22 de maio de 2024
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GOVERNO FEDERAL

Ministra denuncia 'machosfera' ao inaugurar IMOL na Casa da Mulher Brasileira

Combate ao discurso de ódio é um dos mecanismos do enfrentamento ao silenciamento das mulheres

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A ministra da Mulher, Cida Gonçalves, denunciou na tarde desta desta 6ª.feira (31.mar.23), durante a inauguração do Instituto de Medicina e Odontologia Legal (IMOL), na Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande (MS), o movimento conhecido como 'machosfera', que tem como objetivo colocar os homens como seres superiores. “Temos que enfrentar esses movimentos de ódio, como essa chamado ‘machosfera’, nas redes, tem mais de 30 mil seguidores, com único objetivo de propagar ódio contra as mulheres”, disse a ministra.  

Cida discursou para uma sala repleta de homens e mulheres, que ocupam cargos e posições de liderança em MS, entre as quais estavam a prefeita de Capital sul-mato-grossense, Adriane Lopes (Patriota), a primeira-dama Mônica Riedel e a deputada federal Camila Jara (PT). 

(31-03-2023) - Prefeita Adriane Lopes e a primeira-dama, Mônica Riedel, escutam discurso de Cida Gonçalves na Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande (MS)(31-03-2023) - Prefeita Adriane Lopes e a primeira-dama, Mônica Riedel, atentas ao discurso de Cida Gonçalves, na Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz

“Estou aqui hoje, nesse espaço, que é um espaço que foi construído para ser integrado, humanizado, de respeito, para salvar vidas... para pedir solenemente para vocês, nos ajudem a construir um novo Brasil. Um Brasil que respeite as mulheres, que respeite todos os processos de vida e construção que nós temos. Nos deixem falar, nos deixem viver!”, cobrou a ministra do presidente Lula (PT). 

(31-03-2023) - Ministra da Mulher criticou a inação dos orgãos públicos frente à páginas radicais que propagam ódio contra as mulheres. Foto: Tero Queiroz(31-03-2023) - Ministra da Mulher criticou a inação dos orgãos públicos frente às páginas e indivíduos radicais que propagam ódio contra as mulheres. Foto: Tero Queiroz

Para a chefe do ministério que executa políticas públicas em defesa da mulher, é inadmissível ver a notícias todos os dias, de que uma mulher foi violada, que uma menina, de 9, 12 anos, foi violada. “Não é possível! Eu fui ao Piauí acompanhar o caso da menina de 12 anos, apesar de dizerem que não era papel de ministra eu fui. Porque também uma ministra tem que acompanhar os problemas do país. Eu fui. E não tem dor maior do que você ver o que aconteceu ali: os erros das instituições, as omissões das instituições, o desprezo das instituições... E o resultado é uma menina tentando se matar toda semana com o filho na barriga depois de ser violada”, narrou.

A ministra cobrou que sejam pensados mecanismos nas instituições contra movimentos que propagam ódio ao sexo feminino nas redes, como o do "machosfera". "A internet não pode ser terra de ninguém, onde esses crimes de misoginia são cometidos e nada é feito", disparou Cida. 

(31-03-2023) - Ministra da Mulher, Cida Gonçalves, discursa para autoridades durante inauguração de IMOL na Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz(31-03-2023) - Ministra da Mulher, Cida Gonçalves, discursa para autoridades durante inauguração de IMOL na Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz

O caso mais recente desse movimento citado pela ministra é o de Thiago Shoba (Thiago Schutz), que se declara "coach redpill", uma espécie de coach radical do movimento MGTOW. MGTOW é uma sigla que significa "homens seguindo seu próprio caminho". A ideia dos radicais, gira em torno do “homem como centro de tudo”. Para os integrantes de tal movimento, os homens não devem respeito às mulheres e que sim os homens deveriam ser respeitados por serem, na teoria deles, superiores em razão de ser do sexo masculino. Inclusive, Shoba defende que homens devem ter o mínimo de contato afetivo com mulheres, ou seja, propagando a misoginia. Esses e outros movimentos semelhantes formam o que está sendo chamado de “machosfera”.

A ministra acrescentou que combater esses discursos é um dos mecanismos do enfrentamento ao silenciamento das mulheres. “O que estou pedindo é que nós mulheres não queremos mais sermos caladas. Queremos ter o direito de fala. Queremos o direito de continuar falando aquilo que nós pensamos, porque, nós pensamos! E quando nós pensamos, nós falamos. Nós não queremos ser invisibilizadas. E nós não queremos ser mortas. São três palavras que são as únicas coisas que a gente quer, que se resume em uma única frase, que foi a campanha do governo federal no mês de março. A campanha foi: ‘esse governo respeita as mulheres’. Aqui eu quero dizer: ‘Esse país respeita as mulheres’ e essa é a marcha que nós vamos fazer no Brasil. E digo a vocês: onde for, falem, peçam, exijam respeito às mulheres!”, concluiu. 

A INAUGURAÇÃO DO IMOL 

Essa se torna a 2ª unidade de Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol) da Capital sul-mato-grossense e começa a funcionar a partir das 19h desta 6ª.feira (31.mar), na Rua Brasília, Jardim Imá. 

O núcleo é resultado de um Termo de Cooperação celebrado entre o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), e a Prefeitura de Campo Grande, por intermédio da Secretaria Municipal de Governo e Relações Institucionais e da Subsecretaria Municipal de Políticas para a Mulher.

(31-03-2023) - Ministra da Mulher, Cida Gonçalves. A deputada federal Camila Jara (PT) e a prefeita Adriane Lopes (Patriota), soltam laço inaugural da sala do IMOL na Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz(31-03-2023) - Ministra da Mulher, Cida Gonçalves. A deputada federal Camila Jara (PT) e a prefeita Adriane Lopes (Patriota), soltam laço inaugural da sala do IMOL na Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz

A sala foi viabilizada na Casa, para que após fazer a denúncia, a mulher em situação de violência já passe por exames periciais, tudo no mesmo local. Antes, as vítimas tinham que ir até à unidade do IMOL na Av. Sen. Filinto Müler, na Vila Ipiranga, há quase 10 quilômetros da Casa da Mulher. 

“A criação desta sala é estratégica, é uma construção estratégica. A Casa da Mulher Brasileira foi pensada para que a vítima pudesse chegar e fosse atendida em sua totalidade, sem precisar sair dali. Que aqui ela pudesse fazer tudo, recebendo um serviço humanizado e integrado. Precisamos continuar a luta para deter o número de feminicídios. Lutar para diminuir o número de crimes contra a mulher, um crime cruel e de ódio”, considerou a ministra da Mulher.

Segundo outras autoridades na inauguração, essa distância, a falta de dinheiro para se deslocar e até mesmo o longo percurso até o IMOL, davam tempo ao agressor para dissuadir sua vítima. 

“Muito se perdia destas vítimas por causa da distância entre a Casa da Mulher Brasileira e o IMOL. Agora vai facilitar muito a vida das vítimas”, avaliou o coordenador Geral de Perícias, José de Anchieta.

“A mulher será atendida de forma mais rápida. E essa é mais uma forma de encorajá-las a denunciar os agressores”, opinou o secretário-adjunto da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), coronel Ary Carlos Barbosa.  

Afirmação semelhante foi feita pelo diretor do IMOL, Sílvio Lemos. Ele apontou que a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), que funciona na Casa, encaminha para o IMOL uma média diária de duas mulheres para realização de exames e laudos. O mesmo número de mulheres é encaminhado pelas demais unidades da Polícia Civil, totalizando uma média de quase 60 exames e laudos em mulheres vítimas de violência por mês. “O Núcleo do IMOL funcionando dentro da Casa da Mulher Brasileira a tendência é que esse número cresça, uma vez que hoje muitas mulheres que pegam a requisição de exames na Deam, acabam desistindo de ir ao IMOL, seja porque se arrependeram ou porque foram convencidas pelos agressores”, analisou.  

"Nesse caminho, não voltam ao atendimento e acabam assassinadas", completou Cida Gonçalves.

POLÍTICA PÚBLICA DE COMBATE AO FEMINICÍDIO

(31-03-2023) - Deputada federal Camila Jara (PT), lembra que foi durante o governo da presidenta Dilma Rousseff que foi inaugurada a 1ª Casa da Mulher Brasileira do país, justamente essa de Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz(31-03-2023) - Deputada federal Camila Jara (PT), lembra que foi durante o governo da presidenta Dilma Rousseff que foi inaugurada a 1ª Casa da Mulher Brasileira do país, justamente essa de Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz

Camila Jara destacou a importância da construção da 1° Casa da Mulher Brasileira feita pela primeira mulher eleita presidente do país, Dilma Rousseff. "Essa casa e esse projeto foi ameaçado. No entanto, essa casa significa que temos que ter políticas públicas e investir o dinheiro para atender essas mulheres e lutar por elas. Que a inauguração do IMOL seja um avanço e referência para o Brasil inteiro e que outras mulheres consigam ter o mesmo acesso".

(31-03-2023) - Prefeita Adriane Lopes (Patriota), disse que usará de seu cargo para defender o direito das mulheres, a estar onde quiserem. Foto: Tero Queiroz(31-03-2023) - Prefeita Adriane Lopes (Patriota), disse que usará de seu cargo para defender o direito das mulheres, a estar onde quiserem. Foto: Tero Queiroz

Adriane Lopes reforçou que o grande desafio do seu mandato é combater a violência das mulheres da cidade. "Estou muito feliz por esse ciclo. Queremos ser referência em combater essa violência. Agir e efetivar para que as leis sejam cumpridas. Por ser mulher, esse desafio é maior. As mulheres são valentes e nós vamos avançar. Com todo respeito com todo os homens, mas vamos mostrar que nós mulheres podemos estar onde quisermos estar quando a gente batalha para isso", prospectou. 

Cida pediu à Chefe do Executivo campo-grandense que 'empreste' equipes da Casa da Mulher Brasileira para levar os conhecimentos de combate a violência contra mulher para outros estados brasileiro. A prefeita respondeu: "Nossa equipe está altamente capacitada. Nossa Casa é a 1ª do Brasil e é efetiva, as políticas públicas aqui acontecem, não só na discussão, mas na prática. E nós vamos colocar à disposição do país a nossa equipe de Campo Grande, para que possam somar a outros estados e outras capitas", respondeu.  

(31-03-2023) - Ministra da Mulher, Cida Gonçalves, solicitou equipes à prefeita Adriane Lopes (Patriota), para levar conhecimentos ao resto do Brasil no que tange o combate a violência contra mulher. Foto: Tero Queiroz(31-03-2023) - Ministra da Mulher, Cida Gonçalves, solicitou equipes à prefeita Adriane Lopes (Patriota), para levar conhecimentos ao resto do Brasil no que tange o combate a violência contra mulher. Foto: Tero Queiroz

Cida afirmou que a política pública de combate a crimes contra as mulheres que precisam continuar de maneira contundente. "Se não continuarmos, vai aumentar o número de feminicídios. Em 2021 uma mulher a cada sete, em 2022 uma mulher a cada seis. A luta é para diminuir isso. Quando assumimos, as mulheres eram mortas com 25 facadas, com tiros. Hoje, matam os filhos e depois as mulheres, para vê-las sofrer. Devemos militar contra a misoginia, crime de ódio", comentou a ministra. 

(31-03-2023) - A primeira-dama, Mônica Riedel, falou da esperânça de um dia as mulheres terem seus direitos. Foto: Tero Queiroz(31-03-2023) - A primeira-dama, Mônica Riedel, falou da esperânça de um dia as mulheres terem seus direitos. Foto: Tero Queiroz

Com a esperança de um dia não serem necessários estes atendimentos, a primeira-dama, Mônica Riedel, afirmou que enquanto as agressões são uma realidade as mulheres sejam bem atendidas em suas necessidades. “Esperamos que chegue cada vez menos pessoas, mas enquanto essas vítimas chegam, é importante estarmos preparados para atendê-las. Precisamos ser referência e estamos fazendo da melhor maneira possível”.

EQUIPE NO IMOL

A Sejusp, por meio da Coordenadoria-Geral de Perícias (CGP) e do IMOL, fornecerá cinco médicos legistas e três agentes de Polícia Científica para atuarem no Núcleo. Os profissionais atuarão em regime de plantão de 12 horas, que será dividido em dois turnos, sendo o primeiro de 7h às 13h e o segundo das 19h até a 1h da madrugada.

A nova sala na Casa da Mulher Brasileira passou por adequações, atendendo as normas de vigilância sanitária, sendo mobiliada com equipamentos médicos hospitalares necessários para o funcionamento do Núcleo. A reforma foi realizada pela Prefeitura de Campo Grande.

Além da responsabilidade sobre os servidores, a Sejusp fornecerá materiais e insumos necessários para a realização dos exames e laudos, como luvas, jalecos, toucas, reagentes, entre outros. Já a Prefeitura de Campo Grande ficará responsável pela manutenção da sala e pagamento de despesas como água, luz, internet, telefone, IPTU, limpeza e descarte adequado dos resíduos gerados. Não haverá transferências de recursos entre Sejusp e Prefeitura de Campo Grande.