29 de setembro de 2020
Campo Grande 37º 20º

DIA NACIONAL

Aumento de autodeclarados negros faz jus a luta de Zumbi dos Palmares: conheça

O Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares

É celebrado hoje, quarta-feira, 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra, no Brasil. A data foi instituída oficialmente pela lei nº 12.529, de 10 de novembro de 2011, e remete ao dia em que foi morto o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, no ano de 1695. Em 2018, 19,2 milhões se autodeclararam negras no Brasil, segundo pesquisa divulgada nesta quarta-feira, (20, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número é 32% maior do que há sete anos, quando o número de negros e negras no país era de pouco menos de 15 milhões de indivíduos (14,544 milhões).

O Quilombo de Palmares localizava-se na Serra da Barriga, na antiga Capitania de Pernambuco – hoje, integra o município de União dos Palmares, em Alagoas –, e foi formado por volta do ano de 1597 por escravos fugitivos das lavouras de cana-de-açúcar. A destruição desse quilombo foi efetuada por um grupo de bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho. Esse mesmo grupo foi responsável pela morte de Zumbi.

ZUMBI DOS PALMARES

Zumbi dos Palmares nasceu na Serra da Barriga, em Alagoas, no ano de 1655. Foto: Divulgação/Governo Brasil

Um dos líderes negros mais importantes e influentes da história brasileira, Zumbi dos Palmares viveu no século 17 em uma comunidade quilombola que foi exterminada por bandeirantes escravocratas. A história de Zumbi é a história de como o Brasil se viu ao longo dos séculos.

Livros, entre eles os oferecidos em escolas brasileiras resumem a história ao “quilombo que surgiu quando um pequeno grupo de escravos fugiu do engenho pernambucano em que estavam confinados no ano de 1597. Daí foi crescendo”, no entanto, o MS Notícias aplica-se aqui a falar sobre o líder do movimento libertário: o Zumbi dos Palmares.

O grupo em questão, narrado pelos livros, teve uma líder mulher, a primeira, Aqualtune: uma princesa do Congo presa pelos portugueses na Batalha de Ambuíla. Tendo sido obrigada a engravidar, teve um filho com quem fugiu em busca de refúgio em Palmares. O menino, chamado Ganga Zumba, cresceu e a sucedeu no comando. Zumbi era seu sobrinho. Ainda menino, Zumbi foi capturado em batalha e dado de presente ao padre Antonio Melo, da pequena cidade de Porto Calvo. Melo gostava de Zumbi, a quem chamava de Francisco e o criou como filho. O padre o achava brilhante, ensinou-lhe as letras, latim. Aos 15, Zumbi fugiu de volta para o quilombo. Por três vezes, mesmo já comandante, retornou para visitar o padre.

Por volta de 1678, Ganga Zumba fez um acordo de paz com o governador: os homens que haviam fugido seriam entregues de volta aos portugueses e aqueles que nasceram em Palmares seriam transferidos para outra região. Zumbi revoltou-se contra a decisão e houve um racha. Alguns acompanharam o velho rei, os outros ficaram com Zumbi. Ele governou por 15 anos até que, enfim, Palmares caiu após a batalha final.

Estátua em homenagem a Zumbi dos Palmares. Foto: Divulgação/Fundação Cultural Palmares. 

A narrativa acima tem um problema, ela não bate com os documentos da época. Aparentemente, alguém já naquele ano tentava pagar a luta negra pela liberdade. O brasileiro originalmente e inegavelmente, em sua grande maioria, descendente afro desconhece a história real dos Palmares; o que se conhece está espalhado entre alguns parcos documentos e as escavações arqueológicas, que só começaram na região em 1992.

Há registros que comprovam a existência do quilombo desde 1612, quando pela primeira vez aconteceram conflitos armados na região. Ainda segundo os registros, em 1640, Palmares era composto por nove aldeias: Subupira, Tabocas, Macaco, Andalaquituche, Aqualtene, Dambrabanga, Zumbi, Arotirene e Amaro. As duas primeiras tinham nomes tupis. Amaro, português; as seis restantes eram palavras de origem banto. A capital era Macaco, onde funcionava o conselho e vivia o líder. A aldeia tinha paliçada dupla, duas entradas e extensas plantações.

Conforme o site Meio, na avaliação do brasilianista Stuart Schwartz, um dos maiores especialistas em Nordeste deste período, em seu pico Palmares inteiro pode ter comportado seis mil moradores. Em 1645, o padre holandês Jan Blaer descreve Macaco: “As casas eram em número de 220 e no meio delas erguia-se uma igreja, quatro forjas e uma grande casa de conselho”.

O expedicionário, que fazia missão de catequização na época, relatou ainda ter encontrado ameríndios, o que foi confirmado por achados da arqueologia na região.

Em suas escavações, Pedro Paulo Funari, o americano Charles Orser Jr. e o inglês Michel Rowlands descobriram cerâmicas feitas com técnicas tupis, africanas e ibéricas. O que atenua a existência do povo artesão são as jarras de cerâmica vidrada, uma técnica de origem mourisca sofisticada, que só existia em partes específicas de Palmares. Jarras e vasos comuns eles encontraram por toda parte. O conjunto e sua distribuição não apenas confirmam que Palmares era multiétnico, como mostram que havia uma elite do quilombo que utilizava apetrechos mais elegantes.

O título de Zumbi é um título sacerdotal dos KiMbundu de Angola, um homem capaz de lidar com os espíritos. Nzumbi é tanto espírito ancestral como o espírito que não descansou. É desta mesma palavra que vêm os mortos-vivos do vodu haitiano.

Há também a narrativa de que o Zumbi foi raptado bebê e criado pelo padre Melo para tornar-se o maior líder militar negro da história colonial. Até 1980, só havia, contados, oito documentos da época de Zumbi que o citavam. Em 1981, o historiador gaúcho Décio Freitas lançou a terceira edição de seu livro Palmares, que é um marco importante. Trazia como novidade duas cartas inéditas, escritas por este padre. Os documentos que revelavam a infância de Zumbi, segundo Freitas, estariam em Portugal, nos confusos arquivos da condessa de Schönborn. Descendente de um burocrata importante do império português, a condessa teria feito cópias dos documentos para o historiador. Freitas é imensamente respeitado. Mas é, também, o único que viu os originais das cartas. Ninguém mais as encontrou naquele acervo. Só há as transcrições que aparecem em seu livro. Muitos historiadores duvidam que estas cartas misteriosas, que repentinamente revelaram tanto sobre a formação intelectual de Zumbi dos Palmares, tenham realmente existido.

PARECE INVENÇÃO

A região da Serra da Barriga, em Alagoas, acolhia o Quilombo dos Palmares, o mais conhecido da história brasileira. Foto: Arquivo/Agência Alagoas.  

Fato é que Palmares existiu, e o quilombo tinha uma cultura sincrética principalmente de origem banto. Registram-se inúmeras expedições portuguesas fracassadas ao tentar derrubá-lo. Durou, 100 anos. Não era uma república isolada: fazia comércio com os portugueses pobres das redondezas. Trocava comida por ferramentas e armas. Estava integrado àquela região entre Alagoas e Pernambuco. E Palmares teve alguns líderes, entre eles uma mulher, o último governou por quinze anos até sua queda. Mesmo que de forma diferente, ergueu de fato um ambiente africano no meio do Nordeste.

NEGROS NO BRASIL DE AGORA

Os registros do IBGE apontam que, se comparado com os últimos seis anos, a população que se declara negra aumentou. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, entre 2012 e 2018, o número de autodeclarados pretos e pardos cresceu em quase 12 milhões de pessoas no Brasil; já o total de brancos caiu.

Nos últimos anos, segundo o G1, pessoas mudaram percepções radicais e passaram a respeitar e se reconhecerem como negros.

Ocupando a mais alta corte judicial do país, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), há apenas um ministro negro, Benedito Gonçalves é o único entre 88 cadeiras ocupadas por magistrados. 

Entre ex-ministros, há somente mais seis casos registrados na História. Negros ocupam cada vez mais as universidades públicas, mas não nos cursos de elite: Medicina, Engenharia, Odontologia e Direito, isso reflete a desigualdade; especialistas apontam dificuldades estruturais.

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Zacimba Gaba era princesa de Cabinda, em Angola, há 300 anos, quando foi capturada e vendida como escrava para o Brasil. Foto: Reprodução 

No Youtube, um mini-doc conta a história de reis e rainhas que viveram no Brasil durante o período escravocrata.

O BuzzFeed Vozes convidou o pesquisador e escritor Ale Santos, em parceria com o Blue Note de São Paulo, para contar três histórias de realezas. Neste primeiro episódio conheça Zacimba, a Rainha Guerreira.

*Com informações do Meio.