28 de setembro de 2020
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NAS CINZAS

Corumbá pagou R$ 125 mil por show de cantor baiano em decadência

O prefeito Marcelo Iunes (PSDB) sustenta que a escolha das atrações agradou o público

Se Ernesto de Souza Andrade Jr. não estivesse com sua carreira em linha descendente e há anos destronada do cenário de ponta da música nacional, certamente o preço que foi pago por sua contratação para animar uma noite do carnaval corumbaense não causaria tantos questionamentos.

No entanto, Ernesto – nome de batismo do baiano Netinho – já não é o mesmo astro que explodiu no Brasil como vocalista da Banda Beijo e depois de tumultuadas experiências perdeu o espaço que ocupava na vitrine da fama e passou a ser considerado um artista de segunda.

Em contratos executados sem licitação, escorados por critérios de inexigibilidade, a Prefeitura de Corumbá pagou R$ 125 mil para Netinho cantar durante uma hora e 40 minutos na noite de 21 de fevereiro na Generoso Ponce, uma das praças publicas de Corumbá. Seu cachê foi o maior das atrações especiais que o Município agendou para o seu carnaval. Reinaldo, ex-Terra Samba, faturou R$ 100 mil; o grupo Kemuel, R$ 50 mil; e a MC Mila, R$ 25 mil. Esses valores se referem a uma única apresentação.

O prefeito Marcelo Iunes (PSDB) sustenta que a escolha das atrações agradou o público, que o valor pago não fere a disponibilidade orçamentária para o carnaval e os contratos foram todos celebrados de acordo com as exigências legais. A inexistência de processo licitatório é outro fator de polêmicas.

Mas o que chama a atenção mesmo é a situação financeira de uma prefeitura que não consegue bancar os custos de necessidades básicas da população, principalmente nas áreas de saúde, educação e pavimentação urbana, e desembolsa R$ 300 mil só com quatro das atrações artísticas do carnaval, sendo que uma delas, a que custou mais caro para os cofres públicos, é um cantor em visível decadência no cenário musical do País.

Desde que foi diagnosticado com uma grave doença e consequências causadas pelo uso de anabolizantes para “bombar” o físico, tendo que ausentar-se dos palcos durante um longo tempo, Netinho voltou ao trabalho sem conseguir ocupar o mesmo espaço que tinha entre os grandes nomes da música. Isso vem sendo constatado ano a ano, com sua ausência dos grandes eventos, como o próprio carnaval baiano.

Com isso, os episódios desgastantes e contraditórios foram se sucedendo. Em 2018, ao apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro, entrou em rota de colisão com diversos artistas que o apoiaram durante sua doença. No carnaval de Paracuru (BA), em 2019, o MP (Ministério Publico) fez a Prefeitura suspender o contrato com o cantor alegando que o valor do cache não era compatível com os recursos e necessidades do Município. Diante disso, Netinho se ofereceu para fazer um show de graça, em troca apenas das passagens e custos de deslocamento, alimentação e hospedagem da banda.

Em um comentário de conteúdo homofóbico, mas abordando o estágio da carreira do intérprete, o crítico Hagamenon Brito atacou: “Pensem num gay burro e reacionário: o decadente cantor baiano Netinho. Por que não te calas?”.

Alex Oliveira, em postagem no Bahia Notícias, foi mais contundente: “Esse cantor acabou faz tempo. Ele vive choramingando por aí que deu uma guinada na carreira no início dos anos 2000 pq não era feliz mas, de fora, todo mundo vê que ele era pessoa e artista muito mais preferível naquela época. Hoje ele se reduziu a esse espantalho tosco, triste e decadente, surfando no lado errado da história. Tenho pena”.