29 de novembro de 2020
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101 ANOS

A arte brasileira perde um de seus ícones: Mestre Agripino

Mato-grossense radicado em Corumbá foi decisivo para consagrar a viola de cocho, o cururu e o siriri. Deus acolheu esta centenária árvore da generosidade

Agripino, aquele que embala a liberdade nas notas da viola de cocho, sublimando o prazer e a coragem de experimentar alegrias e dores sapateando a cadência do cururu!

Na imensidão infinita da pequena e estreita faixa urbana de beira-rio, acordando e dormindo com bichos e plantas encharcados de Rio Paraguai, mestre Agripino sublimou a artesania de um som atemporal, extraído com paciência lapidar de um instrumento rústico, e por isso puro.

Ele dizia que não eram seus dedos que manobravam aquele alaúde curto, esculpido sempre em madeiras inteiriças de árvores típicas da flora pantaneira, cortadas quase sempre sob a lua minguante, e cinco cordas, que em primitivos tempos eram feitas de tripas de macaco e outros animais, mas depois foram substituídas pelo naylon. A viola, com escala harmônica singular, restrita a duas únicas afinações, é patrimônio imaterial de Mato Grosso do Sul desde 2005.

RUMO A CORUMBÁ

Márcia Rolon e mestre Agripino. Foto: Assecom.  

Agripino Soares de Magalhães nasceu em junho de 2018 quando Mato Grosso era um só, na cidade de Poconé. Ainda criança foi com a família morar em Várzea Grande. Ainda muito jovem, zarpou de Cuiabá a bordo de um navio e foi desembarcar em Corumbá, escolhendo o Bairro da Cervejaria, na região portuária, para seu lar, lugar com quem viveu mais de 70 anos com a mulher, Maria Madalena, e onde o casal semeou a grande família com 12 filhos e, hoje, mais de três dezenas de netos e bisnetos.

Era estivador aposentado e durante 14 anos ensinou sua arte a crianças de famílias humildes, atendidas pelos projetos inclusivos do Moinho Cultural, uma das mais importantes e premiadas ONGs do Brasils, dirigida por Márcia Rolón, fã e amiga de Agripino, uma das principais incentivadoras do folclore e das manifestações artísticos culturais no interior brasileiro.

Por causa da idade avançada, havia alguns anos já não era presente em atividades como as oficinas de siriri e cururu, cantorias e festivais. Contudo, nunca deixou arrefecer a chama generosa e de incrível sensibilidade humana com que seus olhos fitavam e tratavam pessoas, natureza e o planeta.

RESISTÊNCIA CULTURAL 

Viola de cocho do cururueiro José Cabral da Silva, maio/2017. Foto: Arquivo Pessoal 

Graças a pessoas como o Mestre Agripino, o mundo conserva a viola de cocho entre seus principais patrimônios musicais históricos. Com a viola, a dança, o canto e a execução melódica do siriri e do cururu. Esta peça artesanal nascida de fusões entre culturas europeias e povos originários, sobretudo índios, continua ensinada em escolas dos dois Mato Grosso que trabalham na preservação das artes tradicionais e do folclore.

Em Mato Grosso do Sul, infelizmente não há muitos violeiros que se dedicam à esta atividade como ocupação de aprendizado e disseminação cultural. Há instrumentistas que se interessam, por valores conceituais, vocação e compromisso preservacionista – Almir Sater e Marcelo Loureiro, entre outros.

Há quatro décadas, um outro mato-grossense, radicado em Campo Grande, contemporâneo de Agripino, fabricante da viola e parceiro de cantorias, deu alento aos cururueiros e siririzeiros: Manoel Custódio de Oliveira, o Manézinho. Era pai do músico e intérprete Simona e morreu nos anos 1980.