16 de maio de 2022
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ARTE | MODA

Artesãs se destacam ao personalizar Filé alagoano para MS "sem praia"

Minucioso de tear é usado na confecção de roupas em MS

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A C4 Bordados e Criações, um grupo de artesãs instaladas em Campo Grande (MS), personalizaram a técnica de bordado famosa desenvolvida nas comunidades de pesca de Alagoas: o “filé alagoano”. Em Mato Grosso do Sul a ténica ganhou sua própria personalidade e passou a se chamar “Bordado Filé”, devido ao estado não ser litorâneo, as modificações foram necessárias.

“Eu morava em Maceió em 2015 e lá aprendi a fazer o bordado alagoano, só que lá, o bordado é uma vestimenta característica de praia, quando vim para cá eu passei a fazer, mas como não tinha praia, então desenvolvemos nosso estilo, inspirado no filé, passamos a fazer vestimentas”, resumiu a enfermeira Izabel Cristina, de 50 anos, uma das 4 fundadoras da C4. 

De acordo Izabel, os bordados feitos em MS tem características que distingue muito das peças do “Filé alagoano”. “Aqui nós usamos algodão e linha, lá eles usam barbantes. Temos nosso estilo de costura também, trabalhamos mais com vestidos, roupa para trabalho, tanto que temos clientes bancários e outros. Nós forramos esses bordados e assim criamos outros sentidos de costura com cores diferentes também”, detalhou.

Peças confeccionadas pela "C4 Bordados e Criações". Foto: Divulgação Peças confeccionadas pela "C4 Bordados e Criações". Foto: Divulgação 

As roupas feitas em MS seguem, porém, o estilo “filé”. As peças são inconfundíveis, com destaque artesanal minucioso. Com isso, já conquistou o seu espaço nacionalmente, resultado que se vê em peças de decoração, vestuário e acessórios, com uma infinidade de pontos numa rede com malha de espaçamento pequeno, qualidades nem sempre percebidas aos olhos dos mais desatentos que, às vezes, adquirem um bordado de baixa qualidade. “A gente faz roupas, faz toalhas de mesa, outros itens também. Fazemos sobre medida, com a cor desejada. Leva em torno de uma semana para confecionar um vestido adulto”, respondeu.

Artesanatos para objetos. Foto: Divulgação Artesanatos para objetos. Foto: Divulgação 

Para Izabel, a peça invoca uma pluralidade de elementos que compõem um estilo de bordado nunca explorado em MS. “Aqui não sabemos de ninguém que faz. Nós temos uma demanda grande. Estou terminando um curso de auto costura para poder ajudar minhas colegas. Uma delas tem o curso, eu vou somar”, disse.

A arte de transformar uma simples matéria-prima em uma obra 100% manual, unida a um trabalho sustentável e criativo, para Izabel merece ser compartilhado. “Por isso vamos propor para editais públicos, como esse do FIC aí, que nos permita promover cursos, ajudar a espalhar essa arte. Que assim vamos divulgar mais essa técnica personalizada em MS”, anunciou.

"Minha neta Júlia, na Praça Bolívia, iniciando o bordado", disse Izabel ao compartilhar essa imagem com a reportagem. "Minha neta Júlia, na Praça Bolívia, iniciando o bordado", disse Izabel ao compartilhar essa imagem com a reportagem. 

Em 2021 a C4 Bordados e Criações promoveu um desfile com algumas peças de vestuário feminino, com recursos da Lei Aldir Blanc, gerenciado pela Secretaria de Cultura e Turismo (Sectur) de Campo Grande. Veja o desfile no vídeo abaixo:

Izabel explicou ao MS Notícias que atualmente elas possuem mais de 100 peças confeccionadas. “Temos umas 150 peças já criadas. Nós vamos produzindo e agora estamos misturando o bordado com o jeans e entrando na confecção de vestidos de casamento”, revelou. As vestes de casamento começaram a ser feitas em 2021, quando as artesãs foram selecionadas em um edital da Lei Aldir Blanc. Em um vídeo (abaixo), Janete e Izabel estão tecendo a calda de um vestido de noiva com 380 pérolas: 

Conforme Izabel, apenas o processo de pedraria no vestido de noiva consome 50% do tempo de produção. "Entre discutir sobre modelo e os modelos de bordados, que são mais de 200 catalogado, [demora] 15 dias... com a calda, sem a calda 10 dias. A pedraria demora bastante", esclareceu.  

A média de preços das peças comuns variam de R$ 150 a R$ 300. Elas também fazem roupas infantis. Os preços dos vestidos de noiva ainda é uma novidade e precisa ser negociado. Veja mais algumas peças da C4 abaixo: 

Modelos com vestidos feitos pela "C4 Bordados e Criações"

A C4

A marca sul-mato-grossense teve início em 2016, quando Izabel começou a ensinar as sócias: Janete Maria Cella, de 61 anos, Vera Lúcia Pretto Cella, de 60 anos e Maristela Cella, de 50 anos, a arte do tear estilo filé.  

O nome da marca refere-se ao sobrenome “Cella” das sócias. "Elas são todas irmãs e eu sou agregada e o meu sobrenome é Cruz", brincou Izabel, ao explicar o significado do "C4".  

Da esquerda para direita: Izabel, Vera, Janete e Maristela. Foto: Arquivo pessoal Da esquerda para direita: Izabel, Vera, Janete e Maristela. Foto: Arquivo pessoal 

O site da "C4" mostra o trabalho completo das empresárias do artesanato com os valores imagens de algumas peças.

O FILÉ 

"C4 Bordados e Criações" durante o trabalho. Foto: Redes"C4 Bordados e Criações" durante o trabalho. Foto: Redes

O filé alagoano é uma técnica que se formou ao longo da história até se desenvolver como ela é hoje, firmando-se como referência na cidade em que cresceu, Maceió. Apesar disso, também deriva de influência da época colonial, portanto, não existe um consenso onde ele foi inventado. “É uma briga isso aí, porque não se sabe bem onde foi inventado, mas eu aprendi em Alagoas”, justificou. 

Tipicamente uma manifestação do complexo estuarino Mundaú-Manguaba. Os maiores núcleos de produção do “Filé” estão localizados nas cidades de Maceió – nos bairros do Pontal da Barra e Riacho Doce – e de Marechal Deodoro. “Filé” é o aportuguesamento da palavra francesa, filet, rede, em alusão ao ofício da pesca com redes.

Não se sabe quando chegou a Alagoas. Acredita-se que as influências europeias da época colonial provocaram a transferência de conhecimento das mulheres portuguesas aos brasileiros. Ainda hoje, algumas comunidades lusitanas mais tradicionais conservam a prática do filé, embora já se perceba certo distanciamento entre os padrões do produto lá e os deste lado do Atlântico.