27 de fevereiro de 2021
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'Foi Deus'

Seguida por enfermeiras, douradense doa medula e salva da morte mineira com doença rara

Sabe aquele tipo de história, na qual tudo parece conspirar para que a pessoa faça algo aparentemente simples, depois esse ato se torna fundamental para desencadear uma série de acontecimentos e, no final, tudo parece até um milagre? Pois foi mais ou menos assim que aconteceu com a estudante Geovana Perez Martelli, 23, douradense que com um cadastro de doadora de medula óssea feito quase “sem querer”, ajudou a salvar a vida de Lucia Maria de Souza Guimarães, 36, uma enfermeira de Minas Gerais, esposa e mãe do Matheus, que hoje tem quatro anos de idade.

Geovana estava naquele dia como outros na Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), onde cursa engenharia física. Era o primeiro ano da faculdade, em 2010, quando ocorreu uma campanha para incentivar o cadastro de doadores de medula. Duas enfermeiras foram até lá divulgar que realizariam no dia seguinte uma coleta de sangue dos alunos da instituição para essa finalidade.

Logo nesse primeiro momento, começou a insistência das profissionais com Geovana. “As enfermeiras começaram a me perseguir na faculdade, falaram para mim ‘você vai lá amanhã né!?’. Eu disse, ‘vou sim’. Elas repetiram, ‘você vai mesmo, né?’, eu falei, ‘claro, vou!’”, conta Geovana, lembrando que o que saia de sua boca era aquele “sim”, com tom de “não”, do tipo que a gente fala quando quer ser educado, mesmo sabendo que não vai fazer aquilo de jeito algum.

O motivo da fuga era o medo que ela tinha na época. “Eu sempre tive pânico de fazer algum exame de sangue e descobrir que eu tenho alguma doença, tipo diabete, essas coisas, porque eu como muito doce. Então eu sempre fugi de gente que quer tirar meu sangue”, conta ela.

No dia da coleta, Geovana, é claro, desviou, passando bem longe do bloco em que estavam as enfermeiras fazendo cadastro. Seus colegas de sala foram organizando grupos para ir cadastrar, todos a chamando, e ela dizendo “vão vocês, que eu vou depois”, sabendo que não iria por espontânea vontade.

Logo após, as mesmas enfermeiras que haviam insistido no dia anterior, “do nada”, apareceram no bloco em que ela estudava, longe daquele em que a coleta acontecia. “Elas me acharam no meu bloco e me arrastaram para lá. Acho que foi Deus falando: ‘você vai sim!’”, relata. A jovem lembra que antes do episódio nunca tinha visto aquelas enfermeiras em sua vida.

Ao fazer o cadastro perguntou qual era a probabilidade de lhe chamarem para fazer a doação, então foi informada que as chances de compatibilidade eram de uma em 100 mil no mundo, e que nem todo mundo faz cadastro. Como muitos, pensou que num universo de possibilidades tão pequenas quanto esse, nunca a chamariam para doar.

A doação aconteceu

Em 2014, começou a pensar sobre essa questão do cadastro de medula óssea e que tinha que ir até o Hemocentro levar as informações que faltavam nele. Poucos dias depois, ligaram dizendo que apareceu uma compatibilidade. Fez novos exames de sangue para confirmar em Dourados mesmo e, então, recebeu uma ligação do Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea) dizendo que ela precisava ir urgente para São Paulo (SP) realizar uma bateria de exames.

Geovana foi logo em seguida, com todos os custos bancados pelo Redome, fez os exames. Voltou na semana seguinte para a cirurgia de retirada da medula, realizada no Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo). Até esse momento, não sabia absolutamente nada sobre quem receberia a medula, nem o nome, sexo ou local onde morava. Tudo permanecia em sigilo. Só sabia que iria doar a uma pessoa que estava precisando com urgência.

A medula foi recebida por Lucia que estava no Hospital Albert Einstein, assim que foi retirada de Geovana, no 9 de maio de 2014. Porém, Geovana e ela só poderiam saber quem era e entrar em contato uma com a outra, 18 meses depois da cirurgia e, até para isso, é preciso burocracia. “Fiquei pensando, será que ela não vai querer me conhecer?”, conta a estudante.

Um pouco do encontro das duas

Atingidos os 18 meses, Lucia manifestou esse interesse ao Redome, que intermediou o contato entre as duas, após preencherem alguns termos. Logo de cara ficaram horas no telefone e Geovana se dispôs a ir com a mãe até Camanducaia, a cidade de 20 mil habitantes, no interior de Minas Gerais, onde mora a receptora da medula.

Geovana passou o final de semana no local, voltando na terça-feira passada (12). A emoção permanece visível em seus olhos, ainda mais depois de ter conhecido a história de Lúcia, capaz de comover a todos. “Eu ainda não sei descrever como me sinto. Lá eles me fizeram entender que eu não salvei só uma pessoa, uma mãe, mas que eu salvei uma família”, relata a jovem.

A receptora fala hoje de Geovana sem ter palavras para o que representa em sua vida, a considerando muito mais que uma irmã. “Ela é parte da minha família agora, o sangue dela corre em minhas veias hoje”, conta a enfermeira. O sangue de Lucia que era O+ passou a ser o mesmo da estudante, A+. “Eu nasci de novo, graças a Deus e à Geovana”, relata.

A história de quem recebeu

Lucia é uma mulher que costuma manter hábitos saudáveis, sempre se alimentou bem, praticou exercícios e não tinha problema qualquer de saúde. Certo dia antes de dormir, percebeu que seus lábios estavam um pouco arroxeados, que havia algo errado, mesmo assim achou que não era grave e se deitou.

No café da manhã do dia seguinte, foi alertada pelo marido de que seu nariz e lábios estavam sangrando. Já havia decidido ir ao médico, quando olhou para suas mãos e seus dedos sagravam pelos poros (como se fosse suor, por exemplo). Nas pernas e braços começaram a aparecer manchas arroxeadas. Foi o pontapé para descobrir a doença.

Em pouco tempo, do dia 28 de janeiro (quando os primeiros sintomas da Aplasia apareceram) até o dia 9 de maio (quando recebeu a medula), ela passou de uma mulher saudável, para uma pessoa em tratamento, debilitada, que estava sempre da UTI e não saia de uma cama de hospital à espera do transplante de medula, sua única chance de sobreviver.

Num primeiro momento, quando os sintomas apareceram, ela foi até cidades vizinhas, fez exames e consultou médicos, ficou internada por várias vezes. Descobriu que estava grávida, do bebê que planejou ter, mas perdeu durante o tratamento. Teve também várias hemorragias. Até que um obstetra a alertou sobre a gravidade de sua situação e a encaminhou para um Hematologista.

Foi este profissional que a internou para exames e deu o diagnóstico correto. Ela tinha uma doença rara, com taxa de mortalidade muito alta, chamada Aplasia de Medula Grave. No hospital em que estava, foi feito o possível para reverter a situação, mas ela ficou na UTI várias vezes e perdeu todas as suas defesas do corpo.

Foi informada que precisava de um transplante de medula urgente, que o hospital em que estava não tinha mais estrutura para atendê-la e que suas únicas poucas chances de sobreviver estavam no Hospital Arbert Einstein. Ela conseguiu uma transferência.

Vulnerável, acabou pegando Aspergilose Pulmonar, doença que se aproveitou da condição em que estava. Precisou fazer o tratamento antes de fazer o transplante, pois era um impedimento para o procedimento.

Nesse meio tempo, a mobilização foi grande. Seus quatro irmãos biológicos fizeram testes de compatibilidade para doar a medula, já que as chances entre pessoas da família são maiores. Mas, nenhum deles eram compatíveis. Na cidade dela, todos os moradores se mobilizaram desde o início, com doações de sangue – que ela precisou bastante – e fazendo cadastro para doação de medula.

Mas, foi no Redome que ela encontrou sua doadora. “Foi Deus que preparou a Geovana para mim, não foi por acaso. Mesmo nas condições em que eu estava, consegui enfrentar a Aspergilose para receber a medula dela”, contou. Apesar de transplante ter sido dia 9 de maio, a medula “pegou” no dia 31 daquele mês. “Eu comento que agora comemoro aniversário três vezes, na data do meu nascimento, no dia 9 e no dia 31 de maio”, conta Lucia.

Após o dia 31, a melhora de Lúcia foi gradativa e diária. Começou a mexer a cabeça, depois a levantar, caminhar, comer, fez fisioterapia até voltar a andar. Com o tempo, retirou cateter e tudo mais. Hoje está em casa, levando uma vida normal, graças à medula de Geovana.

O encontro teve até festa

Quando atingiu o prazo permitido, entrou logo em contato com a doadora, pois além dela, todos de sua família e até da cidade, estavam na expectativa para conhecê-la. Além de um almoço cheio de gente, durante o tempo em que passou em Camanducaia, Geovana foi apresentada durante a missa numa igreja católica local, aos moradores que estavam lá. “Todos queriam saber quem era essa alma caridosa, o anjo que Deus colocou em minha vida”, conta Lucia.

Depois de passar pelo que passou, a enfermeira reconhece que muita gente não imagina a importância de fazer o cadastro para ser doador de medula, até que alguém próximo sinta na pele. “É preciso que todos digam sim e que façam o cadastro. Medula não é algo que a gente compra no mercado, depende apenas da sua generosidade com o próximo”, conta ela. “Eu nasci de novo”, complementa, agradecendo à Geovana, aos médicos e às equipes dos hospitais que a atenderam.

Doação de Medula

Para se cadastrar como doador de medula óssea, o interessado deve procurar o Hemocentro Regional de Dourados, localizado na rua Waldomiro de Souza, 40, na Vila Industrial, anexo ao PAM (Pronto Atendimento Médico).

Os telefones de contato são (67)3424-0400 e o 3424-4192.