20 de outubro de 2020
Campo Grande 30º 21º

Amor e humanismo, a receita da vida na cultura popular na fronteira

Faz 60 anos, antes de virar município autônomo, que Bodoquena já poderia ser uma das referências culturais de Mato Grosso do Sul. Nestas seis décadas, quase anonimamente, resistem no distrito de Morraria - berço da formação da cidade - as raízes familiares da religiosidade, do folclore e da tradição da Folia de Reis. E há 14 anos, em Assunción, capital do Paraguay, o Ballé Folclórico Ibero-Americano, dirigido por Nancy Cristaldo, encanta a América Latina e outros continentes com sua arte.

Touro Candil - Foto Hildebrando Procópio

Não por acaso, e nesta mesma direção longeva, caminha a Festa do Touro Candil, de Porto Murtinho, sustentado por mãos idealistas de pessoas do povo, conhecidas como Maria Arce e Rose, do Bandido, e Giséle Fróes, do Touro Encantado, ou anônimas, como as Marias e Josés do lugar.

Com apresentações consagradas em diversos países (Coréia, China, Japão, Alemanha, Brasil e Uruguai, entre outros), o Ballé Folclórico Ibero-Americano revitaliza a cena cultural na América Latina. Sua fundadora, a diretora e coreógrafa Nancy Elizabeth Cristaldo, fez aniversário no sábado passado, 14. Ganhou um bolo e os parabéns do público murtinhense na Praça de Eventos. E foi ela quem deu o presente, na verdade, ao oferecer a todos a chance de assistir uma das mais belas exibições de dança, viajando do tradicional ao clássico, com a "pegada" peculiar da força da arte nativa.

Dirigido por Edmilton Serrano, o Grupo Folia de Reis de Bodoquena tem duas formações. Uma delas foi convidada pela organização do Festival de Cultura e Turismo de Porto Murtinho. Quem não conhecia o grupo ficou deslumbrado com a simplicidade e a convicção de homens e mulheres que mantêm a tradição com as próprias mãos e o suor de quem não permite ver enterradas suas identidades ancestrais.

"Fazemos por amor. É a nossa história, a história da nossa família, dos nossos amigos, das nossas crenças, dores e alegrias", conta José Rodrigues, o Zé Bodoquena, 55, agricultor, servidor público e um dos "resistentes" da Folia de Reis bodoquenense. Essa antiga manifestação tem origem luso-espanhola e inspiração no ciclo natalino (de 24 de dezembro a seis de janeiro, o Dia de Reis). O nome da cantoria reporta-se à passagem bíblica da visita dos três reis magos ao Menino Jesus. Em território sul-matogrossense, esse festejo já foi agenda de diversos municípios. Hoje, só três o realizam: Bodoquena, Camapuã e Paranaíba.

Edson Moraes, especial para MS Notícias