma fami?lia de elevador de servic?o.

Quando passaram pelo nosso lado, a senhora Vuitton disse para o marido Gucci: “Ultimamente tem um monte de pobre no avia?o, sinto o cheiro de longe, nem viajar a gente pode mais tranquilo”. Fiquei ta?o perplexa que passei os 45 minutos de voo para o Rio sem conseguir responder a essa brutalidade que acabava de ouvir. Hoje eu teria respondido na hora, mas naquele momento meu ce?rebro entrou em curto-circuito novamente. Estava no elevador de servic?o outra vez. Era meu segundo batismo de fogo.

So? enta?o entendi de verdade, e nunca mais isso saiu da minha mente nem das minhas vi?sceras, que e? onde se entendem as coisas importantes. Era o?dio, era asco. Um Brasil que odeia e que sente asco dos pobres. O Brasil do elevador de servic?o, do avia?o, da Disney. O Brasil de Guedes e da senhora Vuitton que na?o suportam o pobre e que sempre fara?o de tudo para elimina?-lo.

Fonte: Carta Capital.