01 de outubro de 2020
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ANDERSON DIAS NUNES

Professor se transforma em Papai Noel há 12 anos em Corumbá

Famílias inteiras em busca de um abraço, de um aperto de mão, de um sorriso, de uma foto ao lado deste velhinho que na vida real é um professor de artes de "apenas" 45 anos

Há doze anos, quando recebeu de Helô Urt o convite para ser o Papai Noel no recém-inaugurado Jardim de Natal, na Praça da Independência, e ganhou dela um roupão vermelho, o professor Anderson Dias Nunes pouco tinha noção do papel que desempenharia nos anos seguintes. Foi justamente o ano do seu casamento com a servidora estadual e dançarina Regina Célia Narciso, o que o levou a abandonar definitivamente os concursos para Rei Momo no carnaval da cidade. “Foi a melhor escolha deixar de ser Rei Momo para me tornar o Papai Noel, é mais leve, é gratificante, fico contando os dias para chegar a hora de receber as crianças”, afirma.

Hoje Papai Noel oficial de Corumbá, com cadeira cativa, ele só perde o posto de quiser, conforme foi avisado pela Fundação de Cultura e do Patrimônio Histórico de Corumbá, que mais uma vez o contratou para receber o público na casa montada no Coreto Municipal, no Jardim da Independência.

Na noite de abertura, no dia 15 de dezembro, lá estava ele, com uma imensa barba que deixava à vista apenas o brilho nos olhos sob os óculos de grau. “Prefiro a barba bem grande para não me identificar, sou muito conhecido, tenho muitos alunos e ex-alunos”, conta. “Só falta agora botar um daqueles óculos redondos”, acrescenta, vaidoso.

A fila enorme chega perto do monumento das três Forças Armadas. Mais de 300 pessoas passariam pelo Coreto naquela noite quente de céu aberto. “Me surpreendeu ver tanta gente, era tanta criança em volta que eu quase não consegui entrar na casinha quando cheguei às dezoito horas”, conta. “Os maiores públicos são sempre na abertura e no encerramento”.

Famílias inteiras em busca de um abraço, de um aperto de mão, de um sorriso, de uma foto ao lado deste velhinho que na vida real é um professor de artes de “apenas” 45 anos, completados no dia 04 de dezembro. Casado há doze anos com Regina Célia, o casal sem filhos, ocupa um apartamento na rua 7 de Setembro, centro da cidade. Não é que tenham abandonado o Carnaval, apenas decidiram curtir a folia a dois. Hoje, Anderson e Regina são parceiros na coreografia de alas e comissões de frente das principais escolas e blocos de Corumbá. “Nada que nos prenda muito, que nos sacrifique”, diz.

Muita coisa mudou desde 2007, quando começou o Jardim do Natal. Com a proliferação do smartphone, todos chegam equipados para guardar uma lembrança. E não só as crianças posam ao lado do Noel: depois delas chega a vez dos pais e tios, que fazem selfie. Ele atende toda a família com paciência.

Papai Noel trata a todos com igualdade, mas também dedica sua simpatia ao receber visitas ilustres como foi a da presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, Mara Caseiro. “Que simpatia! Linda, uma beleza por dentro e por fora”, comprova, após receber um abraço e um beijo. “Você está muito lindo, eu nunca vi um Papai Noel tão grande como você”, ouviu de Mara Caseiro o elogio que o deixou com as bochechas vermelhas.

Engana-se quem pensa que a maratona de Papai Noel termina no dia 23 de dezembro, data de encerramento de seu contrato no Jardim de Natal. É na véspera de Natal que vem o “trabalho” mais intenso, mais pesado, porém mais intimista. É quando ele se encarrega de levar o “espírito de Natal” à casa de famílias de diferentes classes sociais, com as animações especiais nas residências que começam às 18h e só vão terminar por volta da meia-noite e meia. Em algumas famílias faz a animação natalina há seis anos consecutivos.

Pode tanto ir com o tradicional roupão vermelho como usar um dourado que ele mesmo confecciona especialmente para essas ocasiões. “Quando comecei a roupa era feinha, mas com o passar do tempo fui dando mais brilho, e posso usar esse roupão dourado que sai fora do padrão de uma vez, do vermelho”, diz. “Isso faz parte da evolução da fantasia”.

Na noite de 24 de dezembro, enquanto todos se recolhem mais cedo para o lar, Anderson só consegue chegar em casa por volta da 01h da manhã, cansado, porém, recompensado pelo retorno que a atividade artística proporciona ao tirá-lo da rotina de professor. “É quando finalmente eu faço a ceia de Natal com minha família”, conta. “´Mas tudo vale a pena, é um trabalho artístico, gratificante”.

Formado em pedagogia e artes visuais, Anderson é professor regente do quarto ano da Escola Municipal Eduardo Malhado, em Ladário, e de artes nas turmas do segundo ao quarto ano na Escola Municipal Clio Proença, em Corumbá. Nas escolas ele também vem sendo requisitado desde novembro para animar as festas natalinas dos alunos.

E neste final de ano, ele descobriu que ainda havia horas ociosas na sua agenda particular. Decidiu preencher literalmente todo o tempo como motorista de aplicativo, o transporte individual de passageiros. Então, é o momento de Papai Noel trocar as renas e as enormes barbas brancas por seu veículo motorizado e voltar a ser apenas um rosto conhecido nas noites de Corumbá. Com uma diferença significativa: como motorista, ele tem trabalho o ano inteiro.