09 de agosto de 2020
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Investimento brasileiro no exterior é o maior na década

Os brasileiros estão cruzando as fronteiras para investir em ações, moedas e em títulos no exterior, especialmente nos EUA, em processo de recuperação.

Neste ano, o saldo das aplicações de brasileiros em ações e renda fixa no exterior somou US$ 8 bilhões até outubro, já descontados os recursos que entraram no país. O volume é 14% superior ao mesmo período do ano passado e o maior em dez anos. São grandes investidores, empresas e pessoas físicas, que estão buscando proteção contra a desvalorização do real comprando ativos em moeda forte (dólar).

O contexto por trás desse movimento é a recuperação dos países desenvolvidos e a perspectiva de que, passada a crise, o crescimento de suas economias poderá ser mais vigoroso do que o brasileiro.

Isso aumenta a atratividade tanto por títulos de crédito quanto por ações lá fora.

Nos EUA, a Bolsa subiu 25% em 2013, enquanto a brasileira caiu 28%, em dólares.

O segundo motivo é a deterioração das finanças públicas e das contas externas do país, que podem levar a um rebaixamento da nota de crédito do governo -e, a reboque, das empresas.

Muitos investimentos só mandam dólares para um país se sua nota de crédito é boa. Um rebaixamento diminuiria a quantidade de moeda americana no Brasil, tornando-a mais cara.

Isso tem mantido a pressão de desvalorização do real, que neste ano acumula queda de 12,8% em relação ao dólar, apesar das intervenções diárias do Banco Central no mercado. O BC está ofertando US$ 500 milhões por dia para inibir a alta do dólar.

A Folha consultou cinco instituições (Bradesco, HSBC, Banco do Brasil, Santander e JP Morgan) que oferecem aplicações no exterior a investidores locais, e todos descreveram um aumento da procura por esses fundos.

"A Bolsa sofre com o abalo na confiança, com inflação alta e intervenção do governo nas empresas com preços administrados [energia e concessões rodoviárias, por exemplos]. Até a renda fixa deixou de ser tão fixa depois do abalo nos títulos prefixados [em razão da alta da taxa de juros, pelo BC, para controlar a inflação]", diz Aquiles Mosca, estrategista da gestora do Santander.

"Os brasileiros tinham antes oportunidades no Brasil, tanto na Bolsa quanto na renda fixa. Não existia essa demanda por diversificação e proteção com investimentos no exterior como agora", diz Joaquim Levy, diretor da gestora do Bradesco e ex-secretário do Tesouro.

"A procura se intensificou neste ano, com perspectivas de crescimento mais consistente no hemisfério norte", disse Carlos Massaru, do BB.

O dinamarquês Saxo Bank iniciou as operações no Brasil em outubro de olho nesse mercado. O banco é um dos maiores provedores de tecnologia para os gestores investirem em moedas, ações e títulos de diferentes países.

Apesar da saída relevante de recursos, a quantia representa cerca de 2% das reservas internacionais, de US$ 376 bilhões -recursos em poder do Banco Central para evitar que uma saída maciça de dinheiro provoque uma eventual disparada do dólar.

Júlio Callegari, diretor-executivo da gestora do JP Morgan, afirma que "ainda não se trata de uma fuga de brasileiros do Brasil". Tampouco de estrangeiros. Gestores, contudo, estão atentos às ações do governo para evitar uma piora adicional da economia, o que poderia acentuar a desvalorização do real e a saída de investimentos. "O que dirá se esse movimento ganhará força é a reação do governo à deterioração da economia", diz Callegari.

Folhapress