Na América Latina é um desaforo focalizar a arte e a cultura sem destacar o Ballet Folklorico Iberoamericano do Paraguai. Também é inadequado imaginar a dança sem visualizar Nancy Elizabeth Cristaldo Salinas. Ela e a companhia que dirige estão nos patamares mais elevados de reconhecimentos ao protagonismo artístico-cultural latino. Seu trabalho já deixou de ser um patrimônio regional, vem conquistando outros territórios do planeta e firma-se como um bem transcontinental.
Conheci Nancy e seu ballet em 2013, no Festival Internacional de Turismo e Cultura, em Porto Murtinho. A companhia presenteou a população com um espetáculo inesquecível. O corpo de ballet desfilou talento e personalidade por páginas clássicas e regionalistas, revelando o compromisso de uma direção de arte que, valorizando as referências locais, procura trazer manifestações e identidades de outros povos e regiões para uma mesma linguagem universal, acessível a todas as pessoas.
Com um riquíssimo currículo, a formação profissonal e conceitual de Nancy resulta de uma combinação entre talento inato, incentivo dos pais, formação acadêmica e conhecimento de técnicas, escolas e influências. Professora de dança com graduação superior e passagem por direções de escolas e academias, ela é desde 1997 diretora e coreógrafa do Ballet Iberoamericano, com o qual já percorreu dezenas de países em quase todos os continentes.
Nancy Cristaldo Salinas e a dança estão entrelaçadas. Formam um único ser. É como ela define: “Desde que minha mãe e meu pai me deram a conhecer este mundo fascinante, a dança tornou-se minha segunda pele. É meu mundo. É minha vida. É meu tudo e sempre me foi fiel. Deu-me na vida as maiores satisfações que jamais alguém poderia imaginar. Sem a dança eu perderia o ar, não viveria”. Nessa entrevista, além de resumir parte da experiência que acumula com as viagens e convites para vários países, ela fala sobre a proposta e o compromisso do Ballet Folklorico Iberoamericano, confessa que adoraria apresentar-se em Campo Grande e ensina: lute pelo seu sonho e ele se realizará.

PERGUNTA - No Paraguai, cantar, dançar e tocar instrumentos são quase uma obrigação familiar. Quais as influências familiares que a chamaram para a dança?
RESPOSTA - A influência da família que me aproximou do mundo da dança foi meu pai, José. Era um grande dançarino, tinha o talento, inato, o dom de dançar. Dançou tango, polca e outros ritmos. E isso o fazia muito feliz, foi quem incutiu em mim o amor à dança e em todas as suas manifestações. E com o apoio incansável de minha mãe, Candelaria, aos cinco anos de idade eu fiz a minha estréia no palco. E a partir desse momento não parei, a dança me havia conquistado. Estudei 12 anos em uma escola oficial, preparei a defesa de minha tese para optar pelo Mestrado Superio de Danças com excelentes qualificações. Anos depois tornei-me diretora e coreógrafa do Ballet Folklorico Iberoamericano del Paraguay. A dança é minha forma de vida, é uma linguagem mais aberta, honestae coreógrafo do Ballet Folklorico do Paraguai Ibero-americana depois de dança é meu modo de vida, é uma linguagem mais aberta e honesta. Com o corpo não se pode mentir aquilo que se está sentindo.
PERGUNTA - Fora da família, o que a estimulou a levar adiante o sonho de projetar a dança além de sua cidade e atingir o mundo?
RESPOSTA - A paixão da dança cresceu tanto...e eu senti que meu elenco era muito bom, sólido, constante, maduro, com uma proposta interessante, talento e criatividade. Queria que o mundo tivesse a possibilidade de ver a beleza e a alegria nas minhas coreografias da dança paraguaia. Eu tinha um sonho e o tornei realidade, propondo-me a levar essa coreografia a todos os continentes. Os sonhos existem para ser realizados. É preciso ter um ideal e lutar para alcançá-lo. Com o Ballet, fomos e estamos indo aos mais maravilhosos cenários do mundo. Tenho o reconhecimento do meu País pela minha trajetória artística, fui honrada com o galardão do Festival de Tacuare´ê {um evento popular realizado todos os anos desde 1977, em Guarambaré, ao sul do Departamento Central do Paraguai. Takuare´ê - cana-de-açúcar em Guarany – tem música, dança, teatro, poesia e artes plásticas}. E a honorável Câmara Nacional de Deputados também me concedeu uma homenagem oficial.
PERGUNTA - O trabalho do Ballet Folklorico em vários países ajuda a divulgar a latinidade e até a derrubar preconceitos em relação à América do Sul?
RESPOSTA - O Ballet Folklorico Paraguai Iberoamericano fez a diferença. Ao fundir a dança com o teatro mais que acadêmico, a espontaneiade nos caracteriza em todas as nossas apresentações. Cativamos o exigente publico internacional e temos avançado por barreiras ancestrais e culturais, inclusive propiciando o acesso a culturas muito fechadas.
PERGUNTA - A dança do Ballet Folklorico de Assunción serve de resistência cultural da latinidade, especialmente diante da massificação de culturas importadas?
RESPOSTA - A cultura de massa é uma nova estratégia de desenvolvimento cultural que visa neutralizar esses impactos nocivos causados ??pela globalização, as novas tecnologias e informações que transmitem mensagens de alienação e brutalidade dirigidas contra o mais valioso das tradições, os símbolos e criações culturais dos povos, isto é, contra a sua identidade cultural. A massificação cultural se assume, então, como uma verdadeira cultura de resistência, ou seja, convertendo-se em um muro de contenção à uniformidade, às imitações, ao esmagamento das culturas nacionais e das identidades culturais. Massificar a cultura deve ser alegrar a alma e a pessoa com obras que dela sejam dignas. E não é preciso subestimar quem quer que seja. Qualquer jovem camponês, com ou sem estudo, tem nível para apreciar uma obra de arte com um mínimo de rigor. Educação e cultura são conceitos que caminham lado a lado. Como um colega disse, referindo-se a questões relacionadas com a massificação: "Não vamos perder a nossa identidade, não pequemos de tolos por inteligentes, não desperdicemos as forças com falsos valores".
PERGUNTA - Como é que países como os do Oriente Médio, com línguas e costumes totalmente diferentes, recebem a arte paraguaia?
RESPOSTA - A América Latina com características próprias da cultura espanhola e mediterrânea em geral: comportamentos extrovertidos, amor à espontaneidade, expressões abertas das emoções, uso da linguagem corporal, tempo para construir confiança e inteligência cultural para lograr êxito em nossas experiências globais. O Ballet Folklorico Iberoamericano é pioneiro, é o primeiro grupo folclórico de dança a chegar aos países árabes. No Golfo Pérsico e Oriente Médio a cultura, os costumes e a língua são muito diferentes. Na forma de se vestir, por exemplo. As mulheres usam a abaya, um vestido longo que cobre quase totalmente o corpo, a saudação, os turbantes. Em quatro oportunidades viajamos por emirados em Dubai, Abu Dabhi e Al Ain. Também por cultura ancestral, ultrapassando barreiras culturais, fomos à China (Shanghai) e Coréia do Sul (Seul e Yeosu).
PERGUNTA - Nas excursões internacionais o Ballet Folklorico é recebido somente como uma companhia de dança ou desperta uma expectativa mais ampla em relação ao que representa em termos de cultura e de comportamento continentais?
RESPOSTA - Nós nos apresentamos como um elenco que transmite o folclore com alegorias e tradicionalismo. Levamos a disciplina, o talento, a beleza, o respeito e a amizade como a nossa bandeira. Tem sido assim na Europa em países como a Bélgica, Espanha (Madrid), Alemanha (Hannover), onde o ballet desperta grandes expectativas pela trajetória internacional e por seu currículo. Vale acrescentar que na América Latina nos apresentamos na Bolívia (Cochabamba e La Paz), Peru...e recordar o Peru é falar de Macchu Picchu, uma das sete maravilhas do mundo, é falar de uma cultura, a inca, tão misteriosa e desconhecida. É falar de um autêntico tesouro em pedra oculto no mais profundo das entranhas da Cordilheira dos Andes, lá onde o Rio Urubamba dá origem ao Vale Sagrado dos Incas. Fomos ainda à Colômbia (Medellin, Necocli, Itagui, Antioquia, Apartado); no Chile (em Santiago); na Venezuela (Maracaibo); na Nicarágua, Costa Rica, Guatemala, Honduras. Na Argentina, em Laborde, fizemos um circuito em 2016 para os povos de Santa Isabel, Santa Teresa, Camilo Aldao, Cafferata, Córdoba, Santa Fé, La Pampa, Buchardo, Capitan Sarmiento e Buenos Aires.
PERGUNTA - A dança paraguaia já é uma atividade que garante retorno a quem se profissionalizar? Em resumo: a arte do Paraguay já se firmou como opção real de renda?
RESPOSTA - Sim, no Paraguai a dança se profissionalizou e está reconhecida como fonte laboral em nível ministerial, em instituições de ensino, institutos e academias de arte nos municípios e cooperativas, bem como na iniciativa privada.
PERGUNTA - Sua companhia já se apresentou em cidades de Mato Grosso do Sul, como Porto Murtinho e Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai. Campo Grande, a capital, tem a maior comunidade de paraguaios e descendentes no Brasil. Não acha que está faltando em seu roteiro uma agenda em Campo Grande?
RESPOSTA - Sim. É verdade. O Ballet Folklorico Iberoamericano do Paraguai já esteve em várias cidades brasileiras, como Porto Murtinho e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul; São Bernardo do Campo, Guarujá e Santos, em São Paulo; Caiobá, em Matinhos, no Paraná; Rio de Janeiro e ainda Camboriú, em Santa Catarina. E adoraríamos nos apresentar para Campo Grande.
PERGUNTA - Apesar de ter a cultura paraguaia e latino-americana como referência, sua companhia incluiria – ou já inclui - temáticas culturais de outros continentes e de outros ritmos?
RESPOSTA - Apresentamos quadros alegóricos e fusões com temas inspirados na natureza, na água, nos mares, oceanos, no sol, na erva-mate, nas flores etc. É a autenticidade das riquezas singulares da arte e da cultura do Paraguai, da força de elementos de identificação regional presentes, por exemplo, na mescla do ñhanduti {técnica artesanal de origem guarany) com o aho poy (ou roupa fina, uma das linhas do artesanato de maior relevância dos paraguaios) e diferentes texturas e cores.
PERGUNTA - O que já está definido na agenda do seu ballet para o ano?
RESPOSTA - Bem, entre os projetos para 2017 termos um convite para a Tunísia em abril; para o Equador, em junho; depois, Ancara, na Turquia, a França e ainda seremos o único representante do continente latino-americano convidado a se apresentar nos Emirados Árabes no próximo ano. Há uma frase para reflexão à qual sempre recorro: prefiro viver com olheiras a ter que somente sonhar. Quem quiser, pode fazer realidade o seu sonho. Então, que se lute por ele.











