24 de maio de 2024
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EXTREMA DIREITA

Bolsonaristas de MS tentam soltar acusado de mandar matar Marielle Franco

Marcos Pollon, Luiz Ovando e Rodolfo Nogueira foram derrotados, pois a maioria da Câmara dos Deputados decidiu manter a prisão de Chiquinho Brazão

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Um trio de deputados federais bolsonaristas de Mato Grosso do Sul Marcos Pollon e Rodolfo Nogueira, ambos do PL, e Dr. Luiz Ovando (PP) votou nesta 4ª.feira (10.abr.24) pela soltura do colega Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), preso por mandar matar a vereadora Marielle Franco (Psol-RJ) em 2018, juntamente com o motorista Anderson Gomes.

Eram necessários 257 votos para manter Chiquinho Brazão preso. A maioria da Casa Baixa decidiu manter a prisão preventiva de Chiquinho Brazão, com 277 votos "sim", 129 votos "não"; outros 28 se abstiveram de se posicionar. Apenas o PL orientou voto contra.

Apesar dos bolsonaristas sul-mato-grossenses atuarem pela soltura do acusado, os demais deputados da bancada de Mato Grosso do Sul — Beto Pereira (PSDB), Dagoberto Nogueira (PSDB), Geraldo Resende (PSDB), Camila Jara (PT) e Vander Loubet (PT)  votaram pela manutenção da prisão de Brazão. 

Mais cedo, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados já havia emitido um parecer pela manutenção da prisão de Brazão, com 39 votos a favor. Outros 25 deputados da CCJ, incluindo Marcos Pollon, votaram pela soltura do acusado.

Chiquinho Brazão foi preso em 24 de março deste ano, por ordem do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. A Constituição Federal determina que prisões de parlamentares no exercício do mandato precisam ser submetidas aos plenários da Câmara (para deputados) ou do Senado (para senadores). O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), articulou para levar o caso para análise do conjunto dos deputados ainda nesta quarta-feira.

Paralelamente, o Conselho de Ética da Câmara iniciou um processo que pode resultar na cassação de Chiquinho Brazão.

Chiquinho Brazão está atualmente preso por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em Campo Grande, no Presídio Federal.

O voto de Marcos Pollon, junto com outros parlamentares, para liberar Chiquinho Brazão da prisão levanta questionamentos sobre a medida adotada, considerando a gravidade das acusações envolvendo o assassinato de Marielle Franco.

Como mostramos aqui no MS Notícias, as prisões dos mandantes ocorreram após o ex-PM Ronnie Lessa, o 3º preso pelas execuções, fechar acordo de delação premiada. 

AJUDE A PRESERVAR A MEMÓRIA DE MARIELLE FRANCO E ANDERSON GOMES 

Desde que foram executados, Marielle e Anderson foram alvos de diversas fake news produzidas pela extrema direita no Brasil. O Instituto Marielle Franco preparou uma lista em que desmente as principais fake news usadas para atacar a memória da vereadora que teve um legado de luta pela justiça social. Veja a lista de fakes desmentidas aqui

Viu alguma calúnia sobre Marielle Franco circulando em algum lugar? Denuncie AQUI

BRAZÃO E OS BOLSONAROS

Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão na Alerj.Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão na Alerj.

Vamos lembrar que reproduzimos aqui no MS Notícias, a informação do jornal The Intercept. O veículo divulgou na 3ª feira (23.jan.24) que Domingos Brazão, Conselheiro do Tribunal de Contas e político emedebista do Rio de Janeiro, seria um dos mandantes do assassinato da vereadora e do motorista. 

Brazão trata Flávio Bolsonaro como pupilo e juntos colaboraram na defesa das milícias do Rio de Janeiro. O político seria apenas um dos mandantes do crime.  

LIGAÇÃO COM O CLÃ BOLSONARO

Chiquinho Brazão na Câmara e em campanha para Bolsonaro em 2022, ao lado de Flávio. Créditos: Mario Agra Câmara dos Deputados / Rede XChiquinho Brazão na Câmara e em campanha para Bolsonaro em 2022, ao lado de Flávio. Créditos: Mario Agra Câmara dos Deputados

Assim que saiu a notícias de que Brazão era um dos mandantes, a extrema direita, incluindo Carla Zambelli e Deltan Dallagnol foram às redes tentar relacionar Brazão com políticos de esquerda, dentre eles, a ex-presidenta Dilma Rousseff. No entanto, a família mais ligada ao clã Brazão é o Clã Bolsonaro.   

Os passaportes diplomáticos dados por Jair Bolsonaro  (PL) à esposa e ao filho do deputado federal Chiquinho Brazão (União) é apenas um dos laços que ligam as duas famílias, que têm laços históricos com a milícia que atua na região de Rio das Pedras, na zona Oeste do Rio de Janeiro.

Domingos Brazão atuou em dobradinha com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), a quem tinha como uma espécie de pupilo. "Vossa excelência é um deputado jovem e, mesmo assim, percebe-se, não somente pelas suas afirmações de hoje, mas pela sua postura em plenário, que vossa excelência procura preservar o que há de melhor, a maior instituição, que é a família. Infelizmente, há aqueles que apostam no contrário. Vejo parlamentares apresentarem projetos que visam liberar casamento de homem com homem, mulher com mulher e outras coisas. V.Exa., embora sendo jovem, ainda mantém essa postura firme, que, com certeza, é fruto da educação de seus pais, uma questão de criação", disse Brazão dirigindo-se a Flávio Bolsonaro na sessão de 4 de março de 2006 da Alerj.

O elogio ocorreu após o filho de Bolsonaro elogiar o projeto de Brazão para conceder o título de cidadão ao pastor Sebastião Ferreira, da Primeira Igreja Batista de Vila da Penha, que morreu em 2017.

MILÍCIAS E ESCRITÓRIO DO CRIME

Além das questões de costumes, Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão colaboraram na defesa das milícias do Rio de Janeiro. Em 2006, quando Marcelo Freixo criou a CPI das Milícias, apenas os dois se posicionaram contra a investigação.

Ronnie Lessa, que delatou Brazão, morava a cerca de 100 metros da casa do clã Bolsonaro no condomínio Vivendas da Barra. De acordo com o escritor Bruno Paes Manso em seu livro "A República das Milícias", Lessa mantinha contato com o Escritório do Crime e com milicianos de Muzema, ligados ao Capitão Adriano. Manso também menciona a relação de Lessa "com figurões como Rogério de Andrade e Domingos Brazão".

O Capitão Adriano é Adriano da Nóbrega, que liderava o Escritório do Crime e empregou a mãe e a ex-esposa no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), ambas faziam parte do esquema de "rachadinha" no gabinete. O miliciano foi morto em 2020 e foi apresentado ao clã Bolsonaro por Fabrício Queiroz, que também tem ligações com a milícia de Rio das Pedras.

Durante as investigações sobre a morte de Marielle Franco, o MP-RJ apreendeu uma agenda com a esposa de Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar. Na agenda-guia, que deveria ser usada por Márcia para ajudar a família caso Queiroz fosse detido, há um coronel identificado como amigo de Queiroz e "braço direito do Brazão (sic)", uma possível referência a Domingos Brazão. Na caderneta ainda haviam nomes de pessoas ligados ao clã Bolsonaro e também a Adriano da Nóbrega.

Outra ligação entre Flávio e Brazão, que faziam parte da bancada da "segurança pública" na Alerj, é o ex-assistente de câmera Luciano Silva de Souza. Em 2019, Brazão nomeou Souza para o cargo de subdiretor da TV Alerj, o mais alto na hierarquia do departamento, e ele ficou responsável por gerir um contrato de cerca de R$ 800 mil por mês (quase R$ 10 milhões anuais) com a empresa terceirizada Digilab. Em seu currículo, Souza mencionou sua participação em recentes campanhas eleitorais do PSL, como a de Flávio Bolsonaro para o Senado.