27 de novembro de 2020
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INSPIRAÇÃO

Vítima de violência doméstica por 19 anos funda ONG e salva vidas na Capital

Ela também teve que lutar contra violência, contra doença e hoje ajuda outras mulheres, além de salvar vidas na pandemia

A pedagoga Ceureci Fátima Ramos, de 47 anos, ganhou espaço na mídia na semana passada, após sua Organização Não Governamental (ONG), - Associação de Capacitação e Instrução de Economia Solidária do Povo (ACIESP) fechar contrato de prestação de serviço com o Grupo Energisa, que ofereceu R$ 100 mil para que fossem confeccionadas 65 mil máscaras, a serem doadas à asilos e aldeias indígenas em Mato Grosso do Sul. A articulação entre ONG e o Grupo foi feita pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar de Mato Grosso do Sul (Semagro) e com participação da Secretaria de Estado de Saúde (SES).

Com Ceureci, trabalham 27 mulheres envolvidas diretamente na confecção das máscaras, elas tem 45 dias para entregar o lote de máscaras. As mulheres que trabalham nesta confecção, todas elas, foram acolhidas por Ceureci na ACIESP, que oferece diversos serviços de assistência social, hoje no bairro Aero Rancho, Setor 6. Apesar de agora terem a condição de serem remuneradas para prestar o serviço, Ceureci explica que antes do contrato com o Grupo, elas já vinham fazendo máscaras voluntariamente para ajudar a Saúde. “Fizemos já em torno de 100 mil máscaras, para a SESAU, essas foram de doações e continuamos fazendo, além das outras que faremos para a Energisa”, explicou. 

Ceureci Ramos. Foto: Tero Queiroz.  

A ACIESP, localizada no Aero Rancho há 1 ano e 4 meses, tem história pregressa, tendo iniciado, segundo Ceureci, em 2004 suas ações voluntárias. Mas em 2013 começou a ser denominada ONG. Apesar de estar no bairro, a ACIESP atende toda a cidade. “Atendemos mulheres de todos os lugares, vítimas das mais variadas formas de agressões masculinas. Damos primeiro, o suporte psicológico e depois condições para que elas tenham independência, esse curso de confecção por exemplo: torna elas livres e isso diminui a vulnerabilidade tanto social, quanto a de ser obrigada a viver com um parceiro violento”, comentou Ceureci, que nos recebeu na sede da ONG. A reportagem tomou um cafezinho com ela e aproveitou para conhecer sua história e de como surgiu seu gosto por ajudar as mulheres. 

A pedagoga já revelou no início da conversa que ela também foi vítima de violência doméstica. “Por 19 anos, um companheiro que me agredia. Eu vivia com ele no Paraná e vim de lá para cá [MS] em 2004, fugida dele, mas ele veio atrás e me achou. Na época eu morava no Carioca [bairro na Região do Imbirussu”, relembrou.  Com o homem Ceureci teve 3 filhos, uma menina e dois meninos, na época todos crianças.

Emocionada ela conta que a vida com o agressor ainda se estendeu por mais dois anos. “Eu 2006, ele me bateu tanto, em mais um episódio de agressões físicas, que fiquei 48 dias internada em recuperação. Foi quando ele foi preso. Mas porque os vizinhos chamaram a polícia, porque eu fiquei sem condições”, relatou. Machucada, Ceureci relatou que ainda em recuperação vivia sobre ameaças. “Ele ficou só oito meses preso. Aí ganhou benefício de tornozeleira eletrônica. E passou a me coagir, fazia ameaças... Eu não conseguia viver em paz, procurava a polícia eles me ofereciam um “lugar seguro”, mas aí eu teria que me esconder! Eu teria que deixar de fazer minhas ações? Mas eu fui a agredida, e eu perco a liberdade?”, reclamou.

Ceureci se emociona ao relembrar história difícil vivida. Foto: Tero Queiroz.  

Ceureci passou a ocupar-se ainda mais em suas ações em prol do bem. “Meu filhos, eu envolvia eles... Lá no Carioca ainda, era de madrugada, não importava a hora, pessoas apareciam pedindo ajuda e fazia o possível para ajudar”, comentou.

Um ano após a separação com o agressor, Ceureci se deparou com um problema de saúde.  Nesse ponto da conversa, os olhos da pedagoga lacrimejam ao relembrar a possibilidade de não ver os filhos crescer. “Eu falei para o médico ser sincero, que eu não tinha familiar aqui. Precisava dizer o que eu tinha! - Se o senhor disser o que tenho eu vou me cuidar, eu quero ver meus filhos ir pra escola, eu quero ver eles crescer... Eu disse isso para ele, quando ele me falou da doença eu tentei ficar firme, mas chorei, chorei muito”, contou.  Ceureci foi diagnosticada com um câncer na garganta, em 2007. “Eu pedi, que se ele [Deus], permitisse eu vencer mais essa batalha, eu iria dedicar minha vida a ajudar outras mulheres, porque ao meu entender essa seria minha missão aqui”, disse. Como a doença foi descoberta logo no início, ela aceitou fazer o tratamento. “No meu caso só caiu os cabelos, e graças a Deus, um ano e 8 meses depois eu recebi a notícia que estava curada”, comemorou.

Mesmo curada da doença, Ceureci continuava a sofrer com a perseguição do ex-marido, que só veio a ter fim 3 anos mais tarde. “É porque e comecei a namorar com ele [aponta para o esposo], aí o outro sumiu, me deixou em paz”, descansou.   

Ceureci e o atual esposo, Devanir. Foto: Tero Queiroz

A fundadora da ACIESP acenou para o atual marido, o enfermeiro, Devanir de Souza Ramos, de 52 anos. Muito tímido, sentado em uma cadeira, ele fez parte da entrevista. Momento em que presenciou Ceureci dizer que acredita que ele [atual marido] é enviado por Deus para ela e à ONG. “Ele mantém tudo isso aqui, há dez anos. Ele e meus filhos me apoiam, e nossa luta é em prol de ajudar quem precisa demais e não acha amparo, assim como eu me senti durante anos”.

NOVOS CAMINHOS

Ceureci e o atual eposo, Devanir, em retrato exposto na sala dela na ACIESP.  Foto: Tero Queiroz.  

Depois de tudo isso, Ceureci então resolveu iniciar o projeto social do que viria a se chamar ACIESP em 2013, contando com vários voluntários. “Em 26 de junho de 2013, foi quando deixei tudo, até os outros trabalhos paralelos e resolvi me dedicar apenas a ONG. Com apoio dos meus filhos e do Devanir”, elegeu.  

Perguntado sobre o que mais admira na esposa, Devanir é sucinto. “Além de eu amar ela, o que eu mais admiro nela é a resiliência”, descreveu.

Banner da ACIESP disposto na parede da ONG. Foto: Tero Queiroz.  

ACIESP da sua fundação até o último balanço em 2020, segundo Ceureci, já atendeu em torno de 5 mil mulheres vítimas de violência em Campo Grande. Um dado importante em observação cotidiana da pedagoga é que em sua grande maioria, as mulheres que procuram ajuda, estão vindo das classes médias. “Tem sim as mulheres vulneráveis socialmente, mas a grande maioria que atendemos aqui, são mulheres de classe média”, ressaltou.   

MAPA DO FEMINICÍDIO

A Delegacia-Geral da Polícia Civil e a Subsecretaria de Políticas Públicas para Mulheres (SPPM) lançou ontem, 2ªfeira (1º.junho) a primeira edição do Mapa do Feminicídio de Mato Grosso do Sul: um mapeamento dessas mortes violentas ocorridas em Mato Grosso do Sul no ano de 2019. O estudo foi divulgado ontem, em alusão ao Dia Estadual de Combate ao Feminicídio e servirá como subsídio para elaboração de políticas públicas de enfrentamento à violência.

“É preciso nominar, quantificar e qualificar a investigação e o julgamento dos crimes de feminicídios para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências concretas, em estatísticas de cada município, de cada região. É isso o que pretendemos com o diagnóstico alcançado no “Mapa do Feminicídio MS”: aprimorar e fortalecer as políticas públicas de enfrentamento à violência contra mulheres, para prevenir e erradicar os feminicídios em Mato Grosso do Sul”, explicou a subsecretária Luciana Azambuja.

O Mapa do Feminicídio traz dados dos 30 casos ocorridos no Estado no ano de 2019 e a constatação de que 77% das mortes ocorreram naquele local onde as mulheres deveriam estar mais seguras: na sua residência. Além disso, ele mostra que em 37% dos casos os autores utilizaram de arma branca (faca, canivete ou machadinha); que 56,66% das mulheres foram mortas por homens com quem conviviam e tinham relacionamento afetivo; que em 40% dos casos o motivo foi a não aceitação do término do relacionamento; e que em 33,33% o motivo alegado foi ciúmes – o que denota sentimento de posse sobre a vítima.

O Portal Não Se Cale, lançado pelo Governo do Estado, visa orientar as mulheres em como se prevenir de se colocar em situação violenta com parceiro. Bem como, traz à público dados da violência. Um dos apontamentos no portal indica: só nesses três primeiros meses de 2020, foram 8 casos de feminicídios consumados e quase 4.500 B.O’s registrados em MS.

Ceureci observa o leão na parede com a frase, que pode ser conferida em foto mais próxima na GALERIA. Foto: Tero Queiroz.  

Ceureci sabe, na prática, quais são as etapas para recuperação. Hoje é um exemplo a outras mulheres. Ela nos mostra o interior da ONG, fotos de quando iniciou o projeto e sem medo, se compara hoje metaforicamente a um leão, exposto em um quadro na parede da ONG. “Ganhei esse quadro de uma amiga, ela me disse que era semelhante ao que eu representava para ela”, comenta. 

MOTIVAÇÕES

Ceureci comenta as ações e relebra por meio de fotografias expostas em mural na sua sala na sede da ONG. Foto: Tero Queiroz.  

Sobre, para além das identificações, o que move Ceureci a fazer o bem? Ela responde no ato. “Amor e fé é o resumo de todas as nossas atividades, uma missão para com a comunidade, com a mulher, também com o homem, com a criança. Com amor doamos um pouco de nós em prol de uma sociedade melhor. Amor em Deus, à quem devo tudo isso, todas essas vitórias em situações tão adversas”, argumentou. 

O projeto da ACIESP visa atender algumas necessidades, como contribuir com a melhoria de qualidade de vida das pessoas, por meio do desenvolvimento, educacional, humano, cultural, assistencial, filantrópico e institucional de caráter científico. Segundo Devanir, as palavras de slogan do projeto social, já definem todas as ações feitas por Ceureci, ele e os integrantes da ACIESP.

Mulheres voluntárias trabalhando na ACIESP na confecção das máscaras. Foto: Tero Queiroz.  

As 27 mulheres associadas atualmente terão renda para a confecção das máscaras. Elas trabalham em um galpão, arejado, bem iluminado, com os equipamentos adequados e com muita alegria. A reportagem entrou no ambiente de trabalho delas. A associação conta com o apoio do Senai no corte do material. A estimativa é de que as costureiras produzam 10 mil máscaras por semana.

Algumas delas ainda conservam fisicamente os traços da violência provocada por ex-parceiros. Em sua grande maioria no lugar, elas enfrentam tudo com a força e com um grande sorriso. “Isso não podem nos roubar a vontade de sonhar, fazer o bem e sorrir. É...Com tudo temos sim motivo para sorrir”, finalizou Ceureci. 

VEJA NA GALERIA ABAIXO ALGUMAS MULHERES DA ACIESP EM AÇÃO:  

 

 

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