27 de maio de 2024
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INTERIOR | VIOLÊNCIA POLICIAL

PMs executaram trabalhadores na fazenda onde eles eram funcionários

Operação resultou na morte de dois funcionários; PM alegou que estaria combatendo abigeato

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Os trabalhadores Fábio Gonçalves, de 44 anos, conhecido como ‘Buchinho’ e Domingos Alonso, de 63 anos, foram mortos a tiros na manhã da terça (27.set.22), dentro da fazenda Chuvisquinha, de propriedade de Fermiano Yarzon, onde eram funcionários. A propriedade faz divisa com a fazenda  Porto Conceição, do prefeito de Porto Murtinho (MS), Nelson Cintra (PSDB).

A foto da (capa) mostra Nelson Cintra e os autores da operação: 1º Sargento Jhonny Alves Cáceres, de 50 anos, lotado em Piraputanga, o 2º sargento Caio Cesar Velasco da Cunha, de 49 anos, lotado em Corumbá e o Cabo Anderson Soares da Rocha, de 42 anos, lotado em Aquidauana. Além deles, participaram da operação desastrosa, o sargento Avelino, soldado Moraes e Soldado Messa.  

Inicialmente, a Polícia Militar disse em registro que as mortes teriam ocorrido dentro da fazenda do prefeito, mas familiares pediram para visitar o local e informaram nesta tarde de quarta (28.set) que, na verdade, os trabalhadores foram mortos dentro da fazenda na qual eram funcionários. "Eles não estavam na fazenda Porto Conceição, eles estavam na fazenda Chuvisquinha, onde eles trabalhavam, entendeu? A Porto Conceição é do Nelson Cintra, que faz divisa com a Chuvisquinha, entendeu? Aí, o que aconteceu: esses caras estavam fazendo patrulhamento, achou o barco lá, subiram e viram meu irmão, um amigo do meu irmão e outro menino que estavam trabalhando. Então, eles não estavam no Porto Conceição, eles estavam no território da fazenda na qual meu irmão trabalhava. Então, ele foi morto dentro da fazenda Chuvisquinha, e não do Porto Conceição que é do Nelson Cintra. Fazenda esta, que serviu de apoio para os militares", explicou o irmão Cláudio Alonso, de 41 anos, que esteve no local nesta tarde com a Perícia Técnica.  

"Eu fiquei sabendo [lá na fazenda], que a ordem era matar. Não era para prender ninguém, era para matar", acrescentou o irmão. 

A PM disse em registro que havia sido comunicada por um indivídio chamado "Francisco", caseiro da fazenda de Nelson Cintra. Ele teria relatado que indivíduos de origem paraguaia estariam abatendo gado na fazenda, que o suposto grupo de 5 pessoas carneava animais bovinos pela manhã, em área de difícil acesso da fazenda. Que grupo supostamente acessava o perímetro da fazenda com uso de embarcações. 

Munidos dessas informações, os PMs pegaram um, barco emprestado do prefeito para fazer patrulhamento no rio. "O ocorrido foi na fazenda Chuvisquinha, da propriedade do Yarzon, não é na minha fazenda. Eles trabalhavam lá, como a estrada termina na minha fazenda, eles pegaram os barcos e subiram o rio uns 8, 10 quilômetros. A polícia está recorrendo toda a fronteira, contra o roubo de gado. Eles chegaram lá pedindo um barco emprestado e subiram o rio", disse Nelson Cintra. 

O prefeito argumenta que ele não chamou a PM: "Isso aí é assunto de governo, existe uma Patrulha. O governo criou uma patrulha agora para cuidar dos abigeatos, roubo de gado. Eles estão aqui em Murtinho. Eu não chamei nada, fiquei surpreso, porque teve duas mortes, eu fui lá ver quem eram as pessoas e tiraram uma foto e eu estava no meio, mas não tenho nada com a história. Só sei que é do governo do estado", esquivou.    

Ainda segundo o prefeito, apesar de a PM ter afirmado que foi comunicada por "Francisco", não é verdade. "Não acionamos eles. Eles chegaram pedindo um apoio, queria um barco, eu falei: tudo bem, pode dar o barco! Pegaram e subiram... É isso aí", apontou. Cintra disse que não conhecia os trabalhadores: "Eu não os conheço. Até ontem eu fui lá para ver a carinha deles, lá. Eu não os conheço", garantiu.  

Cintra negou que um advogado seu tenha ido à delegacia em Porto Murtinho cobrar informações sobre as execuções. "Negativo, não procede. Não tem advogado nenhum, isso aí é assunto da policial", finalizou.