30 de novembro de 2020
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À DERIVA

Com aprovação derretendo, Bolsonaro vê aumentar a deserção de apoiadores

Imprensa internacional especula sobre impeachment e até sugere que general já assumiu "presidência operacional"

Enquanto o número crescente de deserções políticas e afetivas vem aumentando à sua volta, o presidente Jair Bolsonaro insiste em adubar o terreno áspero da instabilidade sobre o qual tenta empurrar o governo, sem saber para onde ou até se vai para a frente. Um dos retratos dessa realidade é a recente pesquisa DataFolha mostrando que Bolsonaro perde tanto prestígio que na crise do coronavírus o ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, tem o dobro de aprovação que a atribuída ao chefe da Nação.

A postura desastrosa e irresponsável nos três meses de trauma nacional por causa da pandemia não só provocou divisões internas do Planalto, como também obrigou vários apoiadores de peso a retirar o apoio dado antes e depois da disputa presidencial. E agora passa a suscitar versões sobre manobras favoráveis ao impeachment e até mesmo com a investidura informal de um militar, o general Braga Netto, no comando operacional da Nação.

No Planalto, os fragmentos governamentais estão evidentes nas relações truncadas entre o presidente e alguns ministros, entre os quais Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Sérgio Moro (Justiça e Segurança Publica) e Paulo Guedes (Economia). Os três basicamente por causa de orientações divergentes em relação ao enfrentamento da pandemia.

Mas, antes, Bolsonaro já havia ficado sem outros importantes auxiliares do staff, entre os quais os ministros e generais de Exército Carlos Alberto dos Santos Cruz, da Secretaria de Governo, e Maynard Santa Rosa, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, ambos sem ânimo para permanecer por desconforto com a interferência dos filhos do presidente e pelo comportamento contraditório de Bolsonaro.

POLÍTICOS

Brasília - Praça dos Três Poderes. Praça dos Três Poderes - Congresso Nacional. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

No Congresso, os desertores que antes se contava nos dedos agora já avançam além das dezenas na Câmara dos Deputados e do Senado. Entre os parlamentares que se elegeram beneficiados pela onda bolsonarista, mas contribuíram para reforçar sua capilaridade, já deixaram o barco do capitão figuras como os deputados federais Joyce Hasselmann, Kim Kataguiri e Alexandre Frota; a deputada estadual Janaína Paschoal, co-autora do pedido que levou Dilma Roussef ao impeachment.

Ainda na política, as perdas contabilizadas alinham de um lado lideranças nacionais que romperam declaradamente, como os governadores João Dória Jr (SP) e Ronaldo Caiado (GO); e em outro bloco, as forças que mantêm relações institucionais com Bolsonaro, mas autônomas em relação às orientações do presidente, entre as quais os presidentes do Senado, David Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia.

No universo de celebridades Jair Bolsonaro vê diminuir progressivamente o rosário de apoios que antes era gigantesco. Antes do pandemônio instalado pelo Covid-19, ele tinha ficado sem a companhia de astros como o cantor Lobão, o historiador Marco Antonio Villa, o cineasta José Padilha e a jornalista Raquel Sheherazade. Em seguida, ingressaram no time dos decepcionados os atores globais Thiago Lacerda e Carlos Vereza, o apresentador de TV Danilo Gentili e o jornalista Gilberto Dimenstein.

PRESIDENTE OPERACIONAL

A grande e negativa repercussão internacional do comportamento de Jair Bolsonaro na pandemia do Covid-19 explodiu como uma bomba de violento impacto no seio das Forças Armadas Brasileiras. E motivou a imprensa de dezenas de países a alinhavar versões e especulações sobre as consequências que seriam inevitáveis para o Brasil.

Entre as avaliações mais instigantes foi a reportagem do jornalista investigativo Horácio Verbitsky, da Argentina. Ele escreveu que o alto comando do Exército, força que é a maioria nos escalões superiores da Republica, designou o ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, para assumir o que classificou de “presidência operacional” do País. Segundo Verbitsky, um alto oficial do exército brasileiro teria revelado a um correspondenteo argentino que o presidente Jair Bolsonaro não está sendo ouvido pelas autoridades na hora de tomarem decisões

“Houve uma comunicação por telefone de um alto chefe do exército brasileiro com um da Argentina, em que o brasileiro informou que haviam tomado a decisão de contornar o presidente Bolsonaro em todas as decisões importantes”, disse o comunicador no programa “Habrá Consecuencias”, da Radio El Destape. Verbitsky afirma que Bolsonaro atua como “monarca sem poder efetivo” e quem agora comanda o país é o general Walter Braga Netto, da Casa Civil.