30 de novembro de 2020
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ARTIGO

Polarização compromete diálogo sobre meio ambiente

Sem o espaço da mediação, retrocesso é inevitável

Os projetos de escala global relacionados ao meio ambiente enfrentam mais um conflito, além dos tantos que a atualidade nos trouxe: a crise dos espaços de mediação, diálogo e negociação. Em tempos de polarização, não há espaço para o negociador. Abrindo-se mão de algo, está a serviço do outro lado; se negocia, está sendo cooptado; e se não se manifesta, é omisso. A disputa de narrativas ocupou os espaços de negociação e composição de acordos.

Assim, um fato recente na história política - o surgimento de coletivos de organizações e pessoas que juntam interesses e projetos em objetivos mais ou menos comuns, as chamadas redes multiatores - encontra-se sob ameaça diante do acirramento de polarizações.

Essas redes podem representar, na verdade, uma resposta à percepção de que problemas complexos exigem respostas complexas, multidimensionais, que só podem ser construídas a partir de uma dinâmica contínua de diálogo, negociação e acordo entre diversos atores.

Na semana passada, por exemplo, um diálogo virtual promovido pela rede público-privada Tropical Forest Alliance (TFA), reuniu os principais atores da cadeia de produção e comercialização de carne bovina do Brasil e da China, permitindo que empresas exportadoras e importadoras, bancos financiadores, ONGs e autoridades governamentais discutissem oportunidades para a melhoria contínua e resultados sustentáveis na produção de carne bovina de maneira sustentável e responsável.

Por meio deste encontro, evidenciou-se a importância do uso de técnicas de intensificação e monitoramento da cadeia da pecuária, bem como de mecanismos financeiros e tributários inovadores como soluções potenciais para a redução do desmatamento associado à produção de carne, e consequentemente, às emissões de carbono decorrentes.

Nos últimos anos, as redes se fortaleceram como espaços políticos privados que buscam garantir e construir direitos a partir de uma lógica de diálogo e consenso, criando e implementando regras políticas e mercadológicas que funcionam para os que voluntariamente a elas aderem. Sistemas de certificação ditam padrões sociais e ambientais aos processos produtivos, que funcionam somente entre empresas e consumidores que as priorizam: no caso do papel e celulose, representam cerca de 80% do mercado mundial, sem que uma lei sequer os torne obrigatório. Acordos voluntários entre empresas de soja, ONGs e produtores fizeram o desmatamento na Amazônia despencar 85% entre 2009 e 2016, ao mesmo tempo que a área de soja plantada na região subiu de 1,4 milhão de hectares para 5 milhões de hectares (2006-2018), demonstrando que economia e preservação podem caminhar juntas, desde que haja diálogo, acordo e inteligência compartilhada.

A falta de diálogo e do alinhamento de informações oferece campo fértil para a falta de confiança entre produtores e compradores, os hemisférios Norte e Sul, o governo e a sociedade civil, dificultando e tornando os trabalhos das redes inconclusos e ineficientes. Ficam assim comprometidas as possibilidades de construção de soluções inteligentes que combinam interesses econômicos, ambientais e sociais.

Como já dito, não há soluções simples para problemas complexos. Não há soluções apenas públicas, tampouco privadas. Não há bandidos e mocinhos; todos são parcialmente responsáveis pela transformação. Só precisam sentar e compor. As instâncias multilaterais, públicas e/ou privadas, que promovem diálogos a partir de uma inteligência compartilhada, são essenciais e precisam ser preservadas sob pena de um retrocesso cujos efeitos serão sentidos por muitos anos. Essa é a única alternativa diante da maior de todas as crises que estamos e ainda vamos seguir enfrentando.

AUTORA: É Diretora Regional da TFA (Tropical Forest Alliance) para a América Latina. Doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM/USP.